Em contra relógio
Diz o ditado que depois da tempestade vem a bonança. Só que a tempestade que nos surpreendeu no Mediterrâneo demorou a passar e ao longo dessa última tirada de 13 dias (que acabariam por ser 14) foram poucas as horas em que o mar se manteve calmo.
Mas recapitulemos.
Soubemos que o navio italiano que tinha lançado o alerta de socorro acabaria por se afundar, embora os seus 20 tripulantes, romenos e italianos, tivessem sido resgatados por um outro cargueiro.
Na manhã do segundo dia de borrasca deixou-se de ouvir o ruído do motor. Isso sim era motivo de preocupação. Um navio desse porte sem motor e sem a possibilidade de içar velas, devido ao vendaval, fica numa situação de extrema fragilidade e pode virar a qualquer altura. As primeiras pessoas com quem me cruzei eram as da equipa de combate ao incêndio que tinha visto diversas vezes em exercício. Acabavam de sair da casa das máquinas, devidamente equipadas, e ao tirarem os capacetes revelaram o seu ar lívido. O problema (uma fuga de combustível que poderia ter originado um incêndio) acabou por ser resolvido, e, para alívio de todos, de novo se ouviu o motor.
A principal preocupação passou a ser chegarmos a tempo a Lisboa, o que parecia cada vez mais improvável, pois não só os ventos eram contrários como também as correntes marítimas. Doravante seria uma luta para tentar contrariar os cálculos do ECDIS. As previsões de chegada chegaram a apontar para Abril, quando a velocidade era de apenas 1 ou 2 nós, havendo momentos em que em vez de andarmos para frente andávamos para trás.
Na casa de navegação, o comandante, de cachimbo na boca, estudava a meteorologia. Doravante seria tudo um jogo de gato e rato e aproveitamento da força do vento e de corredores marítimos por onde pudéssemos navegar em segurança. “Só quando estamos no mar é que nos damos conta da velocidade e facilidade com que os fenómenos meteorológicos mudam. Em terra ninguém tem consciência disso”, dizia ele.
A juntar ao cansaço (muitas das noites dormitei apenas) sobreveio o vazio na cabeça, que é uma forma de enjoo. Impossível alinhavar ideias. Quando não estava no convés a documentar o que se passava, estava na câmara de oficiais ou na cantina dos praças, a conversar ou a ajudar no que fosse preciso. A verdade é que até me comportei menos mal. Havia quem, habituado a navegar, estivesse em piores lençóis. Eram os casos do fuzileiro Carrapato, que regularmente vomitava amurada fora; do primeiro marinheiro Silva, que mais parecia um zombie; e ainda do marinheiro Calor, do sector das comunicações, que simplesmente hibernou. “Ele é dos que costuma dar-se pior nestas situações”, confidenciava um dos seus colegas.
E o que dizer da cacofonia dos mais variados objectos com rédea solta para partir e rebolar pelo chão? A amassadeira da padaria, por exemplo, desmantelou-se e pôs temporariamente em causa o fabrico do pão.
Após quatro dias de intensos desequilíbrios a coisa acalmou, embora a ondulação continuasse na ordem dos dois e três metros. Para consertar as velas – arrebentaram sete velas ao todo – trouxe-se para o poço a máquina de costura. “Veja a vontade com que trabalham. Todos querem chegar a Portugal o mais rápido possível”, comentou o imediato.
Ao fim da tarde foram içadas as velas remendadas. No entanto, uma mudança repentina de ventos obrigou a recolher de novo o pano. Vento, relâmpagos, chuva e nova faina geral de mastros. Onde é que eu já vira aquilo?
Rumávamos à Sicília. O objectivo era navegar juntinho à costa, evitando assim borrasca maior ainda. Arriscamos, dias depois, uma travessia em mar aberto até atingirmos as costas tunisina, primeiro, e a marroquina, depois, junto às quais navegamos, esperando que a passagem no Gibraltar se fizesse com maior tranquilidade. Mas qual quê! Na noite em que atravessávamos o conhecido estreito desabou sobre nós um tal aguaceiro e uma tal ventania que o navio adornou perigosamente, ouvindo-se lá fora o característico e aterrador ruído das velas estoiradas. Mais um susto a juntar a tantos outros. E foi com este panorama que seguimos viagem até avistarmos costa portuguesa, dois dias depois. Se não tinham sido boas as previsões até então, melhorias no Atlântico só mesmo nos nossos sonhos, como dizia o ECDIS.
A comprovar isso mesmo foi a impossibilidade de dobramos o cabo de São Vicente devido à violência da intempérie. Por isso, o comandante decidiu, e bem, fundear em Lagos, onde despertámos na manhã de 23, o dia em que era previsto chegarmos a Lisboa. Às oito horas foi levantado o ferro e dirigimo-nos para oeste, para bem longe da costa, antes de guinarmos para norte, sempre com vento hostil de noroeste pela proa. Foi um abanar permanente, todo o dia e pela noite fora. Já de madrugada as águas acalmaram permitindo algumas horas de sono. Quando acordei, estávamos fundeados na baía de Cascais, a fazermos horas para o início das cerimónias que assinalavam a chegada oficial da Sagres, que, como convinha, deveriam acontecer obrigatoriamente durante o dia.
