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Incertezas do universo Ho

January 31, 2011

Francis Tam não acredita em consequências negativas para a indústria do jogo. Já os analistas de Hong Kong olham para o assunto noutros termos. Entretanto, o advogado de Stanley Ho revelou ontem que as negociações com a família falharam.

O Governo de Macau ainda não recebeu informações que confirmem a alegada transferência das acções da Lanceford para as empresas detidas pelas segunda e terceira famílias de Stanley Ho, operação esta que, a avançar, terá impacto na estrutura accionista da Sociedade de Jogos de Macau (SJM). A garantia foi dada por Francis Tam, em declarações à imprensa de língua chinesa do território.

Instado a comentar a confusão que se gerou na passada semana no seio da família Ho – a transferência de títulos da Lanceford está na base de uma acção judicial interposta pelo octogenário contra duas mulheres e cinco filhos –, o secretário para a Economia e Finanças da RAEM desvalorizou um eventual impacto no sector do jogo.

Tam salientou que os resultados mais recentes da SJM demonstram estabilidade, acrescentando ainda que se trata de uma empresa “madura” no que diz respeito à forma como é gerida. O governante acredita igualmente que, durante este ano, vão manter-se os bons resultados da indústria do jogo.

A disputa sobre o processo de transferência de acções no grupo da SJM já levantou questões relativas à eficácia da supervisão do Executivo sobre a indústria, suscitadas por um académico ouvido pelo Ou Mun – que optou por falar sob anonimato.

O especialista alertou para a possibilidade do sistema actual permitir a um operador deter mais que uma licença de jogo. “Para proteger a imagem de Macau como mercado livre e competitivo, e para manter a confiança dos investidores, o Governo deve examinar o sistema de concessão de licenças de jogo a cada cinco anos e reforçar a supervisão”, sugeriu o académico não identificado.

O diário apontava para a possibilidade de a distribuição das acções da SJM vir a permitir a dois dos filhos do empresário Stanley Ho deterem interesses, simultaneamente, em duas concessionárias de casinos: Pansy Ho, que dirige o MGM Grand Macau em parceria com uma empresa norte-americana, e Lawrence Ho, que segura a Melco PBL em conjunto com o australiano James Packer.

Francis Tam optou por não tecer comentários acerca de questões hipotéticas – é assim que olha para a possibilidade levantada pelo académico ouvido pelo Ou Mun. O secretário preferiu vincar que o contrato assinado com os operadores do jogo servirá de base para resolver problemas que se venham a verificar no sector.

Tempos de risco

Na passada sexta-feira, em declarações à Rádio Macau, Ambrose So, administrador da SJM, afastou quaisquer consequências negativas para a operadora decorrentes do diferendo familiar. “A Lanceford não é a única sócia da STDM, por isso qualquer redistribuição de acções ou disputas na família não vão ter impacto na SJM”, declarou.

“Acho que isto é entre membros da família, por isso não quero fazer mais comentários. Falei com Stanley Ho, mas só sobre questões da empresa, não sobre assuntos familiares”, acrescentou So.

Ontem, e numa perspectiva bastante diferente, o South China Morning Post (SCMP) elencava possíveis impactos do processo judicial iniciado na passada semana na justiça de Hong Kong para o universo Stanley Ho – e para os accionistas que apostaram na empresa cotada na bolsa.

A começar, apontava o matutino em língua inglesa, a queda registada no valor dos títulos da SJM faz com que tenham agora valores inferiores aos dos seus rivais do mercado de Macau. “Um escândalo é sempre uma oportunidade para os bens serem desvalorizados”, comentou ao jornal Thomas Holland, sócio do fundo de capital de risco Cube Capital, sedeado em Hong Kong.

Claude Tiramani, outro analista consultado pelo SCMP, entende que “os desacatos familiares são sempre uma situação a evitar”. A investir em mercados emergentes como a China há duas décadas, Tiramani alerta para a possibilidade de a Bolsa de Hong Kong suspender a venda de acções da SJM por alguns meses ou mesmo anos, de modo a proteger os investidores das oscilações de preços causadas pelo imbróglio familiar.

“Haverá um prejuízo real se o mercado subir e o dinheiro dos investidores estiver retido numa empresa que tem as operações suspensas”, disse. Além disso, continuou o investidor, sócio de um fundo de capital de risco, se o caso avançar em tribunal e “uma testemunha disser algo prejudicial para o preço das acções”, tal pode servir de base para a suspensão da venda no mercado bolsista.

Já Danny Holder, corrector da bolsa, recordou casos semelhantes ocorridos na antiga colónia britânica para dizer que “a história de Stanley Ho está para durar”. Com efeito, há dramas semelhantes ao da família do magnata: o império do empresário Teddy Wang, a Chinachem, está a ser discutido nos tribunais desde 1997, e os três irmãos Kwok lutam pelo controlo da Sun Hung Kai Properties desde 2008. Em ambos os casos, os conflitos tiveram fortes repercussões na bolsa.

Mas existe uma grande diferença entre outros conflitos familiares e aquele que agora acontece no seio do clã Ho – desde logo, a SJM é uma empresa mais difícil de gerir, assinala o SCMP, porque tem de lidar com as mudanças de política de Pequim em relação aos jogadores autorizados a deslocarem-se a Macau, ao mesmo tempo que enfrenta a competição norte-americana.

O matutino indica ainda que quase todos os administradores da SJM são de grande lealdade para com Stanley Ho, sem ligações às várias facções criadas dentro da família. Mas se o magnata tiver mesmo perdido o controlo das operações, a administração da SJM pode ficar à deriva, sem saber a quem se dirigir na tomada de decisões que ultrapassem a gestão quotidiana. “E aí, a SJM pode ficar paralisada”, avisa o SCMP.

A família não se entende, diz Oldham

Gordon Oldham, o advogado contratado por Stanley Ho por causa do diferendo que o opõe às suas segunda e terceira famílias, comunicou ontem que as conversações entre as partes terminaram sem que se tivesse chegado a acordo. No comunicado emitido ontem, o sócio da Oldham, Li & Nie (OLN) informa que, na semana passada, a família esteve reunida e prestes a encontrar uma solução consensual, mas tal não foi possível. Stanley Ho insiste na divisão da fortuna em quatro partes iguais – tantas quantas as famílias que tem, fruto de quatro uniões reconhecidas. “Esta manhã [ontem, domingo], o Dr. Ho confirmou as suas instruções à OLN para que tome todas as medidas possíveis de modo a concretizar a sua vontade relativa aos interesses que detém na Lanceford”, lia-se no comunicado. O magnata “reiterou a desilusão em relação ao facto de os membros das suas segunda e terceira família continuarem a ignorar os pedidos para uma resolução desta matéria”. O comunicado surge dias depois de se ter ficado a saber que Gordon Oldham interpôs uma acção judicial junto da justiça de Hong Kong em que Ho acusa os cinco filhos do segundo casamento e a terceira mulher de “apropriação indevida e/ou ilegal” das acções da Lanceford, empresa através da qual gere a sua vasta fortuna.

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