Mitsubishi ganhou concurso do metro
O Governo escolheu a empresa japonesa para fornecer as composições do metro ligeiro. Estima-se que as obras comecem no próximo ano e que fiquem prontas em 2015. Mas a Bombardier e a Siemens podem ainda recorrer.
Sónia Nunes
Os resultados do concurso para o fornecimento do material circulante do sistema de metro ligeiro foram revelados ontem: venceu a japonesa Mitsubishi Heavy Industries, com um preço de adjudicação de cerca de 4,7 mil milhões de patacas (proposta base), contra os consórcios da Bombardier e Siemens. O Governo conta assinar o contrato de adjudicação dentro de 30 dias, mas as empresas preteridas ainda podem interpor recurso da decisão.
“No cômputo geral, a Mitsubishi apresentou a proposta com o preço mais baixo. A adjudicação, neste momento, diz respeito à proposta de base que contempla o fornecimento de comboios, para uma capacidade de 7800 passeiros por hora e por direcção”, esclarece André Ritchie, chefe funcional do Gabinete para as Infra-estruturas de Transportes (GIT).
O organismo responsável pela organização do concurso pediu aos candidatos que apresentassem uma proposta de preço base – que incluísse a provisão do material circulante (composições e bilheteiras) e as obras de melhoramento da ponte de Sai Van – e preenchessem dois itens opcionais. A saber: o serviço de manutenção de “cinco mais cinco anos” do sistema (para evitar a subida acentuada dos preços) e o fornecimento de carruagens adicionais, por forma a aumentar a capacidade de transporte para 14 mil passageiros/hora.
À Mitsubishi foram adjudicados apenas os itens principais. “Cabe à RAEM decidir se quer adjudicar estes trabalhos [opcionais] ou não. Se entender que é vantajoso, o concorrente vê-se obrigado a celebrar os contratos conforme o preço já estabelecido na proposta”, adianta André Ritchie. A empresa avançou com 792 milhões de patacas para os serviços de manutenção e 1,5 mil milhões para o fornecimento de composições adicionais – valores inferiores aos propostos pelas outras concorrentes.
O GIT, explica André Ritchie, vai ainda informar a Mitsubishi do resultado do concurso: a empresa tem um prazo de oito dias para submeter ao Governo uma garantia bancária. Só após este procedimento é que os concorrentes preteridos serão notificados da decisão – e gozam de um prazo de 60 dias para recorrer. O PONTO FINAL contactou o advogado da Bombardier em Macau, que disse não ter recebido ainda qualquer indicação por parte da empresa. Já em relação à Siemens, não foi possível a este jornal recolher informações.
A eventual interposição de recursos vai atrasar as obras? “Neste momento, não vale a pena especular. Enquanto não recebermos notícias em contrário, continuaremos a trabalhar conforme previsto”, diz André Ritchie.
Na última etapa do concurso, Pereira Coutinho acusou o GIT de favorecimento: o deputado afirmou que a adjudicação à Mitsubishi começou a ser preparada em Julho deste ano. “Antes dizia-se que era uma empresa, depois era outra. São diferentes rumores”, descarta o coordenador do gabinete, Lei Chan Tong, que também classifica os alegados encontros em privado com a empresa como “rumores apenas”.
Quatro anos em obras
A adjudicação à Mitsubishi, destaca André Ritchie, significa que os projectos de execução dos viadutos e das estações podem arrancar. “Não sabendo qual era o fornecedor do material circulante – o modelo de comboio e as respectivas especificações técnicas – era impossível aos projectistas avançarem”, explica o arquitecto.
Os projectos relativos aos viadutos e estações pensados para a Taipa foram entregues, em Setembro, a três empresas locais de consultoria. O gabinete estima que as obras na ilha arranquem em “meados de 2011”, sendo que é também esperado que os contratos referentes ao traçado da península (estão previstos três projectos) sejam também atribuídos na primeira metade do próximo ano.
O GIT estipula um prazo de 49 meses (cerca de quatro anos) para a conclusão das obras da primeira fase do sistema de metro ligeiro. Lei Chan Tong confirma que “serão inevitáveis os inconvenientes causados ao dia-a-dia dos cidadãos”, mas compromete-se a minimizar os impactos causados pela construção com a criação de um grupo de trabalho interdepartamental e de um sistema de comunicação com a população “antes e durante a execução das obras”.
Lei Chan Tong indicou ainda que estão previstas sanções caso os prazos de construção não sejam cumpridos – no limite poderão significar a rescisão do contrato e o reembolso das despesas ao Executivo. A urgência é justificada com o plano de integração regional que prevê que a deslocação entre as chamadas cidades irmãs do Delta Rio das Pérolas seja feita numa hora. O metro de alta velocidade que liga Cantão, Shenzhen e Hong Kong, por exemplo, deverá estar pronto em 2015. “Temos de acelerar o nosso processo de construção para garantir o desenvolvimento sustentável. As obras não podem atrasar”, reitera Lei.
O sistema de Macau é semelhante à linha de metro de Sengkang, em Singapura. O traçado total, na primeira fase, terá 17 quilómetros e 21 estações. O orçamento previsto pelo Governo é de 7,5 mil milhões de patacas.
Mais de quatro mil empregos para locais
O projecto do metro ligeiro poderá significar a criação de, pelo menos, 5600 oportunidades de emprego. A estimativa é feita pelo Gabinete para as Infra-estruturas de Transportes (GIT), com base num estudo encomendado a uma instituição académica. Estima-se que na fase de projecto (que envolve as áreas de engenharia e arquitectura) sejam criados entre 150 a 200 postos de trabalho. Já a etapa de construção e manutenção do sistema (trabalhos de engenharia civil e electromecânica) poderá traduzir-se na contratação de cerca de 4500 profissionais. As tarefas administrativas deverão resultar no recrutamento de mil funcionários. No total, adianta o coordenador do gabinete, Lei Chan Tong, “cerca de 4500” serão trabalhadores residentes. “Tem sido uma política do GIT providenciar mais postos de trabalho para locais. Seguimos esta estratégia, tendo lançado concursos para empresas locais [ver texto principal]”, continua André Ritchie. O arquitecto reconhece que em Macau falta capital de conhecimento ao nível do sistema de transporte: “Colmatámos isso com os processos de concurso em que se exige que as empresas locais busquem esse ‘know-how’ ao exterior”. A intenção do GIT, remata Ritchie, é estabelecer “uma plataforma que permita aos projectistas locais, que conhecem bem o terreno, aprender e reter o know-how’” e “assim criar uma geração de técnicos especialistas nesta área”.
