A metamorfose do adufe
É um projecto que nasceu com a Expo 98 e que agora, de cara lavada, chegou a disco. O percussionista José Salgueiro, que reinventou o adufe e criou o grupo Aduf, passou por Macau. E gostava de dar um concerto no território.
Hélder Beja
Ele não dispensa mas merece apresentações. José Salgueiro, percussionista, tocou com Zeca Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Rui Veloso, Gaiteiros de Lisboa. Partilhou palcos ou estúdios com Bernando Sasseti, Carlos Barreto, António Pinho Vargas. Integrou os saudosos Trovante. O currículo, ainda assim, não lhe pesa tanto como os adufes gigantes que (re)inventou por ocasião da Expo 98, quando lhe foi pedido que trabalhasse o instrumento que ainda vive em algumas regiões de Portugal.
Agora, alguns anos volvidos, Salgueiro decidiu voltar ao projecto e chamou a si o músico José Peixoto e a cantora espanhola María Berasarte. A semente deu disco e o Aduf – nome dado ao colectivo que está em www.myspace.com/adufmusica – gravou um álbum homónimo, também com edição às expensas de José Salgueiro. O percussionista, repetente em Macau, gostava de trazer a nova formação à RAEM numa altura em que, lá longe, a cultura aperta o cinto.
- O projecto Aduf nasceu há vários anos. Como é que chegamos aqui, a esta recuperação da ideia?
José Salgueiro – O Aduf nasceu a partir de um convite do João Brites por causa da Expo 98. Foi um desafio e como havia várias hipóteses, de espaços e de ‘budjets’, acabei por arriscar o nível mais alto e isso obrigou-me a ter de construir um espectáculo que só com adufes pequenos seria complicado. Então resolvi imaginá-los num tamanho que ocupasse o palco e surgiram estes quatro adufes gigantes, depois de um trabalho de pesquisa e de construção. Aqueles instrumentos são únicos, são uma metamorfose do adufe. O espectáculo foi montado com essas características juntamente com as adufeiras de Monsanto, como fonte inspiradora para o projecto. Fizemos alguns concertos em Portugal e por razões várias acabei por desistir. Estive uns sete ou oito anos sem pensar no adufe. Até agarrar nessa experiência acumulada e resolver ir buscar o José Peixoto para fazer esta nova versão.
- Uma versão que tem também influências diferentes.
J.S. – Sim. O Peixoto traz com ele um repertório riquíssimo de imaginário português nada comercial. Isso atrai-me muito porque acho que, na tentativa de comercializar a música, muitas vezes caem-se em estereótipos demasiado gastos e sem sentido. Arte não é vender e tentar agradar a toda a gente, a arte é o que o artista sente necessidade de fazer sem estar colado a correntes. Encontrámos a María Berasarte pelo caminho, quando fizemos um casting para encontrar uma voz que desse personalidade ao adufe.
- A María Berasarte é uma espanhola a cantar português, o que não é muito habitual. Como é gerir isso?
J.S. – Falamos em português, ela responde-nos em espanhol. Mas depois, quando canta, fá-lo em português. É curioso, mas se formos ver a maior parte dos cantores portugueses também canta em inglês, e é possível cantar em espanhol. O que não é muito normal é ouvirmos o contrário, e neste caso é engraçado porque ela até tem uma pronúncia muito interessante. Estudou profundamente e tentou aproximar-se ao máximo do português.
- Além da María, há também outras vozes no disco, incluindo a de Janita Salomé, que também está em Macau.
J.S. – Sim, o Janita entrou num tema, também porque o repertório que nós encontrámos visita muito o norte de África, escalas e melodias que fazem lembrar outras culturas. O Janita, sendo um alentejano, é ao mesmo tempo um árabe, tem essas características. Pareceu-nos a pessoa certa. Podia ter sim um Paulo Gonzo ou um artista desses de nome para ajudar a disparar o disco, mas não faria sentido.
- Em palco, mesmo sem convidados, vocês são uma pequena orquestra. É um projecto de fusão?
J.S. – Somos neste momento nove pessoas. Cinco percussionistas, um teclista, o Peixoto com a guitarra, um flautista gaiteiro e a María. Este é um projecto de fusão das nossas experiências. Eu, por exemplo, toquei com os Trovante e ao mesmo fazia escola de jazz, adorava música improvisada. E tocava com o Sérgio Godinho, o Zé Mário Branco, ainda gravei com o Zeca Afonso, tive o encontro com os Gaiteiros de Lisboa, que é música tradicional pura… Estas são as minhas influências. Depois vem o Peixoto com as suas: o alaúde, a guitarra clássica, a música clássica.
- A relação com o adufe surge quase por acaso e hoje é um apaixonado por um instrumento que reinventou. É isso?
J.S. – Sou sobretudo um apaixonado da cultura de onde o adufe provém, de toda aquela zona da Raia. A sabedoria ancestral é fascinante. Aquelas pessoas não precisam de ter Internet, vivem o dia-a-dia como sempre viveram, têm os seus rituais. É curioso captar isso para a memória futura: registar o que é o nosso passado enquanto povo português é muito importante para a identidade. Fizemos um espectáculo em Monsanto, a convite da rádio local, e convidámos as adufeiras para partilhar o palco. Esse espectáculo foi todo gravado em vídeo e espero que o DVD chegue ao mercado já no próximo ano.
- O Aduf tem concertos agendados?
J.S. – Portugal neste momento está numa situação difícil, económica e politicamente, e a cultura é a primeira a sofrer. Há menos apetência para coisas novas, menos risco da parte dos promotores. O Aduf ainda não é conhecido a esse nível e estou a fazer um esforço para agendar novos concertos. Já tenho em carteira três ou quatro ideias que espero conseguir concretizar, mas este é o ano de arranque.
- Pensam dar espectáculos no estrangeiro?
J.S. – Acredito que seja um produto com algum interesse internacional. Adorava vir a Macau com este projecto, até porque tenho uma grande ligação com Macau, gosto deste lugar desde a primeira vez que pisei o território, aí em 1987, quando vim cá com os Trovante pela primeira vez. Ainda Macau era o puro Macau do meu imaginário infantil. Agora transformou-se muito e neste momento tem também muitos mais públicos. Já há inclusivamente mais apetência do público chinês, que demonstra alguma curiosidade por outras culturas. Gostaria de trazer cá o Aduf e até quem sabe fazer uma parceria artística com percussionistas daqui.
- Há uma predisposição do público para este regresso às origens?
J.S. – Não sei, mas a predisposição vem sempre do facto de o público estar informado ou não. Em Portugal, se ligarmos a rádio, grande percentagem da música é feita para ser consumida imediatamente. Há muita música na rádio que passa e podia passar menos, para dar lugar a outras. Tem muito que ver com o poder dos média em influenciar o gosto das pessoas. Se derem às pessoas coisas diferentes, e não derem só uma vez, as pessoas acabam por ganhar também essa apetência e ficarem mais informadas.
- Tem o projecto Tim Tim por Tim Tum; o Lokomitiv, com Carlos Barreto e Mário Delgado; o El Fad, também com José Peixoto; e está ainda a trabalhar num projecto de música instrumental da sua autoria. Como é gerir tanta coisa?
J.S. – Se houvesse trabalho suficiente para fazer só Aduf, às tantas dedicava-me muito mais a fazer só isso. Em Portugal, para se viver da música, é preciso ter quatro olhos, cinco orelhas e dez braços. Por outro lado, acho que também não seria capaz de fazer só uma coisa. Sou um bocado irrequieto e gosto de estar em várias frentes. Mas hoje ganho em Portugal o mesmo ou se calhar até metade daquilo que ganhava há dez anos.
