Eles sem elas não são ninguém
O cinema não é assim mas Hollywood é: os Óscares são sempre o degrau que falta para quem quer sobreviver. Entre os nomeados da 83ª edição, que acontece na manhã de segunda-feira, há novatos e veteranos. E muito cinema para ver.
Hélder Beja
Quanto valem estes prémios? Alfred Hitchcock nunca recebeu a estatueta de melhor realizador. Stanley Kubrick andou sempre esquecido. Robert Altman como que não existia. Naquilo que o cinema é, para lá do glamour e do estrelato, isto de receber um Óscar interessa pouco ou quase nada. Mas quando o assunto é a tenda de circo gigante que é Hollywood – e que também alberga e muitas vezes premeia grandes filmes – a história é outra.
A 83ª cerimónia dos Óscares começa em Macau quando estiver a nascer o dia na próxima segunda-feira. Às 9h, pelo fuso-horário local, as caras mais famosas da cena cinematográfica juntam-se no Kodak Theatre. Os vencedores, esses, até já estão decididos. Os 5755 votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood deram o seu veredicto até terça-feira, falta apenas conhecê-lo.
Os apresentadores oficiais da cerimónia serão James Franco e Anne Hathaway, duas das caras novas de Hollywood. Mas formam ainda parte da festa, em palco, Tom Hanks, Nicole Kidman, Reese Witherspoon, Jude Law, Annette Bening, Cate Blanchett, Hugh Jackman, Scarlett Johansson, Russell Brand, Helen Mirren e Robert Downey Jr.
Os Óscares são os Óscares, para o bem e para o mal, e os deste ano têm muitos pontos de interesse. Ei-los.
Os filmes
Tom Hooper conseguiu ter unhas para realizar o filme mais nomeado deste ano: “The King’s Speech” ficciona a história verdadeira da ascensão ao poder do rei Jorge VI de Inglaterra, homem de bom coração mas palavra difícil, e mereceu 12 indicações, entre elas a de melhor filme. É, por vários motivos, um dos favoritos para a gala de segunda-feira – mais adiante falaremos das nomeações que o elenco recebeu. Hooper é um realizador com pouca história que ainda assim logrou também nomeação na categoria para melhor direcção.
A longa lista de dez nomeadas a melhor fita do ano tem alguns repetentes – como os irmãos Coen com o seu western “True Grit”, protagonizado por Jeff Bridges; e Danny Boyle e “127 Hours”, história de um montanhista que tem de escolher entre a carne e a vida. Mas tem também estreias anunciadas. A de Christopher Nolan, realizador de “Memento” que, com “Inception”, consegue pela primeira vez estar entre os nomeados a filme do ano, é uma delas. Mesmo assim, Nolan falha a shortlist dos melhores realizadores.
David Fincher é que não vacila e volta à lista, depois de se ter estreado com “The Curious Case of Benjamin Button”. “The Social Network”, a adaptação à tela do nascimento do Facebook, foi um sucesso de bilheteira e promete dar luta na gala de Los Angeles.
Falta falar de David O. Russell, que consegue estar na lista para melhor realização e melhor filme com “The Fighter”. E, ainda e evidentemente, de Darren Aronofsky e “Black Swan”. O cineasta prossegue uma carreira pejada de títulos que valem a pena, de “Requiem for a Dream” a “The Wrestler”.
Agora, Aronofsky pega em Natalie Portman e no bailado clássico para traçar as duas faces da coisa humana – a luz e a treva cobertas pelas penas de um cisne.
“The Kids Are All Right”, de Lisa Cholodenko, e “Winter’s Bone”, de Debra Granik, são as restantes fitas candidatas a melhor do ano e que também têm alguns dos seus actores nomeados – já lá iremos.
Estamos, é claro, a deixar “Toy Story 3” para o fim. O filme dirigido por Lee Unkrich está nomeado na categoria principal e também para melhor animação. Isto poderia significar que um dos galardões – previsivelmente o segundo – estaria garantido. Mas não é assim. E não é porque há um filme chamado “The Illusionist”, de Sylvain Chomet, qualquer coisa como uma obra-prima contemporânea da animação em movimento, com texto original de Jacques Tati. Os cinéfilos dividem-se e respeitam-se os motivos.
Elas
Os filmes – e Hollywood, especialmente – são também rostos, pessoas, egos. Para falar das nomeadas à categoria de melhor actriz, comecemos pela única senhora que já guarda uma estatueta nos armários lá de casa. A esfíngica Nicole Kidman – que venceu o galardão pela transformação da personagem Virginia Woolf em “As Horas” (2002), retirada do romance homónimo de Michael Cunningham – está agora nomeada por “Rabbit Hole”. A actriz australiana é também produtora desta fita em que encarna o papel de uma mãe que perde o filho e vê a vida desabar.
Não se pense, porém, que é a actriz de “Eyes Wide Shut” ou “Dogville – dois dos seus melhores desempenhos – a grande favorita a arrecadar o Óscar. Na ‘pole’ parece mesmo estar Natalie Portman, pelo que mostra em “Black Swan” (ver crítica nesta edição). As duas estrelas até contracenaram recentemente (em “Cold Mountain”) mas surgem agora como concorrentes.
Portman – de quem guardamos prestações como as da pequena de “Leon: The Professional” e da sensual mulher da cabeleira rosa em “Closer” – está de volta com um desempenho que tem arrebatado a crítica. A israelita que também filmou com Wong Kar Wai, nesse precipício do quotidiano que é “My Blueberry Nights”, já ganhou o Globo de Ouro por este desempenho em que veste a pele de uma bailarina. Para muito terão servido os anos passados a praticar ballet – desde os 13 – e os nove quilos perdidos durante a rodagem. Natalie Portman é o sustento de um thriller psicológico que talvez lhe valha o primeiro Óscar, depois de já ter sido nomeada, precisamente por “Closer”.
Annette Bening veste as calças no papel que lhe valeu mais esta nomeação, em “The Kids Are All Right”. Bening é o elemento dominante de um casal lésbico que se confronta com a vontade dos dois filhos em conhecerem o pai biológico.
A actriz da obra maior que é “American Beauty”, e de fitas já meio esquecidas mas não menos importantes, como “The Grifters”, de Stephen Frears, nunca venceu uma estatueta e há quem diga que este é o momento da consagração. Olhando a concorrência, não parece no entanto que este seja o ano da artista norte-americana nascida no Kansas em 1958.
Jennifer Lawrence é uma das duas outsiders das nomeações deste ano. Como Melissa Leo em 2009, por “Frozen River”, Lawrence vai entrar no Kodak Theatre pela porta do circuito independente de cinema. “Winter’s Bone” brilhou no festival Sundance no ano passado, e ainda na Berlinale. Neste retrato de uns Estados Unidos de gente infeliz e sofrida poucas vezes mostrado ao exterior, a jovem actriz tem o primeiro papel de grande fôlego, depois de participações em obras como “The Burning Plane”, de Guillermo Arriaga.
Por fim, a doce Michelle Williams – tão real em “Brokeback Mountain” – merece nomeação pelo melodrama “Blue Valentine”, que podia ser apenas uma fita de canções dengosas e coração mole. Não é. Ao lado de Ryan Gosling, Michelle Williams – companheira de Heath Ledger à data da sua morte – é o espelho de um amor em queda livre, num registo cru da responsabilidade de Derek Cianfrance. Chegar à derradeira lista dos Óscares já é uma vitória para esta actriz promissora.
Nas mulheres que se notabilizaram pelos desempenhos em papéis secundários, olhemos dois nomes já bem conhecidos: Helena Bonham Carter e Amy Adams.
Bonham Carter – parceira fiel do imaginário de Tim Burton em objectos tão preciosos como “Corps Bride”, “Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street” e “Alice in Wonderland” – aparece aqui nomeada por ““The King’s Speech”, o tal filme de todas as expectativas. Já uma vez indicada por “The Wings of the Dove”, a actriz que também é conhecida pela série “Harry Potter” e por “Fight Club” pode muito bem aspirar à estatueta.
Amy Adams, de quem se diz ser uma segunda Meryl Streep – e foi bonito vê-las às duas em “Doubt” – aparece transformada em “The Fighter”. Feita mulher áspera dos subúrbios, longe dos tiques delicados que lhe conhecemos. Em duas ocasiões anteriores, a actriz nascida em Itália perdeu estatuetas para Rachel Wize (“The Constant Gardner”) e Penelope Cruz (“Vicky Cristina Barcelona”).
“The Fighter” não dá uma mas duas actrizes à lista de melhores papeis secundários do ano que fechou. Melissa Leo, de quem já aqui falamos, é a outra nomeada, que parte como favorita depois de ter arrecado o Globo de Ouro. Leo não é uma estranha entre as celebridades do meio – com “Frozen River”, perdeu para Kate Winslet (“The Reader”), num ano em que Streep e Angelina Jolie também estavam na corrida.
Hailee Steinfeld é a ilustre desconhecida escolhida pelos irmãos Coen para o western “True Grit”. A prestação foi de tal maneira convincente que lhe valeu de imediato a entrada nesta ‘shortlist’. A jovem, nascida em 1996, tem já carreira na TV, onde venceu vários prémios. Como contava o jornal Público, a participação de Hailee Steinfeld no filme causou problemas de rodagem aos Coen, que não puderam filmar cenas com a menor depois da meia-noite. Como as cenas nocturnas são muitas, os irmãos decidiram usar uma dupla para algumas delas.
Jacki Weaver é o nome que falta, por “The Animal Kingdom”, thriller de David Michôd. A veterana actriz australiana é um dos pontos fortes desta produção do país dos cangurus e recebe aqui a sua primeiríssima nomeação.
Eles
Jeff Bridges. Jeff Bridges. Jeff Bridges. Depois de ter arrebatado a estatueta no ano passado, com “Crazy Heart”, Jeff Bridges arrisca-se a fazer a dobradinha. A lista de nomeados para melhor desempenho individual como protagonista é assombrada por este peso pesado que já nos ofereceu momentos tão inesquecíveis como o Dude de “The Big Lebowski” – curiosamente, também com os irmãos Coen.
Desta vez, Bridges dá corpo a Rooster Cogburn, personagem interpretada noutros tempos por John Wayne. O U.S. Marshal deste western confirma a excelente forma de um actor que durante alguns anos pareceu andar desaparecido dos grandes acontecimentos cinematográficos. Mas este homem que foi nomeado pela primeira vez em 1971, por “The Last Picture Show”, não tem nada a provar. Dos registos quase esquecidos, como “Starman”, de John Carpenter, a devaneios recentes como aquele que proporciona em “The Men Who Stare at Goats”, Bridges é um tipo de mão cheia.
Do vulto para o ‘rookie’: Jesse Eisenberg, protagonista de “The Social Network”, está também nomeado para melhor actor. A composição que faz de Mark Zuckerberg, algures entre o génio e a psicose, valeu-lhe o reconhecimento e lançou-lhe a carreira – neste momento está a trabalhar em pelo menos quatro projectos, todos para cinema.
Fossem todos os concorrentes como Eisenberg e Jeff Bridges teria a estatueta assegurada. Há, no entanto, outro senhor a ter muito em conta. Colin Firth, o cavalheiro, tem sido unanimemente aplaudido pelo trabalho em “The King’s Speech”. Depois de não ter vencido no ano passado, apesar da arrebatadora interpretação que ofereceu em “A Single Man”, esta pode ser a edição talhada para consagrar o actor britânico.
Firth vem provando que é muito mais que o homem polido das comédias românticas ao género “Bridget Jones”. Entrará na gala maior de Hollywood pela pele do rei George VI e é o principal candidato a sair com o Óscar na mão.
Sobram Javier Bardem e James Franco. O primeiro, por “Biutiful”, é um repetente e um caso raro de um estrangeiro que já venceu um Óscar de melhor actor da Academia – com “No Country for Old Man”; o segundo, em “127 Hours”, é o actor-fetiche do momento nos EUA, requisitado para todos os projectos e mais alguns, apresentado como um dos grandes nomes da nova fornada de galãs de Hollywood.
Nos actores secundários, Christian Bale, que nos habituámos a ver como um actor espartano, é dos que sofre transformação mais notável, em “The Fighter”. Mau aspecto, brigão e nada aprumado, Bale é a antítese do que lhe vimos em “American Psycho” ou “Batman Begins”, filmes que também protagonizou.
Mark Ruffalo, o rapaz de “Blindness”, regressa nesse filme bem disposto que é “The Kids Are All Right” – mas não passa daí. Já John Hawkes, em “Winter’s Bone”, é o outsider capaz de surpreender no papel de um traficante de droga que põe a própria família em risco.
Jeremy Renner, que já mostrara todos os dotes de representação no ano passado, em “The Hurt Locker”, volta à lista com “The Town”, thriller realizado por Ben Affleck, sobre uma quadrilha que se vê a braços com o FBI.
O talentoso Geoffrey Rush, vencedor do Óscar em 2006, com “Shine”, é o nome que sobra. Aparece nomeado pelo papel secundário ao lado de Colin Firth, em “The King’s Speech”. É quarta nomeação do actor de “Shakespeare in Love”.
Fechamos como abrimos, questionando quanto valem realmente as estatuetas douradas. O mestre Charles Chaplin recebeu um Óscar especial na primeira edição dos prémios, referente a 1927, por “The Circus”. Mas, com as largas dezenas de filmes que dirigiu, venceu apenas uma única estatueta em competição. Para melhor banda sonora original, com “Limelight”.
