O jasmim chegou ao Leal Senado
Numa manifestação de solidariedade com os activistas detidos no Continente, flores de jasmim foram ontem distribuídas no Leal Senado. A iniciativa foi promovida na Internet, para fazer chegar a mensagem aos visitantes do território.
Maria Caetano
São membros da Novo Macau, mas a iniciativa foi independente da associação que integram. Jason Chao, Scott Chiang e Choi Chi Chio apresentarem-se ontem no Leal Senado como promotores de um movimento de internautas organizado para fazer chegar aos ouvidos dos turistas do Continente palavras de ordem sobre habitação, liberdade de expressão e de associação, e botões de flores de jasmim – semelhantes àqueles que inspiraram na passada semana cidadãos de Pequim e Xangai a reunirem-se na ruas em acções pela democracia e pela protecção dos direitos fundamentais.
O evento “Tributo ao Jasmim”, promovido através da rede social Facebook por Chao, Chiang e Choi, despertava ontem a curiosidade de alguns visitantes, mas eram sobretudo as câmaras das equipas de reportagem que cercavam os organizadores da iniciativa.
No cenário, faixas com imagens de jasmins e um megafone, acompanhados de um apelo para que os transeuntes aproveitassem a oportunidade para dizerem de sua justiça. O deputado Au Kam San, da Novo Macau, esteve entre os que repetiram os slogans que levaram à detenção de activistas no Continente, no início da passada semana.
“Queremos alimentação, queremos trabalho, queremos habitação, queremos equidade, queremos justiça, a protecção da propriedade privada, a independência judicial, o início das reformas políticas e o fim do sistema de partido único. Viva a liberdade. Viva a democracia”, repetiu-se no Leal senado.
“Nas actuais circunstâncias, na China [Continental], não é permitido às pessoas formarem movimentos públicos populares. Por isso, as pessoas dizem que dão um passeio na rua, surgindo como uma coincidência que o façam juntas”, descreveu Chiang, sobre os motivos que levaram à realização da iniciativa solidária com os detidos de Pequim e Xangai.
“Tributo ao Jasmim” pedia ontem a quem estava de passagem que produzisse uma flor de papel, uma mensagem que os organizadores da iniciativa afirmaram pretender fazer chegar aos protagonistas dos movimentos chineses que recolheram inspiração dos levantamentos populares do Médio Oriente contra regimes autocráticos.
“No Continente, é algo de muito excepcional que os indivíduos possam erguer-se e desafiar o poder absoluto do Estado. O que pedem é na verdade algo de muito legítimo. No fundo, são direitos constitucionais que supostamente o Governo deveria garantir, como a propriedade privada, a dignidade do ser humano, liberdade de expressão, liberdade de reunião e associação”, explicou Scott Chiang. “O que as pessoas pedem não é uma revolução violenta. O que pedem é a materialização daquilo que já deviam ter há décadas”, juntou.
As autoridades de Pequim minimizaram na passada semana a dimensão dos protestos ocorridos no Continente, defendendo que a população está mais interessada na estabilidade do país e no desenvolvimento do “socialismo com características chinesas”.
Scott Chiang contrapõe com uma citação sobre a universalidade dos valores que é atribuída àquele que a história considerou o primeiro cidadão de Atenas: “Péricles disse uma vez que todas as coisas boas da terra devem sair à rua. Liberdade de expressão, liberdade de associação, dignidade na vida – todas estas coisas são coisas boas que todos nós, e não apenas os chineses, devemos partilhar”. “Queremos trazer isto para a rua. Há muitos turistas do Continente, queremos expô-los a esta mensagem”, declarou.
