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Outro jogo nos novos aterros

December 29, 2010

O Instituto do Desporto já entregou várias propostas ao Executivo e o futebol será das modalidades privilegiadas nos terrenos roubados ao mar. Alex Vong fala ainda do novo centro de formação e de como seria importante usar o Fórum. Mas lembra: “Não é só o ID que manda na sociedade”.

Hélder Beja

Num território em que rareia a terra livre, é preciso meter os olhos na terra nova. Foi isso que fez o Instituto do Desporto (ID), tendo já apresentado ao Executivo várias propostas para que sejam contemplados espaços para a prática de modalidades nos novos aterros da RAEM. O futebol e não só poderão ter mais metros quadrados em Macau.

Nesta entrevista ao PONTO FINAL, Alex Vong, presidente do ID e da Associação dos Comités Olímpicos de Língua Oficial Portuguesa (ACOLOP), comenta os temas da actualidade desportiva local. Do caso com a selecção de hóquei em patins, que reclama não ter condições para treinar, ao novo centro de formação e estágio, sobre o qual dá novos detalhes, Vong não esquece também os Jogos Asiáticos de Cantão, em que Macau conseguiu a primeira medalha de ouro.

- Seis medalhas para Macau, primeira de ouro. Que balanço faz desta participação nos Asiáticos?

Alex Vong – Em primeiro lugar, os Jogos Asiáticos – e agora os Jogos Asiáticos para Deficientes – mostram o resultado de várias gerações que têm trabalhado para atingir este objectivo. O mais importante é que significa que, em termos de alta competição, estamos a atingir os níveis. Depois dos Jogos, tivemos várias análises e encontrámos vários pontos fortes e fracos do nosso desporto local. Estamos a pensar juntar-nos com todas as associações para fazer um plano a médio e longo prazos, para encorajar a formação de jovens e focalizar o plano nas disciplinas dos campeonatos asiáticos e mundiais.

- Vai haver um centro de formação de alto rendimento, certo?

A.V. – Sim, o Governo de Macau vai fazer um centro de estágios junto com o Macau Dome. Pode ser um centro de estágio do tipo do Jamor [em Portugal]. Terá inclusive alojamento, alimentação e também será focalizado na ciência desportiva e medicina desportiva. Podemos ter um âmbito mais alargado para as nossas selecções.

- Vai ser um centro de estágio e também de formação?

A.V. – Sim, ambos. Neste centro haverá três partes. Uma é a de treino, com campos e instalações; depois também tem alojamento; e finalmente uma área de administração para formação, para sede de associações e centro de medicina desportiva.

- Já há uma data para a conclusão do centro?

A.V. – Estamos na fase de planeamento e vamos entrar na fase de projecto. Estimamos entrar em funcionamento entre 2014 e 2015.

- Há alguma ideia quanto ao possível orçamento do projecto?

A.V. – Ainda não. O projecto ainda não está pronto, portanto não podemos estimar o orçamento.

- E em relação às áreas em que mais vão apostar?

A.V. – Em princípio está mais focalizado para modalidades individuais. Mas há algum espaço para modalidades colectivas. Temos de planear para que as modalidades possam atingir níveis de alta competição. Neste momento temos dois planos de apoio para os nossos atletas. Um é para atletas de alta competição que recebem um subsídio mensal, outro para atletas que estão ainda noutro degrau mas que também recebem subsídio de transporte ou pequenas ajudas.

- Falando das modalidades, o wushu continua a ser o ponto forte de Macau. Em que outras disciplinas lhe parece importante investir?

A.V. – Nos Jogos Asiáticos, o que deu mais alegrias a Macau foram as artes marciais e o salto para a água. Em provas anteriores também houve outras modalidades fortes, como badminton, halterofilismo e ciclismo de pista. Estas são as várias apostas da nossa comunidade desportiva.

- Acha que os apoios dados aos atletas são suficientes ou estão previstos aumentos?

A.V. – Pode-se sempre aumentar, mas temos de chegar a um nível razoável. Em Macau os apoios não são os melhores nem os piores, são suficientes. Como o nosso salário: nunca é bom. (risos)

- Já se encontrou com os atletas que participaram nos Jogos?

A.V. – Agora estamos na fase de descanso. No começo do ano vamos juntar-nos com os dirigentes associativos para debater ideias e concretizar o plano. Depois é que podemos fazer uma gestão, junto com os atletas e os treinadores.

- A ideia é profissionalizar cada vez mais o desporto em Macau?

A.V. – Podemos dizer que queremos especializar os atletas, mais do que profissionalizar. Estas palavras são específicas e explicam a nossa ideia, que é diferente da ideia geral. Profissionalizar significa que só recebem salário e pronto. Podem ganhar, podem não ganhar, e recebem dinheiro – como os atletas de futebol da China, que são profissionais mas não são especialistas. Queremos que os nossos atletas sejam especialistas. Pode ser em full time, part time, mas o mais importante é que sejam especialistas. Profissionalizados estão sempre. A gente dá-lhes um subsídio que é suficiente para sobreviver em Macau. Se é bom ou não, já é uma questão individual, como o nosso salário. Por isso não falamos de atletas profissionalizados, porque isso é simples. Basta ter o orçamento suficiente e já está. Para falar mais franco, no fim ou se ganha ou se perde.

- Macau pensa vir a organizar grandes competições desportivas num futuro próximo, como já fez no passado?

A.V. – Depois das competições que organizámos, e em que tivemos grandes avanços em termos de instalações e de promoção do desporto, agora, se calhar, é melhor estabelecer bem a nossa base, até o público achar que é bom voltar a fazê-lo. Estamos sempre preparados para organizar quer uma modalidade individual, como o voleibol, regatas, badminton, como estamos em condições de organizar Jogos. Isto tem que ver com a opinião púbica. Como vê, em Hong Kong [que está a concorrer à organização dos Jogos Asiáticos] há muitas críticas.

- Já que fala de Hong Kong, que apoio vai ser o de Macau à candidatura de Hong Kong aos Jogos Asiáticos?

A.V. – O Governo de Macau já disse que apoia. Mas primeiro é preciso que Hong Kong consiga vencer a candidatura. Depois é que podemos falar de apoios.

- O investimento do Governo de Macau no desporto é suficiente?

A.V. – Como presidente do ID, acho que o Governo dá um apoio muito forte nesta área. Estamos só a falar de alta competição, mas o mais importante ao longo dos anos é que o ID tem promovido o desporto junto com associações. Isto, podemos dizer, é desporto para todos e é bem estar através do desporto. A alta competição focaliza-se em poucas pessoas, é limitada. Entretanto, ao longo dos anos, projectámos e planeámos várias campanhas de promoção para cada actividade. Montámos uma rede de instalações para o público em geral. Este ano fizemos mais uma estatística sobre a condição física do público em geral que tem entre três e 69 anos. Escolhemos cerca de dez mil pessoas para esta análise que já fizéramos em 2005. Estes dados vão ser essenciais para comprar a condição física e a saúde da população.

- Quando serão conhecidos esses dados?

A.V. – Estamos na fase de finalizar os dados e, durante 2011, vamos finalizar o relatório. Em 2012 estamos a planear fazer um congresso internacional de condição física, onde serão publicados todos os dados da China Continental, e dados de Macau também.

- Vamos às modalidades. No hóquei em patins fala-se da falta de campos para treinar. Como é que está esta questão com uma selecção que ainda agora teve uma boa prestação no Mundial B?

A.V. – Em termos de hóquei, achamos que é uma modalidade que dá muitas expectativas a Macau e achamos que os resultado da selecção foram bons. Depois de 1999, sempre demos apoio – quer para convidar o treinador adjunto, que vem de fora, quer com apoio financeiro para os atletas. Mas quando se fala em instalações desportivas, toda a gente sabe que Macau é assim… Que posso fazer? Fazemos o máximo possível para ganhar espaço e também temos de equilibrar com as outras modalidades. Todas as modalidades querem ter instalações próprias. Como é possível? A única é o futebol, porque ninguém vai pisar a relva, ou a natação, porque ninguém vai usar a piscina. Agora, também sabemos que haverá hóquei com patins em linha [inline hockey], e não em quatro rodas, nos Jogos Asiáticos, e estamos a fazer um esforço para incentivar as nossas associações locais. Como é que se equilibra isto? Fazemos o melhor possível, mas o mundo é assim… Quando falo com colegas meus da Educação, digo que Educação é bom. Todos passam no exame, tudo está bem. No desporto não: só há um primeiro, só há um campeão. A não ser no desporto para todos, em que todos são campeões.

- Mas a selecção está a treinar em algum campo?

A.V. – Demos-lhes o campo Tamagnini Barbosa mas parece que não gostaram. Treinaram lá três ou quatro atrás, mas agora só querem o Dom Bosco. Também tivemos uma proposta em Hac Sa. Falámos com o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais e podíamos fazer ali um campo de patinagem, mas dizem que é descoberto e não querem. Que posso fazer? Continuamos a ter esperança no pavilhão de Mong Ha num futuro próximo. Terá vários pisos e vamos dar um piso para um campo de patinagem. Estará pronto para 2012, 2013. Também acharia bom se pudéssemos utilizar o Fórum. Eu também quero ocupar aquele espaço para patinagem, mas pronto…

- Ainda não é possível, neste momento?

A.V. – Tem de perguntar ao IACM. (risos)

- Outra modalidade: futebol. Alguns treinadores que dizem que não há campos suficientes para treinar. Que acha disto?

A.V. – Acho que as opiniões são sempre bem-vindas, mas não é só o ID que manda na sociedade de Macau. Eu mando, faço, mas não mando. Só mando dentro do meu espaço. Antes dos Jogos da Ásia Oriental, tínhamos apenas o Canídromo. Agora temos três campos de relva natural. E, em termos artificiais, temos o Dom Bosco e o campo ao lado do estádio [da Taipa]. Já se duplicou ou triplicou o espaço do futebol em cinco ou seis anos. É suficiente? Sei que não é suficiente, porque todas as equipas querem um campo próprio, como em Portugal. Mas temos de olhar para a realidade de Macau. De qualquer maneira, nós queremos sempre ter mais espaço para todo o desporto local em várias modalidades.

- E vai haver esse espaço?

A.V. – Temos várias propostas feitas ao Governo de Macau para que no futuro plano dos novos aterros se façam alguns espaços para o desporto, especialmente para o futebol. Não só o futebol não tem campos suficientes, mas vários desportos: basquetebol, voleibol, andebol, badminton.

- Está optimista em relação a essas propostas que apresentou?

A.V. – As Obras Públicas estão agora a recolher todas as informações e pedidos de todas as áreas para os planos futuros dos novos aterros, mas ainda não é público o futuro do plano.

- Para terminar, a ACOLOP. Que balanço faz da sua presidência até agora?

A.V. – Este projecto é mais uma aposta do Governo de Macau para a plataforma [com a lusofonia] além da economia, através do desporto. Podemos ter ligações entre todos os países lusófonos. Em Fevereiro vamos ter uma reunião da Comissão Executiva para constituir uma comissão de acompanhamento para a comissão organizadora dos Jogos da Lusofonia de Goa, em 2013. Achamos que este projecto pode ter mais actividades anuais, como a Corrida de São Silvestre. É assim que podemos concretizar a ligação entre os povos através do desporto.

- Que mais pode fazer a ACOLOP, que de começo se propôs a ir além dos Jogos?

A.V. – Vão surgir mais actividades. Por exemplo, no próximo ano, Moçambique vai ter os Jogos Africanos e teve a simpatia de convidar os membros para um encontro informal. Em Agosto, em Shenzhen, vai haver Universíadas, e também haverá um encontro informal. O mais importante é ter mais contacto entre todos os membros através do desporto, porque os Jogos são só de quatro em quatro anos.

- O Chefe do Executivo disse há pouco tempo que continuará a apoiar a ACOLOP. Em que termos? Qual é o orçamento da ACOLOP?

A.V. – Como tem feito até agora. O orçamento tem grande apoio do Governo de Macau, bem como em termos de funcionamento da sede, que é apoiado pelo Governo de Macau.

- Mas o orçamento não é público?

A.V. – Não é público.

- Porque é que o site da associação não é actualizado com regularidade?

A.V. – É um lapso. Estamos a tentar actualizar o site o mais rápido possível. É difícil encontrar pessoas bilingues em Macau para introduzir os dados. Vamos actualizá-lo o mais rapidamente possível.

- Segundo a lei das associações de Macau, os mandatos à frente de associações devem ser no máximo de três anos. O seu, na ACOLOP, é de quatro. Essa questão alguma vez foi levantada, alguma vez foi vista como um problema?

A.V. – A ACOLOP é uma associação internacional, são coisas diferentes.

- Mas tem sede em Macau.

A.V. – São coisas diferentes. Uma empresa tem sede em Macau mas respeita regras internacionais. Tem de respeitar a lei de Macau, mas isto não é contra a lei de Macau. Tenho de rever os artigos, mas a minha ideia é que… Se futuramente o Comité Olímpico Internacional pensar fazer um escritório aqui em Macau, também não é contra a lei de Macau. Acho que são coisas diferentes. A lei do desporto de Macau regula a actividade desportiva para as associações de Macau. Para uma organização internacional, é uma coisa diferente.

- Por fim, queria perguntar-lhe que expectativas tem para os próximos Jogos Asiáticos, depois do primeiro ouro.

A.V. – Vou citar o nosso campeão [Jia Rui] dos Jogos Asiáticos, que na primeira entrevista que deu disse: ‘A medalha de ouro já passou. Agora é para a frente’. É preciso lançar trabalho e planear. Além do ouro, tivemos mais atletas nos três primeiros classificados. E também temos vários atletas jovens classificados nos quatro, quinto e sexto lugares. Acho que, além de uma primeira linha, também temos uma segunda linha, e esperamos que esta segunda linha possa chegar mais alto e obter melhores resultados nos Jogos Asiáticos de 2014.

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