Kim Jong-nam contra sucessão hereditária
Diz não estar interessado em suceder a Kim Jong-il, mas critica o regime de passagem de poder em Pyongyang. O primogénito entende que é tempo de “abertura e reforma” na Coreia do Norte.
Kim Jong-nam, o filho mais velho do líder do regime norte-coreano, que chegou a ser dado como sucessor na linha de poder de Pyongyang, afirma que a passagem da chefia do Estado norte-coreano através de uma lógica de sucessão hereditária não é o desejo de Kim Jong-il. E defende que a decisão de passar a liderança ao irmão mais novo, Kim Jong-un, foi apenas tomada para garantir a estabilidade nacional.
Kim Jong-nam, que tem residência habitual em Macau e que há anos vive afastado da Coreia do Norte, fez estas declarações numa rara entrevista publicada na última sexta-feira pela imprensa japonesa. O primogénito de Pyongyang lança também um apelo ao seu meio-irmão para que melhore a vida da população norte-coreana.
“A sucessão hereditária não aconteceu sequer sob a liderança do Presidente chinês Mao Zedong”, disse o norte-coreano de 39 anos ao diário de Tóquio Shimbun, numa entrevista de 90 minutos realizada no início de Janeiro no sul da China, de acordo com o jornal. As críticas à forma como ocorre a passagem de poder são publicadas numa altura em que se aguarda a visita de Kim Jon-un a Pequim, de acordo com informações veiculadas na semana passada pela imprensa da Coreia do Sul.
As regras de sucessão na actual cadeia de poder norte-coreana “não se adequam ao socialismo e o meu pai estava contra elas”, afirmou Kim Jong-nam, que foi detido pelas autoridades do Japão em 2001 depois de ter tentado entrar no país com um passaporte falso. Desde o incidente, ficou afastada a sua hipótese de ascensão ao poder na Coreia do Norte.
“Acredito que a decisão tenha sido tomada para estabilizar a nação. A instabilidade na Coreia do Norte significaria instabilidade para toda a região envolvente”, defendeu o descendente mais velho do “Querido Líder”.
Kim Jong-il, de 68 anos, deverá transferir o poder para aquele que é o seu terceiro filho, Jong-un, que se acredita que tenha actualmente 27 anos de idade e que, no último ano, acompanhou o pai em cerca de um quinto das visitas e ocasiões oficiais em que este esteve presente.
Em Setembro último, Kim Jong-un recebeu a patente de general de quatro estrelas e foram-lhe também entregues cargos importantes na cúpula do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte. Desde então, surge frequentemente nas fotografias oficiais do regime de Pyongyang ao lado de Kim Jong-il.
O actual líder da Coreia do Norte, cujo estado de saúde se acredita estar debilitado, assumiu o poder em 1994, após a morte de Kim Il-sung, fundador do regime e “Presidente eterno” da Coreia do Norte.
Apesar de defender que a sucessão hereditária não se adequa ao país, Kim Jong-nam assegurou ao jornal japonês não ter qualquer interesse na política nem em suceder a Kim Jong-il na liderança de Pyongyang. Em ocasiões anteriores, o primogénito tinha já manifestado oposição ao regime dinástico que vigora no norte da península coreana.
Kim Jong-nam afirmou ainda que lhe faz “doer o coração” saber das duras condições em vive a população norte-coreana. “Não acredito que as vidas das pessoas estejam a melhorar”, disse.
“A redenominação da moeda [medida adoptada em 2009] foi um fracasso. A Coreia do Norte devia concentrar esforços na reforma e abertura. Se continuar assim, não poderá ser uma potência económica”, defendeu Kim Jong-nam. “O que o Norte mais deseja é a normalização das relações com os Estados Unidos e o estabelecimento da paz na península coreana”, acrescentou ainda.
