Estas universidades não são para quem trabalha
É uma das ideias em que o Governo quer apostar: a formação contínua faz falta para resolver problemas estruturais em Macau. Fomos à exposição do ensino superior e descobrimos que os adultos que querem estudar não têm a vida facilitada.
Isabel Castro
A banca da Universidade de São José (USJ) é a única com música ambiente. Uns metros ao lado, estão sentados dois sorridentes agentes da PSP, no expositor da Escola das Forças de Segurança. “Já veio cá muita gente hoje?”, perguntamos. “Nem por isso”, diz o jovem polícia que, de imediato, disponibiliza um folheto com informações sobre os cursos. Para andar na escola é preciso saber ler e falar chinês. “Mas também temos aulas de Português”, realça a mulher-polícia de serviço na exposição sobre o ensino superior da RAEM.
Por iniciativa do Gabinete de Apoio ao Ensino Superior (GAES), uma dezena de universidades e institutos juntaram-se na Praça da Amizade, durante as tardes de sexta-feira e sábado. Objectivo principal: explicar aos finalistas do secundário quais as opções para prosseguir estudos em Macau. Objectivo colateral: mostrar à população em geral como são as escolas da RAEM onde se formam quadros superiores.
A exposição faz-se de vários painéis e de bancadas de igual dimensão para as entidades representadas – desde universidades de grandes dimensões a institutos com menor visibilidade na cidade. Começamos por visitar o expositor do GAES, onde nos é dado um kit com informação diversa. Olhamos para os folhetos e pequenas publicações e vemos que só estão disponíveis em língua chinesa. Dados noutros idiomas “só no site” (www.gaes.gov.mo), dizem-nos prontamente. A resposta será reproduzida noutras bancas do evento, feito nitidamente a pensar nos estudantes de língua chinesa do território.
Oficiais e fura-festas
Corremos os expositores com um objectivo em mente: é possível trabalhar a tempo inteiro e, ao mesmo tempo, estudar em Macau? Em dez minutos, chega-se a uma conclusão: não é de todo inviável, mas as escolhas são parcas se o interessado não quiser fazer um mestrado, mas sim uma licenciatura. Se não dominar a língua chinesa, então as alternativas são ainda menores.
O Instituto Milénio de Macau (IMM) é uma das quatro instituições com aulas agendadas para o final de um horário normal de trabalho. A escola tem uma licenciatura em Gestão Hoteleira e uma pós-graduação na mesma área, sendo que disponibiliza os programas em duas línguas – inglês e chinês. Informam-nos que há aulas entre as 18h30 e 21h30. O IMM tem uma brochura em inglês, onde se fica a perceber que um ano lectivo custa 26.800 patacas.
Na Universidade Aberta de Macau dão-nos apenas um folheto em inglês, dos vários que estão em exibição no balcão. Trata-se da única opção de momento para quem quiser estudar em regime pós-laboral. Não serve, porém, para quem não tem uma licenciatura: os estudantes-trabalhadores da instituição estão a fazer o MBA.
Ao lado está o Instituto de Gestão de Macau, pouco útil nesta procura. O prospecto está em língua chinesa e não há versão noutro idioma. O mesmo acontece na bancada do Instituto de Enfermagem Kiang Wu, mas as representantes da escola falam inglês. Explicam expeditamente que não há cursos nocturnos e oferecem-nos um marcador para livros, com um lema que a instituição foi buscar a Florence Nightingale, a enfermeira que ficou famosa pela dedicação aos feridos durante a Guerra da Crimeia: “Permaneço à cabeceira dos feridos e doentes e, enquanto viver, luto pela causa deles”.
Atravessamos a zona onde estão colocados os painéis sobre as instituições convidadas pelo GAES e onde uma mulher distribui pacotes de lenços de papel. Na embalagem está o endereço de um site – www.citysmartgroup.com – que disponibiliza informação apenas em chinês e tem em destaque a Universidade de Queensland. Ainda no pacote de lenços de papel, a empresa assegura, em inglês: “Os vossos estudos, o vosso futuro, são a nossa prioridade”. A diligente distribuidora de publicidade não faz parte dos convidados oficiais do GAES.
Ter marketing e não ter
Diligência é característica que não falta na banca da Universidade de São José, a mais animada de todas. Logo à chegada, Amy Lee, que trabalha na instituição académica e trata das admissões, oferece-nos um kit completo sobre a vasta oferta da USJ, que nos últimos anos tem conhecido um considerável crescimento, tanto no número de programas como no de alunos.
Dentro de um saco roxo e laranja encontra-se uma capa com vários folhetos coloridos – cada cor corresponde a uma escola. No total, são 15 licenciaturas de áreas muito distintas, da Arquitectura à Filosofia, passando por Relações Internacionais e Assistência Social. Todos os cursos da USJ, instituição com o reconhecimento da prestigiada Universidade Católica Portuguesa, são em língua inglesa. Amy Lee informa que é possível frequentar dois cursos em regime pós-laboral: Psicologia e Gestão. Uma licenciatura custa 47.500 patacas por ano.
Se a USJ compareceu na exposição pronta para cativar alunos, o mesmo não se pode dizer do Instituto Politécnico de Macau (IPM), com uma das bancas mais vazias da tarde de sexta-feira. O atendimento permitiu concluir apenas que não existem cursos para adultos com horários laborais pouco flexíveis. De resto, foi-nos entregue uma capa com documentos em chinês e uma cópia de um suplemento especial sobre o IPM da autoria do jornal Ou Mun. “Vá ao site para ver o resto”, aconselha-nos, em inglês, um jovem que não sabe precisar quantos cursos há no Instituto que não requeiram o domínio do cantonês.
No expositor da Universidade de Macau (UMAC) não é fácil explicar ao que vamos. Ao contrário da maioria dos presentes, ali não se oferecem espontaneamente sacos coloridos com folhetos apelativos, marcadores, esferográficas e outro tipo de merchandising. Pedimos informação sobre a admissão e comunicam-nos que a publicação que a UMAC elabora anualmente ainda não está pronta. E brochuras sobre as licenciaturas? Depois de alguma confusão entre os programas de licenciatura e os de mestrado, saímos de lá com cinco livrinhos (sobre as faculdades de Direito, Ciência e Tecnologia, Gestão de Empresas, Ciências de Educação, e Ciências Sociais e Humanas), e a indicação de que a universidade pública da RAEM tem uma licenciatura em regime pós-laboral: é o curso de Direito em língua portuguesa. No material distribuído não consta o custo de frequentar a UMAC – se as propinas não tiverem sido alteradas, estudar Direito rondará as 25 mil patacas anuais.
Ainda no capítulo das grandes instituições de ensino está a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST, na sigla inglesa), o expositor do evento onde mais mandarim se ouve falar. Mas o atendimento também é feito em inglês: entregam-nos mais um dossiê, este sem grandes preocupações de marketing: uma capa de plástico transparente com umas fotocópias a cores sobre os planos curriculares para o ano lectivo 2011/2012.
Os documentos estão em chinês, mas a tradução não tarda: “Temos duas licenciaturas em horário pós-laboral”. A representante da MUST ressalva, no entanto, que os cursos de Turismo Internacional e de Gestão, ambos leccionados na Escola de Estudos Contínuos, são em língua chinesa. “De qualquer forma, podem sempre ir ver ao nosso site”, acrescenta. Os papéis distribuídos não fazem referência ao preço das propinas.
O périplo não fica completo sem uma visita ao expositor do Instituto de Formação Turística (IFT). Os jovens destacados para o local têm dificuldades em comunicar em inglês, mas comunicam que não há cursos em horário pós-laboral. A brochura que distribuem é simples e elucidativa, mas diz ainda respeito ao corrente ano lectivo: o IFT tem neste momento cinco licenciaturas, todas elas relacionadas com hotelaria e turismo. A escola cobra 24 mil patacas por ano aos estudantes de Macau, Hong Kong, Taiwan e Continente (31.200 patacas para os estrangeiros) e fixa despesas adicionais com material escolar e uniformes. Mais informações, dizem-nos, “estão no site”.
