Isto é CSI à Macau
O departamento de ciências forenses da Judiciária é digno de cenário de série de televisão: equipamento de ponta e dezenas de profissionais bastante qualificados. Mas o dia-a-dia dos investigadores está longe de um enredo de acção.
Maria Caetano
Não há azáfama nos corredores, suspense, corridas às cenas de crime e perseguição de bandidos. O CSI de Macau – divisão de inspecção ao local de crime, como é conhecida a unidade da Polícia Judiciária (PJ) na denominação em língua portuguesa – é um laboratório pacato no COTAI, onde investigadores de bata branca seguem os procedimentos repetitivos da análise forense na tentativa de confirmarem provas materiais que secundem a investigação criminal.
“Ir ao local fazer a peritagem, prender pessoas e no fim ainda ter uma rapariga bela a abraçar-nos é cena de filme. Eu também queria, mas na realidade não é nada assim.” Chio Tak Iam é chefe do departamento que reúne a divisão de CSI (conforme a sigla inglesa popularizada pelas séries televisivas), a divisão de peritagem e ciências forenses e a divisão de apoio técnico – que deve assegurar que nada falha na recolha de provas e na segurança dos laboratórios da PJ. O departamento de ciências forenses conheceu a actual estrutura no âmbito da reestruturação orgânica da Judiciária, operada em finais do ano passado.
“É um trabalho muito duro e muito prático”, conta. “Avaliar um simples material envolve, às vezes, muitos meios técnicos. Um único meio não é suficiente, não é seguro. O processo de peritagem é bastante complicado. Não é como nos filmes, onde basta misturar as coisas numa máquina e acerta-se logo”, descreve.
Os laboratórios da PJ estão equipados com tecnologia de ponta para descodificar ADN, identificar vestígios balísticos, decifrar compostos bioquímicos de narcóticos e desmascarar notas e documentos falsos. A principal aplicação de todos estes aparelhos de alta tecnologia foi, no entanto, no ano passado a realização de exames de paternidade requeridos pela Direcção dos Serviços de Identificação.
A PJ recebeu 127 pedidos para confirmação de paternidade através de exame de ADN em 2010 – processo complexo que, após a recolha de tecidos orgânicos, implica o seu pré-tratamento por secagem, contagem informática de moléculas e análise dos registos com recurso a 15 marcadores – o habitual para provas de paternidade.
Outras das principais actividades do departamento de ciências forenses tem consistido na construção de uma base de dados de características de armas e projécteis disparados. Os poucos crimes por resolver – cada vez menos, na estatísticas das Forças de Segurança – deixam muito tempo livre aos investigadores da PJ.
Investimento “cauteloso”
É raro chegarem ao laboratório do COTAI crimes mais graves como fogo posto, homicídios ou atentados à bomba – comuns na pré-transferência, mas em desuso na era RAEM. O uso de armas também não parece ser problema no território. O que dá actualmente mais trabalho ao departamento de ciências forenses é o narcotráfico. “Em termos de número, os principais casos são relativos a droga”, revela o chefe da unidade.
Ainda assim, no ano passado, o departamento sob tutela de Chio Tal Iam recebeu seis pedidos de exames de toxicologia relacionados com crimes de drogas. A ketamina e o ice são aquelas que surgem com maior frequência nos laboratórios, onde têm de ser forçosamente decompostas e analisadas para constituição de prova.
Nas estatísticas de 2010, há ainda 14 pedidos de exames relativos a casos de homicídio, 18 relacionados com violação, outros 15 feitos a propósito de roubos em investigação e cinco associados a furtos. O departamento recebeu ainda dez pedidos de identificação de indivíduos. Os números não correspondem a casos únicos, já que a investigação de um mesmo crime pode, em diferentes fases, exigir vários exames.
A unidade da PJ conta 83 especialistas em ciências forenses e nove funcionários administrativos, todos com elevadas qualificações. No total, há 78 diplomados. A maioria é formada nas áreas da Química e Biologia em universidades dos Estados Unidos, Hong Kong e Continente, e passa por um processo constante de reciclagem de conhecimentos.
“Esta área tem tido um desenvolvimento muito rápido. Hoje em dia, temos de acompanhar aumentando o equipamento, a formação. Porque, actualmente, até os próprios criminosos têm mais capacidade de contra-investigação”, explica o chefe do departamento.
Todos os anos são introduzidos novos aparelhos no laboratório. E embora o investimento anual seja difícil de controlar – “é difícil calcular os casos que vamos ter” – procura ser “cauteloso”, avança Chio. “Só introduzimos equipamento de que precisamos em função dos casos que temos. Nunca mais que isso”, diz sem adiantar valores.
