Shakespeare não faria melhor
É um caso com contornos cada vez mais complicados. Um dia depois de Stanley Ho ter dito à TVB que está tudo bem com a família, eis que o advogado do magnata anuncia que o caso já está em tribunal. O drama não fica por aqui.
Isabel Castro*
Stanley Ho interpôs ontem de manhã uma acção judicial junto de um tribunal de Hong Kong em que acusa cinco filhos e duas mulheres de “apropriação imprópria e/ou ilegal” da empresa que controla a sua fortuna. Entre os acusados estão dois nomes de destaque da indústria do jogo de Macau: Pansy e Lawrence Ho.
A queixa apresentada à justiça da antiga colónia britânica surge depois de uma semana de informações contraditórias – ora o magnata está zangado com parte da extensa família, ora está feliz com as decisões tomadas em relação à partilha do seu vasto património.
Na passada quarta-feira, o octogenário apareceu na estação de televisão TVB a dizer que o problema estava resolvido – leu uma declaração escrita, ao que parece preparada pela terceira mulher, Ina Chan Un-chan, uma das eventuais beneficiadas com a agora contestada transferência de capitais.
Ontem, a história voltou à versão original. Com a interposição da acção, parece ser agora claro que Stanley Ho não está de acordo com a transferência de títulos da empresa Lanceford (que detinha totalmente até há bem pouco tempo) para as sociedades dos cinco filhos da segunda mulher e da terceira companheira.
Mas o verdadeiro drama em torno da divisão da fortuna continua a ser do conhecimento de muito poucos. Quem está com quem nesta luta pelo poder (e pelos milhões do império STDM)? As segunda e terceira companheiras estão juntas neste processo. E a quarta mulher, a deputada Angela Leong, onde se situa?
Além de depoimentos contraditórios, esta semana ficou marcada por várias visitas de filhas e esposas, viagens de Stanley Ho entre as várias casas que a(s) família(s) ocupa(m) em Hong Kong, e por uma atitude nada vulgar da representante dos filhos da primeira (e única em termos legais) mulher de Stanley Ho: Angela Ho, a descendente mais velha, tornou público o seu descontentamento através de uma carta enviada às redacções de Macau na passada quarta-feira. No meio desta enorme trapalhada, as filhas de Clementina Leitão parecem ser as únicas que ficam sem nada.
Angela Ho já se demarcou publicamente da posição assumida pelas duas “amantes” do pai – terminologia escolhida para se referir a Ina Chan Un-chan (a terceira mulher) e Lucina Laam King-ying (mãe de Pansy, Lawrence e de mais três filhos de Ho). “O meu pai fala comigo frequentemente e afirmou publicamente que pretende dividir o seu património de forma igual entre os seus filhos. Assim sendo, considero que as declarações e atitudes feitas e tomadas pelas suas amantes e os seus filhos, que não estão em conformidade com a vontade dele, são altamente desconcertantes e ofensivas”, escreveu Angela Ho, num depoimento em que explicava ter tentado contactar “Pansy, Daisy e Ina muitas vezes acerca destes assuntos”, mas ter sido ignorada pelas meias-irmãs e pela “madrasta”.
O ataque de asma
A filha de Clementina Leitão foi a protagonista de um dos dois episódios que marcaram o dia de ontem: o primeiro grande momento esteve a cargo do advogado Gordon Oldham, que confirmou a interposição do recurso; já durante a tarde, em Macau, Angela Ho chamou a imprensa de línguas portuguesa e inglesa para um encontro, que acabou por não acontecer.
Na sequência de uma entrevista pedida pelo PONTO FINAL, vários jornalistas portugueses foram convidados para a casa na Estrada da Penha. À chegada, o caos: várias televisões e outros órgãos de comunicação social de Macau e de Hong Kong (sobretudo de Hong Kong) tentavam forçar a entrada, protegida por um contingente de seguranças. Os jornalistas que constavam da lista restrita entraram e aguardaram por Angela Ho, que estava atrasada, retida numa reunião alegadamente acerca da matéria.
Fomos informados de que o encontro se destinava principalmente a esclarecer algumas questões fruto da confusão crescente dos últimos dias. A filha mais velha do magnata pretenderia também recordar o passado de Macau – na carta enviada às redacções no dia anterior, fez questão de lembrar que os conhecimentos da mãe em Portugal e o seu estatuto em Macau foram essenciais para que a licença de jogo fosse entregue, no início da década de 1960, ao marido de Clementina Leitão.
Volvidas quase duas horas, circulou a informação – não confirmada pelos anfitriões, onde se incluíam duas netas de Stanley Ho – de que Angela Ho não iria estar sozinha no encontro com a imprensa: a outra Angela, a Leong, também queria falar aos jornalistas.
As duas Angelas parecem, com efeito, ser próximas dentro deste contexto familiar de desaguisados múltiplos. O Wall Street Journal indicava ontem que os analistas da indústria do jogo consideram que, desta vez, na origem da disputa estão “ressentimentos entre Angela Leong e Pansy Ho”, filha da segunda família publicamente reconhecida pelo bilionário.
Pouco depois, vieram dizer-nos que Angela (a Ho) estava prestes a chegar. Ainda não tinham passado dez minutos e comunicaram-nos que, afinal, a filha de Clementina Leitão se tinha sentido mal e estava com um ataque de asma, sem possibilidade de falar.
À saída, os jornalistas de Hong Kong continuavam à porta – e os representantes da imprensa de Macau foram brindados com uma chuva de flashes. Durante a espera, foram feitas transmissões televisivas em directo, em que se assegurava que Angela Ho estava numa “reunião secreta” com ocidentais.
O vídeo de Stanley Ho
Mas regressemos à grande notícia do dia: a acção judicial que Stanley Ho moveu contra cinco filhos e duas mulheres. Segundo a edição online do jornal Sing Tao, há uma gravação em vídeo, na posse do advogado Gordon Oldham, feita na casa de Stanley Ho na passada terça-feira. Nas imagens – anteriores às exibidas pela TVB – o magnata diz que quer as suas acções de volta.
O portal de notícias Metro, também da RAEHK, foi mais longe ao especificar que, a dada altura, Stanley Ho deixa a seguinte frase para a câmara: “Get me back”. A frase está a causar dúvidas – quer ele que o levem de volta? Quer as acções de volta? O vídeo vai ser entregue ao tribunal, assegurou o advogado.
A queixa apresentada à justiça não visa só as duas mulheres e os cinco filhos de Lucina Laam King-ying: também o banqueiro Huen Wing-ming (um dos administradores da Lanceford) e três empresas envolvidas na transferência de títulos terão de responder em tribunal. Com o processo judicial, Stanley Ho pretende reaver 32 por cento das acções da SJM.
Ontem, o advogado disse à imprensa que questionou o octogenário sobre a declaração que leu em frente às câmaras da TVB. Segundo Oldham, Ho justificou que o fez contra a sua vontade, por estar a ser pressionado por membros da família (recorde-se que ao lado do magnata, sentado numa cadeira de rodas, estavam a filha Florinda Ho e a terceira mulher).
Já depois da filmagem da TVB, o advogado esteve com o cliente. “Ele estava em boa forma durante a tarde. Em muito melhor forma do que quando fez a declaração. Ele já disse que foi pressionado a fazer essa declaração”, referiu Oldham à imprensa de Hong Kong. “O Dr. Ho continua a dizer que está muito desgostoso por, no fim da sua vida, duas das suas quatro famílias estarem a disputar os seus bens, terem-lhe tirado os seus bens, sem o seu consentimento ou conhecimento”, acrescentou.
Gordon Oldham sublinhou ainda que “a posição do Dr. Ho é a mesma”. Ou seja: “Temos instruções para recuperar os bens que acreditamos que tenham sido retirados. Ele falou em roubo. Vamos ver”.
Leong só fala da SJM
Do outro lado do Delta, a imprensa de Hong Kong tem sido incansável nos últimos dias: há pessoal destacado para ver quem entra e sai das casas da família Ho, repórteres à porta dos tribunais e em basicamente todos os sítios por onde os elementos do clã e o advogado Gordon Oldham possam passar. À hora de fecho deste jornal, os sites dos jornais em língua chinesa mais lidos da RAEHK davam conta de que Stanley Ho tinha passado a tarde em casa da sua terceira mulher, tendo sido levado ao início da noite para a residência onde habita a segunda companheira.
Na tarde desta quinta-feira, Angela Leong foi interpelada pelos jornalistas à saída da casa onde vive em Hong Kong, na Repulse Bay Road. A quarta mulher recusou tecer qualquer comentário acerca da acção judicial, dizendo não conhecer pormenores sobre o processo que envolve as suas duas antecessoras (na perspectiva de ordem de chegada à vida de Stanley Ho, uma vez que o bilionário assume a vida conjugal que tem com todas elas). Leong referiu que só fala em relação à Sociedade de Jogos de Macau (SJM), da qual é administradora-delegada.
Ontem à noite, a SJM emitiu um comunicado que pode ser interpretado como uma tentativa de acalmar funcionários e investidores da bolsa – ou simplesmente um gesto que acompanha iniciativas semelhantes de outras operadoras do jogo.
A concessionária anunciou um aumento salarial para todos os funcionários no valor de cinco por cento, que entrará em vigor já a partir do próximo dia 1 de Fevereiro. Além disso, os trabalhadores da SJM terão direito a um bónus relativo a 2010: aqueles que ganham menos de 10 mil patacas receberão um mês e meio de salário; quanto aos que auferem salários superiores, têm direito a uma bonificação que corresponde a um salário mensal.
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*com Stephanie Lai
