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Outra vez a filmar Macau

February 28, 2011

João Rui Guerra da Mata e João Pedro Rodrigues estão de volta ao território para registar as derradeiras imagens de “A Última Vez Que Vi Macau”. O documentário está cada vez mais transformado em ficção. Os cineastas querem estreá-lo em Cannes.

Hélder Beja

Podia ser um projecto sem fim. De cada vez que João Rui Guerra da Mata e João Pedro Rodrigues regressam ao território para filmar – e esta é a terceira – há sempre mais qualquer coisa que interessa. Um edifício, uma personagem, uma rua ou um velho cinema esquecidos. “O problema é que para europeus como nós, Macau é sempre muito exótico – no belo e naquilo que não é belo”, admite João Rui Guerra da Mata. E aí reside a dificuldade em desligar a câmara.

“A Última Vez que Vi Macau”, título da obra que junta os dois cineastas portugueses na realização, começou como um documentário, conforme os próprios contaram a este jornal em Fevereiro do ano passado. Já então esse rumo parecia desviar-se e agora é mesmo certo: o filme, que deve estar pronto lá para o final do ano, será uma ficção. Não uma ficção convencional (se é que existe tal coisa), mas uma ficção.

Por agora, importa dizer que a câmara deste realizadores estás nas ruas de Macau. Para filmar o desembarque de peixe no Porto Interior, para voltar ao Mercado Vermelho – local sobre o qual poderá até nascer uma curta-metragem com o material recolhido – e para, como das outras vezes, filmar aquilo em que for tropeçando.

Rodrigues e Guerra da Mata também voltaram para captar sons. O mister está a cargo de Nuno Carvalho, responsável pelo som de quase todos os filmes do realizador de “Odete” e “Morrer como um Homem”, que também viajou até à RAEM. “A banda sonora – não no sentido da música mas dos sons que utilizaremos – terá grande importância. Será o som a procurar ambientes que irão colar com as imagens”, explica Guerra da Mata.

João Pedro Rodrigues prossegue dizendo que “A Última Vez que Vi Macau” será “uma espécie de ficção em off, mas que tenha um ritmo e uma história – aliás, várias histórias que desembocam umas nas outras”. Haverá, portanto, muito a acontecer para lá da imagem que o espectador verá. Pelo ouvido, entrarão acção e, possivelmente, as vozes dos próprios cineastas. “Mas nunca num registo ‘agora estamos aqui, agora vamos para ali’”, garantem.

O próprio Nuno Carvalho conta que há um som do território que muitas vezes se sobrepõe aos outros: o das muitas motas que passam por todo o lado. O trabalho é meticuloso. Enquanto o nosso ouvido selecciona entre todo o ruído que o rodeia, os microfones do sonoplasta são sensíveis e têm de ser ‘dirigidos’ da melhor maneira. “O microfone não tem cérebro. Nós temos de decidir por ele”, diz Carvalho.

Rodrigues e Guerra da Mata decidiram regressar a Macau para filmar depois de visionarem várias vezes todo o material recolhido nas duas visitas anteriores. “Antes, a nossa ideia não era tão clara sobre para onde o filme ia. Depois de ver o material encontrámos uma estrutura”, continua João Pedro Rodrigues.

Foi preciso perceber “o que faltava para colar as várias pequenas narrativas” e listar o que fazia falta filmar. Agora – e até 16 de Março, data em que deixam o território – os realizadores vão recorrer a figurantes locais e a “elos misteriosos” que permitirão interligar os diferentes momentos do filme.

“A Última Vez que Vi Macau” não será um thriller de gangsters ou de máfias, mas terá, de certo modo, o ambiente de filme negro que os realizadores já antes disseram reconhecer no território.

De Cannes para Macau

O projecto deve estar concluído no final do ano, depois de um processo de pós-produção que se adivinha longo. João Pedro Rodrigues e Guerra da Mata revelam a vontade de estrear a obra em Cannes. “Vamos fazer os possíveis para que isso aconteça. Tendo em conta o momento em que vamos finalizar o filme, o que faz sentido é Cannes ou Berlim. Mas gostávamos muito de levá-lo a Cannes”, admite Rodrigues.

João Rui Guerra da Mata fala também do circuito asiático de festivais de cinema que o filme poderá percorrer, com especial destaque para a mostra internacional de Pusan, na Coreia do Sul, que ambos vêem como uma espécie de “Cannes da Ásia”.

Depois, há a vontade de mostrar o filme em Macau. “Fará todo o sentido voltar cá com o filme. Queremos muito que isso aconteça e acho que de uma maneira ou de outra será possível”, refere Guerra da Mata, que chegou a viver em Macau nos anos 1970.

O que ainda não é certo mas que não sai da cabeça dos cineastas é o desejo de rodar um verdadeiro filme de ficção no território. E de, assim, voltarem a ver Macau pela objectiva da câmara.

Muitos projectos em andamento

João Pedro de Rodrigues recebeu recentemente o apoio do Instituto do Cinema e Audiovisual português para o seu novo filme, “O Ornitólogo”. A obra será uma revisão livre do mito de Santo António, ambientada na actualidade. “Antes do cinema, pensava seguir biologia. E este filme tem certamente que ver com esse meu passado, é uma espécie de vida emprestada”, brinca. O Santo António surge aqui “por ser o santo popular de Lisboa”, ainda que a rodagem, que deve arrancar em 2012, esteja prevista para Trás-os-Montes. Paralelamente, o autor de “Odete” está a preparar uma curta-metragem, intitulada ”Manhã de Santo António”. Mais uma vez, o santo popular joga um papel: este será um filme “sobre pessoas que regressam a casa depois da noite de Santo António”, que na capital lusa é sempre de grande folia. “É quase todo filmado em Alvalade, onde há uma grande estátua do santo, e tem qualquer coisa de filme de zombies.” Também João Rui Guerra da Mata tem uma curta-metragem em andamento. “O que Arde Cura” é “um filme de época, que se situa nos anos 1980, e que se passa na manhã em que houve o incêndio do Chiado”, em Lisboa.

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