Reordenamento deve arrancar na Barra
É esta a principal conclusão de um estudo encomendado pelo Governo à MUST. Um novo inquérito junto dos moradores dos bairros antigos mostra-se avesso a demolições: há que reabilitar e embelezar.
O Instituto de Estudo do Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST, na sigla inglesa) sugere ao Governo que tome a área da Barra como “zona piloto” de intervenção no âmbito do projecto de reordenamento dos bairros antigos, que há vários anos está em estudo no seio dos órgãos de consulta do Executivo.
À instituição académica, que já antes tinha levado a cabo estudos para os bairros do Iao Hon e Praia do Manduco, coube desta vez realizar um inquérito junto dos comerciantes e lojistas da Barra. Entre as principais conclusões da pesquisa está a ideia de que, mais que demolir ou reconstruir na zona histórica, deve haver um trabalho de “reabilitação e embelezamento”.
Por outro lado, recomenda-se que a experiência de reordenamento arranque exactamente por esta zona da cidade. Isto até porque – indicam os inquéritos recolhidos – “moradores e lojistas do Bairro da Barra têm mais conhecimento do que os da zona da Paria do Manduco no que respeita ao modo de reordenamento dos bairros antigos”.
Para chegar a esta conclusão, o instituto da MUST distribuiu inquéritos por 104 edifícios localizados entre a Calçada da Barra e a Rua do Lilau, num total de 1300 fracções habitacionais e lojas, durante os meses de Outubro e Novembro do ano passado. No final, revelam os autores do estudo, foi possível realizar entrevistas em 927 residências e 56 espaços comerciais, com taxa de sucesso de 76 por cento e 55 por cento, respectivamente.
“Cerca de 70 por cento dos moradores entrevistados consideram que a ‘reabilitação’, a ‘conservação e preservação’ e o ‘embelezamento de arruamentos’ são os modos mais adequados ao desenvolvimento do bairro”, relatam os responsáveis da MUST, para os quais não será preciso “proceder à reconstrução e a grandes intervenções de demolição e construção”.
Velha vizinhança
A consideração parte da comparação com resultados obtidos anteriormente junto dos residentes do Manduco – o inquérito realizado em 2009 notava a existência de um grande número de construções ilegais, que tornavam necessário levar a cabo demolições. Na Barra, tal não parece verificar-se, aponta o novo estudo.
Apesar das diferenças de “textura” urbana, em termos de caracterização do tecido social são poucas as diferenças entre Barra e Manduco.
As duas zonas são, aliás, “praticamente iguais”, sentenciam os peritos da MUST, e são habitadas por uma velha vizinhança. Cerca de 90 por cento dos residentes são residentes permanentes de Macau há mais de 15 anos, e perto de metade tem entre 35 a 54 anos de idade. A grande maioria, 78 por cento, é proprietária da casa que ocupa – e uma parte significativa, 43 por cento, vive há mais de 16 anos na respectiva habitação.
No que diz respeito à caracterização do comércio, grande parte das lojas dedica-se à venda por grosso e retalho, bem como à actividade de pequenas reparações. E 40 por cento dos entrevistados exploram actividade na Barra há mais de 10 anos. Mais de um terço dos espaços comerciais existentes – 38 por cento – encontra-se, porém, desocupado.
Segundo o resumo do estudo disponibilizado pelo Conselho Consultivo para o Reordenamento dos Bairros Antigos de Macau (CCRBAM), “a maioria dos moradores estava disposta a fazer reparações nas partes comuns dos edifícios” com recurso a subsídio atribuído pelo Governo. Os dados são neste capítulo semelhantes aos recolhidos em 2009 na zona do Manduco.
Quanto às principais queixas e louvores de moradores e comerciantes, há satisfação com os trabalhos de “embelezamento” levados a cabo na área pelo Governo e críticas à “situação rodoviária”, com apelos para que sejam criados mais lugares de estacionamento público. O CCRBAM não revela, contudo, quais as percentagens de insatisfação e satisfação resultantes dos dados recolhidos no actual inquérito.
