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Batalha de elite

November 30, 2010

O Complexo de Alemão, no Rio de Janeiro, está literalmente em pé guerra entre polícia e traficantes. Os cariocas residentes em Macau vêem com bons olhos aquilo que definem como uma “limpeza” e uma data que “vai ficar para a história”.

Hélder Beja

Que a realidade supera a ficção é um lugar comum bastas vezes repisado. Mas a últimas imagens do Brasil, que mostram a favela do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro, mais parecem cenas de filmes como “Tropa de Elite” ou a sua recente sequela. E fazem pensar isso mesmo: a guerra é ainda mais vivida quando não passa apenas na tela do cinema.

“Ontem [domingo] acompanhei ao vivo na Internet a operação no Complexo do Alemão. Adorei, acho que foi uma vitória muito importante para a polícia”, começa a presidente da Casa do Brasil no território, Jane Martins. A brasileira, que não nasceu no Rio de Janeiro mas viveu boa parte da vida naquela cidade, acha que as forças de segurança “não ganharam a guerra mas ganharam uma batalha”. “Isto é um começo, porque antigamente ninguém acreditava que a polícia o pudesse fazer. Acho que até os próprios traficantes não acreditavam que eles iriam tão longe, a ponto de entrarem com os blindados, exército e um conjunto muito grande de forças para atacar.”

A investida foi forte. Ao todo, participaram na operação de domingo 800 soldados, 17.500 polícias estaduais e 300 polícias federais. Registam-se já dezenas de mortos e isso também inquieta quem acompanha o caso à distância. “A gente fica aqui preocupada, porque tem a família lá, apesar de a minha família não morar naquela zona, mas isso acaba por se reflectir em toda a cidade”, continua Jane Martins, que tem a filha na urbe carioca.

Limpeza necessária

A presidente da Casa do Brasil diz que a polícia “tem de fazer uma limpeza naquela cidade” e não desconfia dos métodos mais agressivos ou bélicos. “Tinha de ser assim, porque já tentaram em 2007. O Complexo do Alemão é um dos lugares mais perigosos e de maior tráfico de drogas e de armamento. Então, parecia uma coisa invencível, nem os próprios moradores acreditavam nisso. Mas graças a Deus conseguiram pegar o território agora.”

Recorde-se que as autoridades brasileiras levantaram mesmo a bandeira nacional no ponto mais alto do Complexo do Alemão, como se verdadeiramente se tratasse da reconquista de um território. Apesar da violência, a sensação de Jane Martins é de que “as pessoas estão mais tranquilas”. “Agora eles vão atacar as outras favelas [como a Rocinha e o Vidigal], não só essa. Essa era a maior e a mais importante, a mais perigosa. Acho que vão resolver esse problema”, preconiza.

A percepção, no entanto, é de alguém que está bem longe do epicentro da acção. Jane Martins ainda não falou com a família depois da mega-operação desencadeada no Rio mas acredita que “toda a população está a favor do policiamento”. “Antigamente aqueles movimentos de paz, contra a guerra e o tiroteio, eram contra isso. Agora o Brasil inteiro está do lado da polícia, porque chega uma hora em que ninguém aguenta mais, porque é um absurdo o que eles fazem. Vão matando inocentes e até utilizam crianças para passar drogas e armamento para fora da favela”, denuncia.

Maria de Jesus, do restaurante Yes Brasil, vinca que “com os traficantes tem de  se agir desse jeito, é tropa de elite”. A mulher para quem “o Rio de Janeiro é uma selva de pedra” acredita que “infelizmente vai morrer muita gente inocente, mas o importante é que eles peguem esses traficantes que tiram a paz de todo mundo”.

O preço da segurança

Cássia Schutt é carioca de gema e vive em Macau há quatro anos. Um dos motivos que a levou a trocar aquela que define como “cidade maravilhosa” pelo território foi a segurança. “A tranquilidade de se andar na rua aqui em Macau não tem preço. Amo o Rio, estou torcendo para tudo terminar bem e em paz, até porque é a minha cidade e um dia quero voltar, mas essa tranquilidade de andar na rua sem ter de olhar para o lado ou ver a pessoa que está na sua frente… O carioca já tem essa malandragem de saber ‘ah, esse cara vai pegar a carteira’”, lamenta.

Para Cássia Schutt “nunca foi normal ter de andar com o vidro fechado, parar no sinal e ter de olhar para os lados”. “Isso também não é uma vida normal. O carioca meio que se acostumou com essa vida”, diz a brasileira.

Sobre o que está a acontecer no Rio de Janeiro por estes dias, fala de “uma data importante”: “Infelizmente tem de ser assim, não tem outro jeito, e espero que seja o primeiro passo para conseguir eliminar o tráfico, porque o negócio realmente é pesado. A gente sempre teve esse tipo de violência. A classe pobre, a média e a alta sempre viveu muito junta. A favela é de frente para a praia e a gente sempre teve vítimas próximas. Agora vai ter, mas que seja para exterminar”, sentencia.

A carioca não tem acompanhado todas as notícias de perto, porque “não é o tipo de leitura” que lhe apeteça fazer diariamente. Não se mostra, no entanto, surpreendida com o que está acontecer. A residente de Macau considera que este “é um pequeno passo, porque [o tráfico] existe em muitas favelas do Rio”. “Não posso falar que estou surpresa, mas fico mais aliviada de saber que a guerra é entre a polícia e os traficantes para que eliminem tudo. É um passo importante e acho que é uma data que vai ficar para a história do Rio.”

Schutt viveu várias “fases de tristeza, de violência” na segunda maior cidade do Brasil. Agora espera uma caminhada para a paz. Para já, e enquanto não se baixam as armas nos morros do Rio de Janeiro, continua a preferir Macau: “Não ter essa sensação de medo dentro de mim, essa angústia, não tem preço. Essa é a diferença”.

Exigência de Olimpíadas e Mundial

Luís Odeno, carioca a viver em Macau, considera que a situação que se vive actualmente no Rio de Janeiro “não é normal” e encontra uma justificação para este avanço das forças de segurança no combate ao tráfico: “As Olimpíadas e a Copa do Mundo, para que os estrangeiros possam andar à vontade no Brasil”. Os dois grandes eventos desportivos que a nação verde-amarela recebe em 2016 e 2014, respectivamente, estarão na génese desta “limpeza” e do combate à criminalidade. Os métodos diferem dos princípios definidos para as unidades de Polícia Pacificadora (UPP), que serviriam para tentar conter a violência e o tráfico nas zonas mais problemáticas. O problema é de uma “cidade que só é boa para quem tem dinheiro”, porque “nas favelas é complicado”, sintetiza Luís Odeno. Também Jane Martins, da Casa do Brasil, vê o país organizador de grandes acontecimentos mundiais com responsabilidade acrescida: “Como é que você vai esperar assim um evento tão grande como a Copa do Mundo, as Olimpíadas e outros eventos que estão por aí perto?”. Além disso, adita que “a própria população sofre muito – pessoas inocentes que moram nas favelas, que não têm nada que ver com o assunto e que acabam por ser prejudicadas”.

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