Skip to content

Há “desconfiança estratégica” nas relações sino-americanas

January 31, 2011

Hao Yufan acaba de editar o livro “Macao and Sino-U.S. Relations”, já disponível na Amazon. O deão da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UMAC fala da política externa e dos objectivos da China. Há um papel reservado a Macau.

Hélder Beja

O deão da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Macau (UMAC), Hao Yufan, recebe-nos num escritório vistoso. Livros nas estantes, uma secretária ampla, todo o conforto dado a um investigador que já andou pelos EUA e que decidiu fixar-se na RAEM. “Macao and Sino-U.S. Relations” (editado pela Lexington) é o novo conjunto de ensaios de vários académicos – incluindo seus – editado por este homem que se doutorou na Johns Hopkins University e deu aulas em Nova Iorque. Na tarefa, cujo resultado já pode adquirir-se na Amazon por 80 dólares norte-americanos, recebeu a ajuda de outro académico que estuda estas matérias, Wang Jianwei.

Em entrevista ao PONTO FINAL, Hao Yufan escrutina os problemas das relações sino-americanas, fala da futura conjuntura mundial e dá o seu ponto de vista sobre o papel de Macau na política externa de Pequim – o território será especialmente importante para a relação com os países de língua portuguesa e para a aproximação a Taiwan, defende. Hao fala ainda da visita de Hu Jintao aos Estados Unidos da América e do que antevê para este território depois de 2049.

- Como surgiu a ideia de reunir estes ensaios em livro?

Hao Yufan – Foi em grande parte devido aos problemas que existem nas relações entre os EUA e a China. Estes problemas foram antecipados em 2009, ano que marcou o trigésimo aniversário da normalização das relações diplomáticas entre os dois países. Queríamos focar-nos nos problemas e desafios que as relações bilaterais teriam de enfrentar depois destas três décadas. Com esse objectivo, organizámos uma conferência internacional para a qual convidámos um grupo de académicos bastante destacados, dos EUA e do Continente, todos eles especializados na questão das relações sino-americanas. Examinámos vários aspectos dessa relação entre nações, da troca de conhecimentos tecnológicos à perspectiva económica, passando por questões políticas dos direitos humanos e também a perspectiva de terceiros em relação aos dois países. A questão à qual queríamos dar resposta era se existem bases sólidas para que as relações EUA-China enfrentem os desafios da próxima década.

- E existem?

H.Y. – Estamos a entrar na segunda década do século XXI e muitas pessoas acreditam que as relações entre estes dois países são as mais importantes em todo o sistema internacional. Concordamos com essa observação. No entanto, acreditamos que há desafios e problemas, alguns deles derivados de conflitos estruturais e bem sérios. São questões que, se não forem bem geridas, podem facilmente danificar as relações bilaterais.

- De que problemas estamos a falar, concretamente?

H.Y. – Há muitas questões. Por exemplo, a venda de armamento a Taiwan por parte dos norte-americanos. Depois, há a questão dos direitos humanos na China, pelo menos aos olhos do público americano. Mas podemos falar também de tópicos relacionados com as trocas comerciais, como a avaliação do yuan. Alguns americanos consideram que a China manipula artificialmente a sua moeda para sair beneficiada à custa dos trabalhadores norte-americanos. Existem ainda questões relacionadas com complicações e mal-entendidos militares. Qualquer desenvolvimento registado no armamento chinês é tido como um alarme muito sério pelos Estados Unidos. Agora, fundamentalmente diria que a questão é a desconfiança estratégica. Ambos os lados têm razões para suspeitar das intenções do outro. Os EUA preocupam-se cada vez mais com a ascensão da China e com o que isso poderá representar no futuro. O crescimento económico chinês foi espectacular nas últimas três décadas, tornando a China na segunda economia do mundo. Os EUA perguntam-se agora o que será que a China quer fazer com este poder. Quererá desafiar a hegemonia dos EUA? Do lado chinês, existe uma preocupação legítima sobre as intenções americanas. Há uma suspeita profunda de que os norte-americanos não quererão ver a China ascender, e gostariam de minar os esforços de Pequim rumo à modernização, e ainda mudar o sistema político que existe no Continente. Como é óbvio, existe uma diferença enorme entre os sistemas políticos dos dois países e por isso há suspeitas, na China, de que os americanos terão algum plano estratégico para minar o programa de desenvolvimento do país ou até para colocar em xeque o sistema político de Pequim.

- Que plano?

H.Y. – Alguns chineses suspeitam mesmo que os EUA já terão dado alguns passos no sentido de rodear a China, fortalecendo as relações com os países que estão na sua periferia. Estamos a falar da Índia, Japão, Coreia do Sul, Austrália, Filipinas. Fala-se de uma espécie de democracias da Ásia, do diálogo entre as democracias asiáticas para rodearem a China, ou mesmo para a conterem. A China tem esta preocupação legítima e os EUA também têm as suas. A comunicação não se tem mostrado efectiva. Depois destas três décadas de relações, antecipávamos que ambos os lados pudessem já entender-se melhor um ao outro. Mas, na verdade, os mal-entendidos e a falta de confiança têm aumentado. Acreditamos que esta é a questão mais séria nesta relação bilateral.

- Tivemos recentemente a visita do Presidente Hu Jintao aos EUA, e todos os encontros de alto nível mantidos com Barack Obama e outros governantes norte-americanos. Que leitura faz desta visita?

H.Y. – Parece-me que a visita de Estado de Hu Jintao aos EUA é parte do esforço feito pelos chineses para melhorar o entendimento mútuo. Como disse, a desconfiança existe mas, se os dois lados tentarem incrementar essa compreensão mútua, essa desconfiança pode ser reduzida. Não diria que a podemos eliminar completamente, mas pelo menos é possível torná-la num problema menor no que toca às relações bilaterais. A China reconhece a importância dos EUA e o contrário também acontece. Foi por isso que Obama veio à China no ano passado e agora o Presidente devolveu a visita. Em grande parte, este é um esforço de melhorar as coisas através de viagens de Estado de alto nível. Será útil, mas não acreditamos que a desconfiança estratégica seja eliminada assim tão facilmente. Ajuda, mas não representará a solução para esta questão.

- Devemos esperar consequências palpáveis deste encontro entre chefes de Estado?

H.Y. – Claro. No final da visita de Hu, a China comprou um grande volume de bens norte-americanos. Além disso, assinou um significativo número de acordos e contratos com o Governo norte-americano e agências relacionadas, bem como com empresas daquele país. Isto é qualquer coisa de muito concreto que saiu da viagem aos EUA. Os norte-americanos recebem de braços abertos todos os esforços da China para equilibrar a balança comercial entre os dois países, dando mais oportunidades de emprego nos EUA e ajudando o país a ultrapassar rapidamente a recente recessão económica.

- Antes de irmos a Macau, uma última pergunta sobre as relações EUA-China. Julga que Pequim quererá mesmo desafiar a liderança global norte-americana?

H.Y. – Não, diria que não. A meta nacional da China é a modernização do país, para que possa fazer parte do sistema mundial vigente. A China reconhece – e respeita mesmo – a liderança norte-americana. Não tem qualquer intenção de desafiar a liderança dos EUA. O que Pequim quer cumprir é o desenvolvimento pacífico do país. É por isso que ouvimos tantas vezes os termos ‘ascensão pacífica’ ou ‘mundo harmonioso’. Não me parece que a China tenha intenções de desafiar a hegemonia norte-americana. No entanto, há sentimentos nacionalistas no Continente, mas não estão disseminados pela maioria da população. O que as massas querem é um país mais moderno, mais riqueza e um nível de vida melhor. A maioria dos chineses tem este desejo e não me parece que a China vá gastar os seus recursos limitados para desafiar a liderança dos EUA.

- Parece-lhe que, para se modernizar, a China terá também de reformar o seu sistema político?

H.Y. – A China gostaria de conseguir modernizar-se e também de melhorar o seu sistema político. Nesta altura, muitos dos intelectuais chineses – e mesmo muitos dos líderes do país – reconhecem que o sistema actual tem de ser reformado e aprimorado. Pequim quererá fazê-lo compassadamente, de modo gradual, e não do dia para a noite.

- Sobre Macau, que papel tem o território na política externa da China?

H.Y. – Considero que o papel de Macau não é assim tão significante ou volumoso. A China tem aquilo a que chamaria uma grande estratégia, um objectivo nacional de estar em paz com aqueles que a rodeiam, ao mesmo tempo que vai denegando o sistema internacional. Esta estratégia pode beneficiar o esforço da China para se modernizar. Macau servirá dois propósitos aqui: por um lado, continuará a ser uma janela para o mundo exterior, mais ou menos como Hong Kong tem sido. A RAEHK, na verdade, serviu a Pequim como janela para o exterior durante várias décadas. Comparando com o papel de Hong Kong, o de Macau é relativamente pequeno. Mas tendo em conta o legado português, Macau pode servir como plataforma para as relações com os países de língua portuguesa. Deste ponto de vista, há uma função reservada para a RAEM na política externa da China. Outro papel é assegurar que Macau tenha prosperidade e estabilidade social, para que a China possa mostrar ao resto do mundo, particularmente a Taiwan, que o princípio ‘um país, dois sistemas’ funciona. Há implicações políticas nesta necessidade de garantir que Macau tenham um futuro equilibrado. Para mim, este é o papel de Macau.

- Nas relações com os EUA, há algum lugar especial reservado para Macau?

H.Y. – Às vezes Macau pode ter um papel mediador quando toca a resolver disputas entre os dois países que envolvam Taiwan e a reduzir as tensões no Estreito. Aqui, a RAEM tem uma palavra a dizer. Havia até a chamada ‘fórmula de Macau’ para as relações entre os dois lados do Estreito. Tirando estes casos, a RAEM não joga um grande papel nas relações com os norte-americanos.

- Não podemos fazer futurologia, mas o que acha que acontecerá a Macau depois de 2049?

H.Y. – Podemos antecipar que, por essa altura, a economia do Continente estará muito mais desenvolvida e o país provavelmente já terá entrado no clube dos países desenvolvidos. Creio que a diferença entre Macau, Zhuhai e outras partes da província de Guangdong será muito reduzida. Acontecerá uma integração regional gradual, sem grandes dificuldades. Quando os níveis de vida das pessoas de Macau e de Guangdong estiverem próximos, Macau já será parte da região do sul da China. Não antecipo nada mais que isso.

No comments yet

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Connecting to %s

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 27 other followers