Do ópio à vida longa
O relatório The World Fact Book da agência de inteligência norte-americana traça um perfil exaustivo de Macau. É o segundo lugar do mundo com maior esperança média de vida e “um ponto de passagem para drogas que entram no Continente”.
Hélder Beja
A Agência Central de Inteligência norte-americana (CIA, na sigla inglesa) sabe muito sobre Macau. Sabe, talvez, coisas que a maioria dos residentes desconhecem. Como por exemplo que o território é, logo depois do Mónaco, o lugar do mundo com maior esperança média de vida, com as pessoas a envelhecerem até aos 84,38 anos. Ou que esta terra é “um ponto de passagem para drogas que entram no Continente”, e ainda um lugar onde “se consome ópio e anfetaminas”.
No The World Fact Book, disponível online e actualizado semanalmente, a agência de inteligência que serve o Governo de Barack Obama traça um perfil sólido do território, provendo mais informação – e mais assertiva – que aquela que se encontra em páginas como a Wikipedia ou outros perfis socioeconómicos da RAEM disponíveis online.
Viver muito
Quantidade não é qualidade, mas impressiona que na lista elaborada pela CIA – e com dados estatísticos deste ano – Macau ocupe a segunda posição entre os países e territórios com maior esperança média de vida. Na contextualização dos dados apresentados, a CIA escreve que a lista também tem em conta a qualidade de vida global e dá a esperança média de vida no território como estando nos 84,38 anos, com as mulheres a viverem em média 87,49 anos e os homens apenas 81,42. Melhor só o micro-Estado do Mónaco, onde cada habitante tem uma esperança de vida à nascença de 89,78 anos. A lista é fechada por Angola (38,48 anos) e Haiti (29,93 anos).
A população desta terra que “tem menos de um sexto do tamanho de Washington”, capital norte-americana, e onde o nível de literacia está nos 91,3 por cento, é analisada a fundo: há mais mulheres que homens, a média de idades é de 35,6 anos e o intervalo dos 15 aos 64 anos abarca 76,2 por cento das pessoas, com mais de 199 mil residentes do sexo masculino e 227 mil do sexo feminino.
Há até uma referência aos macaenses. Quando especifica os grupos étnicos de Macau, a CIA nota que 94,3 por cento da população é chinesa e que os restantes 5,7 por cento incluem “macaenses – cruzamento entre antepassados portugueses e asiáticos”.
Já a taxa de migração do território – percentagem que assinala a diferença entre o número de pessoas que deixam o território e as que para cá vêm trabalhar – é de 3,52 por cento. A estatística coloca Macau no 26º lugar da tabela traçada pela CIA e que é liderada pelos Emirados Árabes Unidos, que recebem muito mais trabalhadores que aqueles que saem para exercer no estrangeiro.
Democracia limitada
O termo usado pela CIA para descrever o tipo de sistema político existente na RAEM é “democracia limitada”. Além da explicação da estrutura governamental do território, com Chui Sai On à cabeça, referem-se todos os resultados eleitorais das últimas legislativas e explica-se o funcionamento do processo eleitoral.
É ainda mencionado que não existem partidos políticos em Macau. Em relação a “líderes políticos”, a agência norte-americana refere nomes como Angela Leong, Chan Meng Kam, Ng Kuok Cheong e José Pereira Coutinho. Entre os “grupos de pressão” identificados no relatório está a Energia Cívica e a sua responsável máxima, Agnes Lam, bem como a STDM de Stanley Ho.
Força económica
A religião merece uma breve nota – diz-se que o budismo cobre metade da população, seguido do catolicismo (15 por cento) –, assim como o Direito, onde é apontada a matriz portuguesa do sistema legal. A agência lembra ainda que o território não tem um contingente militar permanente, existindo no entanto 150 mil residentes “disponíveis” para cumprir serviço militar.
O perfil económico da RAEM é alvo de maior atenção. “A economia de Macau gozou de um forte crescimento em 2009 apesar do abrandamento económico global, muito às custas dos sectores do turismo e do jogo”, lê-se. De acordo com a CIA, a indústria fabril “virtualmente desapareceu” no território. A agricultura representa 0,1 por cento do produto interno bruto; a indústria fica-se pelos 2,8 por cento e os serviços totalizam 97,1 por cento.
No que toca a exportações, vestuário e têxteis, calçado, brinquedos e material electrónico são os produtos que a RAEM ainda vende para Hong Kong, EUA, China e Alemanha, por esta ordem de parceiros.
Na dívida externa, Macau fecha – da melhor maneira – a lista de países e regiões composta pela CIA, já que não regista qualquer obrigação para com o estrangeiro. O território ocupa a 198ª e última posição da tabela liderada precisamente pelos EUA, que têm uma dívida externa (contabilizada no ano passado) superior a 13 biliões de dólares norte-americanos.
Língua portuguesa omitida
O breve repasso histórico sobre Macau que a CIA fornece é fiel e refere a presença portuguesa no território. No entanto, nas linhas que versam sobre idiomas, o português não é tido nem achado. Escreve-se que 85,7 por cento das pessoas falam cantonês, quatro por cento usa o hokkien (dialecto falado em Fujian, em Taiwan e em várias comunidades chinesas residentes nos países do Sudeste Asiático), 3,2 por cento mandarim, 2,7 por cento outros dialectos chineses, 1,5 por cento inglês e 1,3 por cento tagalo. Os dados referentes às línguas, frisa a CIA, foram colhidos em 2001. O português, língua oficial do território, estará, de acordo com a agência, inserido nos restantes 1,6 por cento de falantes que habitam Macau.
