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Simpatia pelo homicida

February 25, 2011

O pai foi assassinado por Guardas Vermelhos quando tinha sete anos. Passados 33, Lin Yuntao decidiu matar o homicida do seu progenitor. A história desperta sentimentos contraditórios na China e lançou o debate sobre um período de que ninguém se orgulha, explica o Global Times.

É uma história que começa em 1977, no Dia Nacional da China. O Continente vivia dias de incerteza, no rescaldo da morte de Mao Zedong e com a Revolução Cultural, que se arrastou de 1966 a 1976, ainda bem presente. Em 1977, o homem que está no centro desta história, Lin Yuntao, tinha sete anos e vivia na aldeia de Xibian, em Putian, cidade da província de Fujian.

No dia em que esta história começa, Lin Yuntao viu uma multidão em festa junto a um açude e aproximou-se para perceber qual a razão das celebrações. No chão estava o corpo do pai, Lin Jianyang, 34 anos, com marcas azuladas e negras no pescoço.

Lin Jianyang, à época secretário da fábrica de enlatados de Putian, tinha sido estrangulado e atirado para o açude por uma facção política da empresa, que restou da Revolução Cultural, explica o jornal Global Times, que deu esta semana grande destaque à história de Lin Yuntao – o responsável por um homicídio que tem gerado uma onda de simpatia na China.

Pouco depois da macabra descoberta e sem direito a autópsia, as autoridades da fábrica declararam que Lin Jianyang se tinha suicidado.

Novembro de 2010. Lin Yuntao, o homem que em 1977 tinha sete anos, abordou durante a noite o septuagenário Weng Yuanheng, um dos três homens que, segundo Lin, mataram o seu pai. Weng foi esfaqueado até morrer.

O caso de Lin, conta o jornal oficial em língua inglesa, abriu feridas antigas, recordando a muitos as vergonhosas e injustas soluções que se adoptaram na altura. Em 1982, prossegue o diário, o presidente do Supremo Tribunal Popular, Jiang Hua, entendeu por bem decretar que mais de 40 por cento dos chamados “contra-revolucionários” eram totalmente inocentes – nalgumas regiões, o número de absolvições subiu para 70 por cento.

O número de vítimas de “falsas acusações” no tempo do maoismo é algo que, no Continente, continua por apurar. Desde então, e só em Pequim, três milhões de pessoas viram ser-lhes retiradas acusações sem qualquer fundamento.

 

Os “vermelhos” e os outros

 

O frenesi maoista chega à fábrica de enlatados de Putian em 1966. Os Guardas Vermelhos não perderam tempo a criar duas facções rivais: de um lado os “vermelhos” conservadores e, do outro, os rebeldes.

Estudante na Universidade de Fuzhou e antigo soldado, Lin Jianyang recusou escolher uma posição, diz o Global Times. “Manteve-se afastado numa sociedade que, durante mil anos, se orgulhou da sua obediência e conformismo”, escreve o jornal.

As duas facções rapidamente se envolveram no que seria uma década de combates mortais, com baixas em ambos os lados – que não estão, contudo, registadas, segundo indica o Arquivo de Putian.

Quando o Bando dos Quatro perdeu o poder, a fábrica de enlatados era controlada pelos “vermelhos”, que tinham exterminado totalmente a antiga liderança. Os sobreviventes da luta, incluindo Lin Jianyang, foram enviados para campos onde tiveram “aulas de política” para aprenderem a luta de classes maoista. Um número não determinado destes “alunos” morreu com uma bala na cabeça ou enforcados com lençóis – casos que, quando registados, foram classificados como suicídios.

O “suicídio mais improvável”, refere o jornal, foi o de Lin Jianyang, homem enérgico, de convicções fortes e optimista. Tanto os colegas de trabalho, como os vizinhos e familiares afastaram de imediato a tese do suicídio, acreditando que o jovem foi morto pelos líderes vermelhos – Weng Yuanheng, Huang Wenmei e Fu Yubing.

A teoria ganhou força em 1979, quando a mulher de Weng Yuanheng o ameaçou em frente a mais de 100 trabalhadores da fábrica: se o homem continuasse com a amante que tinha na altura, disse a enfurecida esposa, iria denunciá-lo pelo homicídio de Lin Jianyang. Lin Fuzhen, um trabalhador da fábrica agora com 72 anos, assistiu ao episódio. “Tudo demasiado claro! Mas o Governo fechou os olhos”, lamenta.

A polícia nunca investigou o caso, apesar de durante dez anos a família Lin ter apresentado petições à justiça. “Sem uma saída à vista”, conta o irmão mais novo de Lin Yuntao, “ajoelhamo-nos em frente a um médico e pedimos-lhe que atestasse por escrito que o corpo [de Lin Jianyang] apresentava ferimentos graves, a barriga inchada com retenção de líquidos, a boca cheia de sangue”.

Apesar dos pedidos sucessivos (500 cartas, incluindo algumas endereçadas aos então líderes Deng Xiaoping e Hua Guofeng), nota o diário oficial chinês, a família não recebeu resposta das autoridades. “Cumprimos a lei, mas não resultou”, lamentou Lin Jianyi.

 

A história e as vítimas

 

A morte de Lin foi apenas uma entre as incontáveis vítimas das lutas de poder que aconteceram num ambiente político caótico, nota o historiador Yang Guisong, professor da Universidade Normal em Xangai. “As populações envolveram-se espontaneamente numa luta de facções e participaram abertamente nesta guerra, uns contra os outros”, diz. “Conflitos na rua e mortes com motivações políticas, especialmente nas zonas rurais, eram comuns.”

A ideologia que guiava as facções era vaga – e por vezes inexistente –, sendo a luta pelo poder a única constante. “Hoje em dia os sobreviventes não podem, ou não querem, contar o que se passou no passado. Preferem esquecer”, acrescenta o académico.

Num gesto invulgar, a nova gestão da fábrica deu uma compensação (quase simbólica) à família Lin, já em 1981.

Os filhos de Lin Jianyang cresceram sem pai e em condições que não coincidem com a ideia de uma China beneficiada com a abertura e a reforma. A filha mais velha de um total de quatro descendentes ficou paralisada em 1996. A mais nova, sem estudos, é trabalhadora migrante na província de Guangdong. A frase “se o pai estivesse vivo” é recorrente.

 

O que sobrou

 

Dos três alegados homicidas, apenas um continuava vivo em 2010: Fu Yubing morreu afogado em 1984 e Huang Wenmei faleceu em 1993. Weng Yuanheng, um Guarda Vermelho descrito como sendo particularmente agressivo, foi o que resistiu, com uma vida em nada brilhante.

Tendo criado muitos inimigos durante a Revolução Cultural, Weng não conseguiu ser promovido durante o tempo que passou na fábrica. Sem filhos e com uma pensão mensal de 1300 yuan, passava o tempo a coleccionar antigos recortes de jornais com directrizes e glórias do Partido Comunista, e a jogar póquer num centro comunitário onde a imagem de Mao continua imponentemente pendurada numa parede.

A 13 de Novembro, Lin Yuntao encontrou Weng Yuanheng a jogar cartas num hotel perto da fábrica. Entrou e juntou-se ao póquer do septuagenário. Nunca tinham falado e Weng desconhecia o papel que tinha na vida do homem.

Só quando saíram do hotel é que o antigo Guarda Vermelho ficou a saber quem o acompanhava. Os jornais de então explicam que Lin perguntou a Weng a razão pela qual matou o seu pai. Sem resposta satisfatória, Lin Yuntao esfaqueou Weng 17 vezes. A arma do crime? Uma tesoura vermelha roubada numa mercearia.

“Como ironia final, a polícia demorou apenas 20 horas a descobrir e deter Lin Yuntao por homicídio”, escreve o Global Times. O caso ainda está a ser investigado, mas foi já concluída uma avaliação psiquiátrica que deu Lin como mentalmente estável.

As autoridades policiais fizeram ainda questão de desmentir publicamente que Lin Jianying tenha sido assassinado há 33 anos. “Toda essa história peca por falta de provas”, declarou a polícia.

 

Apoio popular

 

Wang Zhigong, a advogado de Lin Yuntao, está longe de ser o único a defender que a punição do seu cliente deve ser reduzida, atendendo às circunstâncias, apesar de não haver qualquer dúvida de que praticou o crime de homicídio. Dos 100 antigos trabalhadores da fábrica, 55 assinaram uma petição em que pedem tolerância para Lin.

“Obcecado com o desejo de vingar a morte do seu pai, Lin identificou o inimigo. Aquilo que fez não pode ser comparado ao comportamento de outros criminosos”, defende Wang. “É essencial conseguir recolher provas que demonstrem que o pai de Lin foi assassinado por Weng Yuanheng, embora o processo seja extremamente difícil.”

O criminalista e professor universitário Ruan Qilin não acredita que a justiça se deixe tocar pelos sentimentos despertados em torno do gesto de Lin. “A lei foi desrespeitada durante a história comunista. Até a Constituição foi ignorada”, vinca. “Nesta nova era, as leis devem ser cumpridas através de decisões judiciais justas e uma das funções da lei criminal moderna é acabar com o ciclo vicioso da vingança.”

O pai de Ruan Qilin foi perseguido até à morte durante a Revolução Cultural. À semelhança de outras pessoas da sua idade, sentiu que o único caminho possível era esquecer o passado e continuar a viver.

O escritor Zheng Yuying, conhecido no mundo literário chinês como Yefu, espancou em 1982 o Guarda Vermelho que perseguiu a sua família. Tornou pública a experiência no livro “Vida e Elegia”.

“Somos todos vítimas de uma época em que o lado diabólico e exibicionista da natureza humana se sobrepôs a todos os poderes de equilíbrio”, diz Zheng. “É um gesto cáustico procurar a vingança e é nobre saber perdoar.” Zheng Yuying acredita agora que a ferida colectiva só pode ser curada de forma pacífica quando a verdade histórica for conhecida e houver um pedido de desculpas público.

Na antiga fábrica quase todos acreditam que Lin Jianyang foi brutalmente assassinado por Weng. Falar do que aconteceu em Novembro de 2010 é tocar numa época que deixa todos desconfortáveis. Zheng Baojing, ex-colega de Lin, com 70 anos, resume a ideia: “Se o filho dele é hoje considerado um homicida, quem não o é? Ninguém está limpo”.

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