A demência ao fundo do túnel
Alexandre O’Neill escreveu que “O amor é o amor – e depois?!/ Vamos ficar os dois/a imaginar, a imaginar?../ O meu peito contra o teu peito,/ cortando o mar, cortando o ar.” Mas o que é, afinal, o amor? Em “O Túnel”, de Ernesto Sabato (n.1911), é uma obsessão sem fim.
Esta novela curta, publicada em Portugal na colecção Crime Imperfeito, da Relógio D’Água, começa de um modo que se foi tornado clássico e que conhecemos de coisas como “O Assassinato de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford”. Trata-se de anunciar o final à partida, desfazendo qualquer mistério enredado logo no primeiro parágrafo, desprezando o desenlace. Sabato, argentino, é bem claro de intenções: não quer o leitor preocupado em descobrir o que vai acontecer mas em acompanhar como vai acontecer.
Narrado na primeira pessoa por Juan Pablo Castel, pintor e assassino, “O Túnel” é uma história de doença antes de ser uma história de amor. Castel adoenta-se por María Iribarne quando a vê contemplar um dos seus quadros. “Maternidade”, título da obra exposta naquela Buenos Aires dos anos 1940, já nos diz um pouco do que Sabato, também autor de “Heróis e Túmulos”, quer explorar – a solidão existencialista de alguém que, como um edifício, se constrói e destrói.
Juan Pablo é um homem que pinta uma janela e o mar mas que vive num túnel imerso na treva. Por momentos, parece vislumbrar a luz de uma mulher que tenta acompanhá-lo: “E num desses pedaços do muro de pedra tinha avistado esta rapariga e tinha, ingenuamente, acreditado que vinha por outro túnel paralelo ao meu”.
Mas não. María, descobre (ou acha que descobre) Juan Pablo, “pertencia ao largo do mundo, ao mundo sem limites dos que não vivem em túneis”. E é assim que a centelha de amor se transforma em ódio visceral e vamos, sem surpresa, acompanhando a loucura e o ciúme do assassino de María Iriburne ao longo de pouco mais de 130 páginas.
“O Túnel” é um romance psicológico, que se vale muito mais das análises interiores que da acção das personagens. Juan Pablo despreza a humanidade e é, também ele, um ser desprezível. Na verborreia sobre os males do mundo, Castel começa pelos críticos de arte – que dizem sempre o mesmo sobre as suas pinturas, que não as entendem – e acaba nas prostitutas de que se serve para amansar a vida.
Quando conhece María e a procura e a descobre infiel ao marido, o artista balanceia entre o amor e a psicose, entre qualquer coisa que reconhecemos nas paixões adolescentes – neste caso com um toque mais mórbido que fatalista. A insanidade acaba por vencer e, conformados com a demência que anuncia um precipício sempre vizinho das coisas bonitas, assistimos ao derradeiro golpe de Juan Pablo. Um golpe de amor doente e pessimista.
“O Túnel” não agarra leitores pelo colarinho, nada tem de fantástico ou daquele realismo mágico que estamos acostumados a encontrar em algumas prosas sul-americanas. Talvez pela sua formação científica, que passou pela Física, Ernesto Sabato, hoje com 99 anos e livros escritos há mais de meio século, é pragmático na escrita. As incertezas e rodeios ficam todos no campo das ideias, aqui extraídas da mente de Juan Pablo.
“Existiu uma pessoa que poderia entender-me. Mas foi precisamente essa pessoa que matei”, conta o narrador. E desvela-nos caminhos possíveis da natureza humana que às vezes nos parecem mais distantes e irreais do que verdadeiramente estão.
O Túnel
Ernesto Sabato, 1948
Hélder Beja
