Ideias em marcha lenta
O Governo tem dois mil milhões para investir na nova rede de serviços de autocarros. Há nova consulta sobre os planos para o tráfego viário até 2020, com mais espaço para transportes públicos e bicicletas.
Maria Caetano
Um corredor de circulação exclusiva para transportes públicos a ligar as Portas do Cerco e a Barra, a introdução de autocarros eléctricos a título experimental no centro da cidade e, também à experiência, o estabelecimento de uma ciclovia na ilha da Taipa. São medidas previstas na política geral de trânsito e transportes terrestres, e que deverão começar a ser aplicadas já durante o próximo ano.
A Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) lançou ontem uma nova etapa de auscultação dos residentes sobre o quadro de ordenamento do tráfego da RAEM, que recolhe opiniões durante 45 dias sobre as medidas a adoptar até 2020. Os “resultados mais salientes” estarão à vista apenas a partir de 2015, quando se prevê que o metro ligeiro já circule sobre carris e a rede de meios terrestres fique completa, mas até lá serão já adoptadas algumas soluções, garante a DSAT, prevendo um investimento de dois mil milhões de patacas na rede de autocarros.
No próximo ano, quando em Agosto entrar em funcionamento o novo modelo de serviços, a DSAT promete aumentar a frequência dos transportes e melhorar os espaços de tomada e largada de passageiros. Às novas concessionárias de autocarros foi feita a exigência de que tenham veículos “mais amigos do ambiente”, embora haja constrangimentos à adopção generalizada de viaturas eléctricas.
“O que pretendemos agora é iniciar [a utilização de transportes públicos eléctricos] nalguns itinerários de forma experimental”, revelou o director da DSAT, Wong Wan.
Via rápida a oeste
A criação de uma via mais rápida para autocarros é também considerada “muito importante para resolver a situação de trânsito no lado oeste da península de Macau”. No percurso entre Portas do Cerco e Barra, o Governo irá gradualmente, e sempre que possível, reservar faixas “bus”. E promete construir mais silos no percurso “de uma forma faseada, não dentro de um ano”.
A criação de ciclovias ocorrerá preferencialmente nos novos aterros, mas também terá lugar nas ilhas. “No próximo ano ou com a maior brevidade possível”, será estabelecido um corredor para bicicletas na Taipa. A longo prazo, os bairros antigos também serão dotados de vias para andar a pedais.
Caso nada seja feito, os estudos do organismo dão conta de um cenário nada agradável para quem percorre as pequenas distâncias de um território com menos de 30 quilómetros quadrados. Em 2020, fazer cinco quilómetros sobre rodas, exemplificou Wong Wan, poderá demorar uma hora, atendendo aos padrões de circulação em vias como a Horta e Costa.
Segundo os dados apresentados, o número de veículos passará de 190 mil para 310 mil, o tempo passado no trânsito crescerá em 50 por cento e as emissões de dióxido de carbono atingirão 407 mil toneladas por ano, contra as 199 toneladas verificadas em 2005. A marcha dos veículos em hora de ponta abrandará de 15 quilómetros para 10 quilómetros por hora.
“Se a gente não actuar em nada, vai haver esta subida. Claro que o nosso objectivo é assegurar um bom trânsito”, adiantou Wong Wan, sem semelhantes estimativas para um cenário em que sejam tomadas medidas efectivas para domar as ruas da cidade.
No entanto, a DSAT avança objectivos. Após a aplicação dos planos que vierem a ser decididos, pretende-se reduzir em 24 por cento as emissões poluentes e que, durante as horas de ponta, haja 7.600 veículos nas estradas, contra 11 mil actuais. A taxa de utilização dos transportes públicos deverá rondar os 54 por cento, contra 27 por cento de um cenário onde nada seja feito.
Mais moedas no parquímetro
O documento que entra em consulta não concretiza medidas activas para controlo da importação e circulação dos veículos particulares. Há porém incentivos para largar o carro, como um eventual aumento de impostos – não quantificado para já – e do preços de parquímetros. O texto levado a auscultação prevê o aumento das tarifas dos parquímetros em 2012, até ao valor de mais seis patacas.
“Queremos um terço, um terço, um terço”. É a meta avançada em jeito de slogan, sobre a proporção futura de peões, utilizadores de transportes públicos e condutores de veículos particulares. E, naturalmente, aqueles que se deslocam em viatura própria “também têm de ser ouvidos”.
Quis saber-se ontem o que fará o Governo caso a população rejeite na consulta pagar mais por estacionar. “Temos diferentes soluções” e “temos de ver qual a capacidade de encargo dos cidadãos” foram as respostas dadas pelo director dos Serviços para os Assuntos de Tráfego. “Creio que é o que mais preocupa as pessoas”, admitiu.
