A sede de viver
“Oasis” é um drama realizado em 2002 pelo sul-coreano Lee Chang-dong. Por certo, um filme que dificilmente se esquece. Antes de mais porque não existe nenhum objecto cinematográfico como este.
“Oasis” é feito de uma forma crua e tem um apelo de drama social. Mostra-nos uma história de amor que não é entendida por ninguém à excepção dos protagonistas. Lee embala-nos e o que mostra constrange qualquer um. Este romance imprevisível expõe os tabus sociais associados a pessoas com debilidades e o seu afastamento do “nosso” mundo. Um afastamento em grande parte forçado pelas pessoas chamadas “normais”.
“Oásis” não é um filme fácil de ver, é difícil de engolir e é uma das tristes realidade do mundo em que vivemos. Provoca e estimula a mais normal das mentes mesmo muito depois de o termos visto. Não é delineado para entreter mas antes para desafiar, numa dura crítica a todos os “normais” e consequente atitude que estes, por defeito de sociedade, têm para com os deficientes.
O conto de um caso de amor pouco convencional começa com a apresentação de um ex-presidiário de inteligência limitada que, uma vez fora da prisão, aparece em torno da família do homem que matou para dizer que está arrependido. Pelo meio do pedido de desculpas conhece e tenta violar a filha da família – uma mulher afectada por uma intensa paralisia cerebral.
Apesar deste início menos auspicioso, o romance floresce entre o par. Escusado será dizer que este caso de amor desperta a desaprovação e hostilidade de ambas as famílias e, finalmente, das autoridades.
Sabemos todos mas continuamos a fechar os olhos e a não querer saber como vivem estas pessoas. Que atenção recebem? E sabemos todos que muitas vezes viramos a cabeça por conforto egoísta. Sabe-se que, por exemplo, é recusada a entrada em bares, restaurantes e outros lugares dos “normais” a este tipo de pessoas para que não se estrague o conforto da clientela.
Apetece nestas situações e após ver este filme questionar quem são afinal os verdadeiros “retardados”?
(Faço aqui um parêntesis para confessar que, no meu caso, senti-me igual e horrível a todas as pessoas “normais” do filme e que a constatação foi tão chocante que só posso ambicionar, para descanso de consciência, fazer melhor no futuro. Admito que vi o filme com o coração nas mãos num total desconforto, questionando constantemente a minha atitude e o meu próprio humanismo. A discriminação e o isolamento destas pessoas é algo que merece uma urgente revisão pela sociedade comum.)
Mas “Oásis” não se reduz a esta afirmação que serve de pano social de fundo. Apresenta um dos toques de exclusividade do cinema sul-coreano actual. Trata-se de um filme de autor complexo que, na verdade, é uma história de amor comovente e genuína, provando que o amor entre duas pessoas acontece naturalmente e está em todos. Nesta contemporaneidade virada para o ego em que vivemos tendemos a esquecermo-nos desse facto.
Jong-du, interpretado por Seol Kyeong-gu na perfeição, e Gong-ju (princesa em coreano), num desempenho brilhante de Moon So-ri que lhe valeu um prémio em Veneza, são um par cativante. Moon So-ri interpreta tão eficazmente o papel de Gong-ju que julgamos estar na presença de uma pessoa com real paralisia cerebral. Em momento algum se torna abusiva ou excessiva. Por outro lado, Seol Kyung-gu faz o paralelo e consegue dar uma vida tremenda ao seu personagem e os dois juntos são excelentes. Muito do apelo do filme existe no assistir a como os dois actores interagem com papeis tão difíceis.
Jong-du é um desajustado inquieto, fungando, rindo de forma inadequada que fica automaticamente fascinado por Gong-ju. Tenta oferecer-lhe flores, descobre onde a vizinha esconde a chave do apartamento de Gong-ju e um dia visita-a quando sabe que ela está sozinha. Ao tentar tranquilizar e apaziguar a mulher aterrorizada, perde o controlo e tenta possuí-la, parando apenas quando esta desmaia. Acaba por deixar o seu número de telefone no quarto e, para seu espanto, um dia ela liga-lhe e convida-o a visitá-la novamente. Começa assim uma série de reuniões clandestinas e levemente irresponsáveis, características dos momentos de paixão comuns a todos. Eles falam das coisas favoritas, ele lava-lhe os cabelos, ajuda-a a ultrapassar o passado e os medos do escuro.
Ambos os protagonistas superam os seus limites – Jong-du as limitações do seu corpo e do desejo incontrolável, Gong-Ju as limitações de uma existência esquecida. Ela oferece-lhe um nicho no qual ele não está constantemente em conflito com as regras de outras pessoas que não entende. Ele dá-lhe uma entrada para o mundo exterior que ela nunca vê, porque ninguém fisicamente a leva – e uma entrada para o mundo interior do amor e da intimidade com outro ser humano.
Lee Chang-dong, que ganhou o prémio de realização em Veneza, evita estragar esta premissa com um sentimentalismo piegas. Como resultado, o filme é muito bem sucedido no modo como nos confronta com a nossa própria rigidez moral. “Oásis” é de uma coragem tal que questiona o papel das famílias destas pessoas seguras de saberem o que é melhor para elas. Questiona a fina linha de independência de uma pessoa com deficiência, se é que ela existe. Mostra como estas pessoas acabam também por ser exploradas pelas suas famílias. Vem a saber-se, no decorrer do filme, que Gong-ju se ofereceu para ir para a cadeia pelo irmão. Gong-ju vive miseravelmente, severamente escondida, enquanto o irmão vive bem, devido ao dinheiro e habitação que recebe de um fundo do Estado para tratar da irmã.
Na verdade constatamos que estas pessoas vivem em ameaça constante e que os membros da família se sentem envergonhados e ameaçados por elas. A insensibilidade é de tal modo cruel que é constantemente admitida ao longo do filme pelos outros personagens.
“Oásis” propõe um exercício de ressonância sobre os nossos pensamentos e acções, e sobre a nossa negligência em relação aos inconvenientemente “diferentes”. Como poderemos enfrentar estes preconceitos? Como olhar para um história de amor entre um homem levemente retardado e uma mulher gravemente deficiente? Existirá um lugar no mundo para estas duas pessoas inarticuladas?
A história de amor de “Oásis” é notável e perfeita. Um amor como a maior parte de nós não consegue. Em “Oásis”, o amor existe numa relação completamente altruísta entre duas pessoas que não só aceitam os defeitos do outro, como se apaixonam por causa deles.
José Drummond
