Lê-los para compreender
A edição portuguesa tem conhecido mais obras de autores chineses e japoneses. Descobri-los não é fácil, traduzi-los ainda menos. Editores e tradutores dão-nos um passeio pelos caracteres decifrados da literatura asiática.
Hélder Beja
O Oriente distante está na moda em Portugal. Está? As casas de chá, as lojas, os restaurantes de sushi, o mobiliário, os ciclos de cinema – tudo aponta nessa direcção. E a literatura? Bom, a questão aí é mais complicada. Para começar porque não é preciso decifrar um pedaço de peixe cru para comê-lo, ou tentar perceber a simbologia daquele armário que fica tão bem na sala. Um arruma-se no estômago, outro encosta-se à parede. A gente gosta, não pensa muito nisso, e a vida segue.
Com os livros a coisa é diferente, mas o apetite está lá. “O público português está cada vez com mais curiosidade pelo que é diferente, porque temos muitos autores anglo-saxónicos, o mercado está inundado dessa literatura. Tudo o que passe um bocadinho fora desse âmbito interessa aos leitores”, começa Fátima Carmo, editora da Gradiva.
A casa editorial gerida por Guilherme Valente, que passou por Macau e foi assessor cultural do antigo governador Rocha Vieira, tem publicado livros relacionados com Oriente e, às vezes, de autores destas bandas. Recentemente deu à estampa “Não há palavras”, de Zhang Jie (n. 1937), uma das primeiras representantes da literatura feminina do Continente a ultrapassar as fronteiras do país. A obra já chegou a Macau e está disponível na Livraria Portuguesa.
Há bem pouco tempo, o conhecimento geral lusitano sobre literatura chinesa ficava-se por coisas como o ultra reeditado “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu, livro sobre teoria militar e estratégia que se tornou um clássico também para a classe empresarial. E o desconhecimento ia ao ponto de não se saber que “O Outono em Pequim”, de Boris Vian, não se passa nem no Outono nem em Pequim – mas Boris Vian também não é chinês. Portanto, adiante.
Nos últimos anos o panorama mudou um pouco. Em 2002, “A Montanha da Alma” foi o primeiro livro do único Nobel da Literatura chinês, Gao Xingjian, a ser editado em Portugal pela Dom Quixote. Quando lhe atribuiu o prémio, em 2000, a academia sueca disse que Gao venceu “por uma obra de valor universal, uma lucidez amarga e uma ingenuidade linguística que abriram novos caminhos para o romance e o teatro chineses”. A carreira de Gao em Portugal foi, no entanto, curta. A mesma chancela publicou apenas mais um título do autor, “Uma Cana de Pesca para o meu Avô” (2004), e ficou-se por aí. Gao não convenceu.
Ainda está por descobrir o Haruki Murakami da China, o escritor que, como o japonês, finalmente se torne transversal e ocupe lugar de destaque nas livrarias ocidentais. Em língua portuguesa vão surgindo, no entanto, pequenos fenómenos como o de Zhang Jie. A obra desta mulher, que vive em Pequim e é também membro honorário da Academia de Artes e Letras norte-americana, chegou à Gradiva apresentada por um agente literário internacional. “Utilizámos a tradução italiana de ‘Não há palavras’, com a autorização da autora. Ela fez uma versão especial para o público europeu. Começou pela Itália e foi de lá que o livro nos chegou”, conta a editora Fátima Carmo.
O livro é apresentado como a “narrativa contemporânea mais premiado da história da República Popular da China” e cobre todo o século XX e mais. Como escreve a crítica literária Filipa Melo, o texto “narra como um homem (Hu Bingchen, descendente de aristocratas, depois velho dirigente do Partido Comunista) troca a mulher (Bai Fan, veterana da revolução) por uma 20 anos mais nova (Wu Wei, a protagonista), para, duas décadas depois, se divorciar dela e regressar à primeira”. Desta história quase banal de amor, ódio e vingança nascem outras personagens que circulam no tempo, da China das guerras do ópio (tempo de Mohe, a avó de Wu Wei, filha de um literato) até às lutas entre nacionalistas e comunistas (a época da mãe, a mestre-escola Ye Lianzi), à guerra de resistência ao Japão (o do pai, o iletrado Gu Qiushui) e a Mao e à Longa Marcha.
“O livro foi bem recebido. Não teve grande eco na crítica mas pelos leitores tem sido bem recebido e tem vendido bem. Despertou a curiosidade por se tratar de uma autora chinesa e por ser conceituada”, continua a editora.
O apelo da diferença
Na leitura de “Não há palavras” nota-se “evidentemente um contexto cultural diferente”, analisa Fátima Carmo. “Não direi em termos de linguagem mas depois em termos mais formais, de um discurso mais contido talvez, e das referências a que a autora apela.”
O tradutor é sempre um leitor privilegiado e José Colaço Barreiros, que verteu a obra a partir do italiano, fala de um romance que “é uma grande pintura da China actual e não só, com os valores e as ideias que a conduziram ao que é actualmente, contada de uma maneira dolorosa mas ao mesmo tempo com grande amor”. O livro oferece “uma perspectiva nova sobre a vida na China, nomeadamente da Revolução Cultural, de que conhecíamos mais os aspectos heróicos ou críticas muito comprometidas, ou a favor ou contra”, refere.
Colaço Barreiros nota também “uma grande curiosidade dos leitores” lusófonos pelo Oriente. “São países remotos mas há uma ligação histórica entre nós e eles, e deste ponto de vista estamos mais bem situados que outros povos europeus.”
A distância e a complexidade dos dois idiomas faz com que os tradutores capazes sejam raros. O editor da Cavalo de Ferro, Diogo Madredeus, chamou António Barrento, especialista em línguas orientais, para verter a obra “A Minha Vida enquanto Imperador”, de Su Tong. Hoje, admite que já foi “mais radical” no que toca à indispensabilidade de traduzir a partir do idioma original. “Estou interessado é em que o resultado final em português seja bom e o mais próximo possível do original. Uma coisa que aprendi com a Cavalo de Ferro foi que a questão da semelhança só tem que ver com o facto de termos ou não um bom tradutor a trabalhar o texto”, refere.
Diogo Madredeus fala de experiências em que partir do original deu azo a traduções muito demoradas, mais custosas, que aumentaram o preço de venda do livro e que obrigaram a revisões editoriais profundas, com versões em segundas línguas ao lado “para tentar reparar o português da tradução”. “Duvido que esse resultado tenha sido mais próximo do original do que se traduzíssemos de uma segunda língua, bem traduzido, com o cuidado de ter duas ou três escolhas de outras versões para apanhar o melhor delas”, defende.
Sobre Su Tong, admite que, quando decidiu editá-lo, o autor já fizera carreira no Ocidente. “Foi traduzido em vários países e penso que já vinha até dos EUA quando agarrámos nele. Tivemos conhecimento dele porque estávamos à procura de algo que viesse da China e que, sendo um pouco histórico, trouxesse também algo fresco, algo novo. Foi a folhear catálogos que demos pelo Su Tong, pedimos um exemplar para análise e achámos este livro engraçado.”
A obra teve uma carreira mediana em Portugal. Imprimiram-se 2500 exemplares e edição não esgotou, conta Madredeus, que não se arrepende da aposta. “Sobretudo tivemos opiniões positivas de vários leitores. A escolha recaiu sobre este autor se calhar porque era muito pouco chinês, porque escreve com um estilo muito ocidentalizado. Estávamos à procura de alguém que conciliasse informação histórica da China com um estilo de narrativa muito despojado e simples, sem muitos artifícios”, prossegue.
O editor da Cavalo de Ferro não sabe se continuará a apostar em Su Tong: “Ainda estou em dúvida se hei-de publicar mais dele ou não”. Como Su Tong, também autor de “Esposas e Concubinas”, que ainda não está traduzido para português, muitos outros escritores há que o leitor lusófono ainda não pode apreciar.
Nem o facto de a China ter sido o país convidado da Feira do Livro de Frankfurt – a maior da Europa – levou os autores chineses em força para o panorama editorial português. Mo Yan, que assina “Life and Death Are Wearing me Out”, ainda não se encontra na língua de Pessanha. E Yu Hua, autor do épico “Irmãos”, tem apenas um livro publicado no Brasil: “Viver”, adaptado ao cinema por Zhang Yimou. Conclusão: apostar em livros é mais arriscado que, vá lá, apostar em mobiliário chinês.
Japão irresistível
Tóquio pode gabar-se de já contar dois Nobel da Literatura e, mais ainda, de ter autênticas estrelas internacionais do livro, com Haruki Murakami à cabeça. Em Portugal, a febre pelo autor editado na Casa das Letras tem até direito a blogue (http://murakami-pt.blogspot.com). E não é o único. O Clube de Literatura Japonesa da Universidade do Minho é uma fonte profícua de informação sobre autores nipónicos e está disponível em http://bungakuuu.blogspot.com.
“Pretendemos criar um espaço de discussão, análise e crítica literária aberta a todos. As contribuições não necessitam de possuir um carácter muito académico… A única coisa que pretendemos é falar de livros de forma descontraída, com prazer e vontade de conhecer coisas novas”, escreve Sara F. Costa na página que apresenta o projecto Bungaku!, que fala de Junichiro Tanizaki e Kazuo Ishiguro, Banana Yoshimoto e Yasunari Kawabata, todos editados em Portugal.
Mas Murakami é Murakami e os três volumes do novo romance do autor de “Kafka à Beira Mar”, “1Q84”, devem chegar a Portugal com tradução da incondicional Maria João Lourenço, que vem vertendo a sua obra. Em entrevista ao jornal i, Murakami disse que “gostava de lhe chamar um romance completo ou um romance total, uma vez que contém quase tudo dentro dele”. “Por outras palavras, foi concebido como um microcosmo. Não tem aquilo a que se chama um tema. É apenas um romance, uma história e, se resultar bem junto dos leitores, significa que eles se irão ver perdidos na densa floresta engendrada pela própria história e por lá vão andar, por sua conta e risco. É isso que pretendo. Que vocês, leitores, andem por ali sozinhos e perdidos, mas que no fim acabem por ser salvos, de certa maneira.” Salvar: eis uma boa tarefa para a literatura.
“A Hora do Lobo”
Este livro de Jiang Rong, vencedor do Man Asian Literary Prize 2007, foi editado pela Casa das Letras em 2009 e a narrativa reza assim: é a década de 1960 e o intelectual pequinense Chen Zhen oferece-se para viver numa remota zona nómada na estepe da Mongólia Interior. Aí, descobre uma sinergia muito antiga entre os nómadas, o seu gado e os lobos selvagens que vagueiam pelas planícies. Chen fica a conhecer a rica relação espiritual que existe entre estes adversários e aquilo que podem aprender uns com os outros. Mas quando chega gente em grande número, vinda das cidades, para trazer a modernidade e a produtividade à estepe, a paz da existência solitária de Chen é destruída e o equilíbrio delicado entre humanos e lobos desfaz-se.
O autor: Jiang Rong nasceu em Jiangsu, em 1946. Em 1966 ingressou na Academia das Belas-Artes de Pequim, mas teve de interromper os seus estudos devido à Revolução Cultural. Aos 21 anos, ofereceu-se como voluntário para trabalhar na Mongólia Interior, onde viveu com os nómadas nativos durante 12 anos. Durante esse tempo, aprofundou os seus estudos sobre a história, a cultura e as tradições da Mongólia, desenvolvendo um fascínio particular pela mitologia ligada aos lobos das estepes.
“Mil Grous”
Obra do japonês e Nobel da Literatura Yasunari Kawabata, foi dada à estampa no ano passado pela Dom Quixote. A mesma editora prepara-se para lançar ainda este mês novo romance do autor: “A Beleza e a Tristeza”. Kawabata conta em “Mil Grous” uma história de desejo, arrependimento e da saudade quase sensual que liga os vivos aos mortos. Quando Kikuji é convidado para uma cerimónia do chá organizada por uma antiga amante do falecido pai, não está à espera de se ver envolvido com a rival e sucessora desta, a senhora Ota. Nem suspeita do sofrimento profundo que nascerá dessa relação. Mas, na cerimónia do chá, cada gesto tem um significado.
O autor: Yasunari Kawabata nasceu em 1899 em Osaka. Foi criado pelo avô materno e em 1920 ingressou no curso de Literatura da Universidade Imperial de Tóquio. Publicou o seu primeiro livro em 1925, “Jurokusai No Nikki” e, no ano seguinte, “O Bailarino de Izu”, novela de cariz autobiográfico que relatava o enamoramento entre dois jovens. Recorrendo a técnicas surrealistas que procuravam combinar a estética tradicional nipónica com a narrativa psicológica em tons de erotismo, publicou “O País da Neve”. Na década de 60 tornou-se activista político, defendendo candidaturas conservadoras e assinando, com Yukio Mishima, um manifesto de protesto contra a Revolução Cultural chinesa. Galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1968, Kawabata suicidou-se inalando gás a 16 de Abril de 1972.
“Confissões de uma Máscara”
Yukio Mishima voltou a ser editado este ano pela Assírio & Alvim, casa que no ano passado dera à estampa “O Templo Dourado”. Neste “Confissões de uma Máscara” passamos sobre a apoteose espectacular da mise-en-scène que é a vida de Mishima, da mesma forma que passamos sobre o abundante material fotográfico de si próprio, que nos legou, como parte de uma obra que aspirava a reunir espírito e carne, alma e corpo, nesse ‘esboço do nada’ que era para ele a morte, e que aparece evocado nos parágrafos finais da tetralogia “O Mar da Fertilidade”.
O autor: Yukio Mishima, novelista e dramaturgo, pseudónimo de Kimitake Hiraoka, nasceu em 1925 e suicidou-se espectacularmente, praticando o ritual japonês ‘seppuku’, a 25 de Novembro de 1970. É um dos escritores japoneses mais conhecidos no Ocidente. O idealismo que enforma a sua obra e conduzirá a sua vida está enraizado no tradicionalismo militar e espiritual dos samurais.
“Nocturnos”
Romance de Kazuo Ishiguro editado no ano passado pela Gradiva. Ishiguro explora o amor, a música e a passagem do tempo. Das praças italianas às colinas de Malvern, de um apartamento londrino à zona reservada de um luxuoso hotel de Hollywood. São páginas com uma singular galeria de personagens – de jovens sonhadores a músicos de café e a vedetas em declínio – num momento particular de reflexão e de reavaliação das suas vidas. As cinco histórias do livro são marcadas por um motivo recorrente: o esforço para preservar o sentido do romance na vida.
O autor: Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasaki mas foi viver para Inglaterra logo aos seis anos. Tem editados na Gradiva “Os Despojos do Dia” (1989, vencedor do Booker Prize), “Os Inconsoláveis” (1995, vencedor do Cheltenham Prize) e “Quando Éramos Órfãos” (2000, nomeado para o Booker). Em 1995 foi feito Oficial da Ordem do Império Britânico por serviços prestados à Literatura e em 1998 recebeu a condecoração de Chevalier de L’Ordre des Arts et des Lettres da República Francesa.
“Silêncio”
Obra de Shusaku Endo editada este ano pela Dom Quixote. A acção decorre no século XVII e conta-nos a história de um missionário português envolvido na aventura espiritual da conversão dos povos orientais. Antes de chegar ao Japão, a sua viagem leva-o a Goa, depois a Macau e, finalmente, a Nagasáqui e Edo, em etapas que pouco a pouco o transportam a um Oriente hostil, onde no entanto já se contam alguns milhares de convertidos à fé católica. Aí descobre, na luta contra as pessoas e o ambiente adversos, a verdadeira fé, liberta de todo o aparato externo, eclesiástico ou mundano. E aí acaba por experimentar a derradeira solidão, que é o destino daqueles que quebram a comunhão com o que mais profundamente marca a sua identidade.
O autor: Apontado como um dos mais refinados escritores do século XX, Shusaku Endo (1923- 1996) escreveu a partir da perspectiva invulgar de ser japonês e católico. Formou-se em Literatura Francesa, pela Universidade de Keio, e estudou durante algum tempo em Lyon como bolseiro do Governo japonês. O seu estilo de escrita tem sido sucessivamente comparado ao de Graham Greene, que aliás o considerava um dos maiores escritores do século XX. De entre as suas obras mais representativas destacam-se também “O Samurai” e “Rio Profundo”. Shusaku Endo foi galardoado com os mais importantes prémios literários do seu país.
“Cisnes Selvagens”
Em 2009, a Quetzal reeditou “Cisnes Selvagens -Três filhas da China”, de Jung Chang. É um romance controverso da era pós-Mao, num retrato comovente e doloroso da repressão no regime comunista chinês.
A autora: Jung Chang nasceu em 1952, em Yibin, na província de Sichuan. Os seus pais eram militantes e dirigentes do Partido Comunista. Aos 14 anos, tornou-se membro da Guarda Vermelha, em plena Revolução Cultural – foi por recusar atacar os seus professores e os seus pais que a tornaram opositora ao regime. Em “Cisnes Selvagens”, Jung trata o modo como Mao perseguia os seus opositores. Deixou a China em 1978, vive em Londres e escreveu (com o seu marido, o historiador Jon Halliday) a mais longa, exaustiva e polémica biografia do líder chinês.

Acabei de ler há poucos dias o romance “Não há palavras” de Zhang Jie, escritora chinesa.
Fiz uma busca intensiva pala NET à procura de outros títulos da autora, traduzidos para e editados em Português, mas não encontrei nenhuma informação.
Será que não existe mais nenhuma publicação de Zhang Jie em Portugal? Se há, agradeço do/s título/s e das editoras.
Com os melhores cumprimentos,
Natércia Fraga
Peço desculpa pelos lapsos da minha mensagem anterior.
Na linha 3, em vez de “pala” deveria estar “pEla”;
Na linha 7, a frase deveria ser: “(…) agradeço me informem (…)”
Natércia Fraga