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No Mar Vermelho

November 29, 2010

Hoje levanto-me ao toque da alvorada e, antes do pequeno-almoço, vou até ao tombadilho aproveitar um restinho de lua. Apercebo-me que tenho rede no telemóvel (a operadora local é a Sabaphone) no exacto momento em que transitamos do Golfo de Adén para o Mar Vermelho. A estibordo adivinha-se terra lá para as bandas do Djibuti, em forma de um silhueta estendida. A bombordo os contornos da costa do Iémen são claros. Um promontório, uma praia, uma dúzia de habitações e três faróis.

Todos se queixam do balanço da barca que os impediu de dormir durante a noite. “Era suposto que este fosse um mar calmo, mas acaba por se revelar um verdadeiro malagueiro, como dizemos na gíria da Marinha”, comenta o segundo tenente Salvador, o médico de bordo que tirou a tempo um quadro da parede do seu camarote antes que este lhe caísse em cima. Devido à força das vagas, houve esta noite dança de mobílias e objectos soltos, para além dos constantes e inevitáveis ruídos metálicos e o ranger das madeiras resultantes dos movimentos ondulatórios da barca.

Entramos de novo em mar aberto e só horas mais tarde se avista outra silhueta montanhosa. É mais uma ilha, talvez aquela onde repousam os ossos de Cristóvão da Gama que no século XVI chefiou a expedição de portugueses que veio de Goa em ajuda do soberano etíope na sua luta contra o inimigo comum muçulmano.

Ao longe passam cargueiros e vêem-se dois iates acompanhados de perto por um barco patrulha. Informa-me o oficial de quarto da casa da navegação que eles têm como destino Barcelona. “O dinheiro do petróleo dá para tudo”, comenta um dos marinheiros a postos na proa, a respeito deste encontro com uns dos muitos “Abramovich das Arábias” que se dão ao luxo de escoltar os seus passeios bilionários.

Junto à entrada da cozinha um outro marinheiro descasca cebolas e convida-me para o seu jantar de aniversário – completará 21 anos de idade. A generosidade dos homens aqui embarcados, cuja média de idades é bastante baixa, traduz-se bem na frase que o Gonçalves (assim se chama o aniversariante) profere logo de seguida: “Aqui você é convidado e, por isso, não paga absolutamente nada. Vai uma cervejinha, daqui a pouco quando acabar o meu turno?”.

A maior parte da guarnição está ocupada em múltiplos afazeres. Há que continuar a preparar as lanudas que evitam que as velas rocem nos cabos de aço, protegendo-as; há que lavar o convés com água do mar, e “quantas mais vezes, melhor”; há que se certificar da solidez das amarras; há que raspar o verniz das madeiras. “O verniz que compramos no Japão não prestava, por isso temos de o substituir por outro”, informa o Lopes, sentado na amurada a supervisionar o trabalho dos homens que estão ao seu serviço. Fala-me com entusiasmo das passagens pela Malásia, Singapura e Tailândia.

Um pouco mais tarde recebo um outro convite para jantar que me é feito pelo Ferreira, um alentejano eleito unanimemente “presidente” dos El Capitan, uma das quatro associações de marinheiros e grumetes existentes a bordo. E à noitinha, lá estão as mesas postas para um repasto complementado com vinho sadino e discursos de circunstância, com vivas aos fotógrafos (eu e o Guta) pouco antes do Magalhães, transmontano de Alijó, mexer nos botões do seu Korg e tocar umas músicas do Tony Carreira e de outros cantores de sucesso.

Entre as conversas da noite destaco os inevitáveis relatos das peripécias nos portos de atracagem, as aventuras nas longas tiradas no Atlântico e o frio que se sentia aquando a passagem pelo cabo Horn, “o mais belo momento de todos”, e, claro, o elogio às mulheres sul americanas, “sobretudo as argentinas e chilenas”, que lhes merecem todos os elogios.

A cantina e o bar das praças situam-se mesmo por debaixo da cozinha onde em três gigantescas panelas à pressão alimentadas a energia eléctrica se preparam as sopas e os pratos do dia. Há ainda alguns fornos, também eléctricos, e a copa adjunta. São cinco os cozinheiros que se vão revezando em turnos, assim como os faxineiros que, no fundo, são todos os marinheiros.

“Você é diferente. Vem visitar-nos. A maioria dos jornalistas que passou por este navio nunca cá põe os pés”, diz um dos convivas do El Capitan, que apesar do seu ar descontraído está pronto a assumir as suas funções a qualquer altura. Ele e qualquer um desses bravos lobos-do-mar.

Joaquim Magalhães de Castro

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