“Estamos à procura do grande público”
A 4ª edição do Jumping Frames distribui-se este ano por Macau, Hong Kong e Cantão. O festival de vídeo-dança arranca na segunda semana de Novembro e anda à procura do espectador comum.
Maria Caetano
O Delta junta-se este ano para ver dançar no grande ecrã. A quarta edição do festival de vídeo-dança Jumping Frames arranca no próximo mês, com projecções simultâneas em Macau, Hong Kong e Cantão. O programa inclui trabalhos de todo mundo. Na secção local, Mike Ao Ieong e José Drummond foram os autores convidados a desenvolver peças onde o movimento da dança é explorado pela lente da câmara. A realizadora e coreógrafa Katrina McPherson virá ao território dar uma masterclass e, de Portugal, chega o director do Festival Frames, do Porto, com um programa recheado de vídeos portugueses e brasileiros que vão ser projectados em Hong Kong. As telas da foz do Rio das Pérolas cedem lugar à dança. E, em Macau, haverá sessões no Cineteatro, no Museu de Arte, na Casa Garden, nas instalações do iCentre, e até no lobby do edifício Macau Square. O Jumping Frames nasceu em 2001, em Hong Kong, e no ano passado teve a primeira mostra no território. Apresenta-se agora como projecto cultural que segue os passos da integração regional. Erik Kuong, comissário local, explica como a colaboração pode levar os vídeos da RAEM mais longe.
- Esta é já a quarta edição do festival, embora em Macau aconteça pela segunda vez apenas. O programa mostra que o Jumping Frames mudou de escala e cresceu. Como é que isto acontece?
Erik Kuong – No ano passado foi a primeira vez que Macau teve o que se pode chamar de uma mostra de vídeo-dança. Não era ainda um festival, porque tivemos apenas algumas projecções durante dois dias. Sentimos que correu muito bem trabalhar com Hong Kong, onde teve início o festival que entretanto se estendeu a Pequim, Cantão e, agora, a Macau. Conheço bem o comissário de Hong Kong e entendi que era uma óptima oportunidade para que os nossos públicos e artistas tivessem outra ideia sobre o trabalho de vídeo, que aqui colabora com as artes performativas. Foi isso que nos levou a trazer o festival a Macau no ano passado. Agora achámos que há um grande potencial para tornar este evento maior. Vivendo em Macau, apercebemo-nos que há poucas opções para ir ao cinema. E a escolha ainda é mais reduzida quando se trata de produções de vídeo. Sugeri também ao organizador do festival que incluísse Cantão, porque estamos muito próximos. Por isso, em vez de fazermos uma digressão do festival, criamos maior impacto se juntarmos forças e mostrarmos ao público um festival que acontece no Delta do Rio das Pérolas. Isto faz também com que seja mais fácil promover este programa junto dos mercados internacionais, que estão muito interessados no que acontece no Sul da China. O programa não está duplicado, e cada cidade tem diferentes destaques. Queremos que o público viaje, não é difícil movermo-nos entre estas cidades.
- Isso significa que se vai juntar os trabalhos dos realizadores destes três locais?
E.K. – A secção competitiva é internacional. Já a parte de trabalhos comissionados implicou colaborações entre Hong Kong e Cantão. Para a próxima edição queremos ter projectos de colaboração com realizadores e equipas de produção de toda a região do Delta. Não queremos fazer tudo sozinhos, queremos alargar aquilo que fazemos na área de vídeo-dança, porque também reparámos que nos três sítios se seguem tendências distintas. Em Cantão estão a trabalhar mais a via documental e em Hong Kong tem-se optado por contar histórias com recurso ao movimento da dança. Já em Macau explora-se o movimento numa perspectiva mais experimental. Este ano centramo-nos na competição. Já no próximo ano queremos prestar atenção na promoção em outras cidades chinesas e junto de festivais internacionais. É um trabalho que durará todo ano. Depois voltamos novamente à competição e aos trabalhos comissionados.
- Porque é que desta vez Pequim fica fora do programa?
E.K. – Pequim vai também vai entrar, só não o faz neste momento – fica bastante longe, a mais de três horas de distância. Mas, por exemplo, a realizadora Katrina McPherson, que vai dar uma masterclass aqui, também o faz em Pequim, embora não tenhamos posto isso no programa. Mas depois deste ano vamos levar o programa a cidades como Pequim e Xangai. O que aqui queremos fazer é que o Delta seja visto como uma coisa única.
- Há comissários dos três locais envolvidos na programação deste festival?
E.K. – Há dois comissários principais, de Macau e Hong Kong. Há ainda uma organizadora de Cantão, que está mais envolvida na realização de contactos.
- Há ao mesmo tempo um comissário convidado de fora.
E.K. – Tivemos a oportunidade de convidar o Alberto Magno. Quando estive em Portugal, conheci-o num festival que se realiza em Vila do Conde e ele disse-me que também organiza um festival de vídeo-dança [Festival Frame]. Mantivemo-nos em contacto e falámos sobre oportunidades de colaboração, em como trazer até aqui vídeos de Portugal e do Brasil e permitir que no festival português passassem vídeos da China, a que é difícil ter acesso nos mercados internacionais. É por isso que queremos juntar os nosso trabalhos e enviá-los para outros festivais de vídeo do mundo. Por outro lado, eles estão numa rede de projectos de vídeo-dança de que fazem parte também Brasil e Cuba, o que nos permite explorar mais. O Alberto vai estar em Hong Kong, Macau e Cantão. Queremos que saiba mais sobre nós e conheça o que se passa nesta região.
- Assim, os projectos desta região vão passar no festival português?
E.K.- O Jumping Frames é um festival desta região do Sul da China. Ligando-nos a Portugal, estamos também a ligarmo-nos ao Brasil e a Cuba. Estamos a abrir oportunidades para que os nossos trabalhos cheguem a outros lugares.
- Há dois autores locais cujos trabalhos foram apoiados por este festival. Fale-me dos trabalhos deles.
E.K. – Quando começámos a procurar, vi o trabalho de todos os que fazem vídeo em Macau e abordei-os no sentido de saber se estariam interessados em fazer algo em vídeo-dança. Acabámos por escolher dois. Tenho acompanhado desde há alguns anos o trabalho de Mike Ao Ieong, que participou nas primeiras três edições do Festival Internacional de Cinema e Vídeo do Centro Cultural, e descobri que tem grande potencial. O outro é José Drummond. Estamos à procura também de videastas que nos mostrem novas interpretações da vídeo-dança, que tem uma definição muito abrangente. Nos Estados Unidos, por exemplo, consideram os filmes de kung-fu como vídeo-dança porque os movimentos também são coreografados. É por isso que também mantemos as opções muito abertas para os realizadores. O trabalho dele é muito interessante, e também muito diferente dos projectos dos outros realizadores. Pedimos ao Instituto Cultural que apoiasse os trabalhos deles. Na verdade queremos que apoiem a vídeo-dança nesta altura em que estão a promover as indústrias criativas, porque estamos também a funcionar como fornecedores de conteúdos para vários websites. No Continente, há um bom mercado para curtas-metragens de vídeo para websites, telefones e outros suportes. Na Europa, as estações televisivas também compram muito estes conteúdos. Há um grande mercado para as curtas de vídeo.
- Onde pretendem vender estes conteúdos?
E.K. – Depois do festival vamos reunir mais trabalhos e produzir um DVD. Como teremos a digressão por diferentes cidades, será uma oportunidade para avaliar a procura por parte de produtores televisivos. Alguns websites já estão exibir projectos nossos, embora os direitos de autor que pagam não sejam muito elevados. Mas a longo prazo é importante garantir esses direitos para cada um dos realizadores.
- Abordaram a TDM?
E.K. – Na verdade, fizemos um ‘making of’, com entrevistas a realizadores. A ATV, de Hong Kong, é uma das televisões que vai exibir parcialmente este vídeo. Além disso, também vamos contactar a TDM. E não só, porque também abordámos as televisões satélite. Queremos chegar a um mercado maior do que o de Macau. Claro que se a TDM estiver disposta a pagar direitos de autor, também estamos interessados.
- Olhando para o programa, vemos que o festival passa em vários locais da cidade, incluindo Cineteatro, Casa Garden, iCenter e Museu de Artes. Porque é que escolheram estes lugares?
E.K. – Gostaríamos de fazer tudo num único cinema, mas não temos esses recursos em Macau. Seria demasiado caro. Em Hong Kong, há a Broadway Cinemateque que também está envolvida no festival e que consegue arranjar os direitos de exibição, e dá ainda ajuda técnica para pôr os vídeos nos formatos necessários. Assim, estamos a alugar o Cineteatro, onde exibimos trabalhos como “Dancing Dreams” e secção “European Aroma”. Queremos dar escolha ao grande público que pretende entrar no cinema normal e encontrar mais que filmes comerciais. Temos em Macau três cinemas que praticamente passam os mesmo filmes. Seria também bom que o Museu de Arte investisse mais no seu auditório, de forma a torná-lo um espaço de exibições regulares. O espaço tem muito potencial, porque tem estacionamento e a atmosfera adequada. Se investissem em material de projecção, seria o sítio perfeito para sessões alternativas de cinema. A Fundação Oriente também tem na Casa Garden boas instalações que, no entanto, poucos conhecem. O iCenter, onde teremos workshops, tem na verdade os melhores equipamentos, com um projector HD e reprodutores de blue-ray. Mas é pequeno e mais adequado a pequenas mostras, como a de Katrina McPherson que incluímos no nosso programa.
- No ano passado, o festival teve que tipo de público?
E.K. – A maioria era composta por pessoas que gostam de vídeo e de dança. Mas este ano estamos à procura do grande público que quer apenas ver um filme. Os trabalhos que exibimos no Cineteatro são bastante acessíveis, nada de demasiado artístico. É uma forma de atrair as pessoas que, se estiverem interessadas, podem também assistir às sessões do Museu de Arte.
- O que é que destaca da programação do Jumping Frames?
E.K. – No programa local temos uma colaboração com Katrina McPherson, que irá dar as nossas ‘masterclasses’, e que trabalha com o coreógrafo tibetano Sang Jijia. Têm um projecto novo para apresentar. Na secção Local Focus temos também os trabalhos de realizadores de Hong Kong, alguns mais novos e outros mais experientes. De Macau, temos o Mike e o José, com estilos muito diferentes. Temos ainda o “Dancing Dreams”, onde jovens adolescentes ensaiam uma peça de Pina Bausch, que será projectado na sessão de abertura, no dia 19, no cinema. Mas há uma oferta para pessoas com diferentes interesses: se apreciam animação, por exemplo, também será exibida em Cantão e em Hong Kong. Há ainda uma série muito boa de realizadores britânicos. Além das sessões, vamos ter uma instalação de um grupo de Nova Iorque [Tiny Dance Film Series], que vai estar na entrada do edifício Macau Square. Este grupo faz vídeos de dois minutos, sem qualquer edição, e um dos artistas vai dar um workshop com alunos de Macau, produzindo com eles um novo filme. Já a masterclass com a Katrina McPherson é dirigida a realizadores e videastas mais experientes. A instalação do Macau Square é também uma forma de aproximar a vídeo-dança do quotidiano das pessoas. Vai começar a 9 de Novembro, também como um modo de promover o festival.
José Drummond apresenta “The Performer”
José Drummond é um dos convidados locais a apresentar trabalhos na 4ª edição do Jumping Frames, a par com Mike Ao Ieong. O videasta mostra uma nova peça intitulada “The Performer”, onde continua a perseguir os temas do “sonho, visibilidade e invisibilidade”, e da “relação que cada um tem com a sua própria imagem, o modo como se vê e como imagina que os outros o vêem”.
O vídeo de 4,25 minutos, revela, surge como resposta formal ao trabalho “The Pretender”, que recentemente apresentou na associação Art For All, integrado na mostra individual “Fairy Tales”. Trata-se de “uma continuação em espelho” do que sucedia com a imagem da bailarina, onde a câmara descrevia o movimento rotativo ao redor da figura feminina. “
“O vídeo é composto por um lento movimento rotativo, quase imperceptível, de um ‘performer’ num eixo sobre si próprio. Tento jogar com o conceito das caixas de música e da presença de uma bailarina que roda sobre si própria”, explica acerca do trabalho onde a imagem surge articulada com uma peça sonora. “O som foi retirado originalmente de uma caixa de música e trabalhado de modo a dar a ilusão de estar partida”, conta.
A imagem da bailarina “joga ainda com uma série de reflexões, num conceito adaptado de um estilo fotográfico em voga no início do século XX denominado ‘multigraph’”, adianta, sobre a reprodução onde coexistiam quatro reflexões do objecto fotografado central. “Servi-me de fotografias da época tendo então efectuado um estudo sobre a colocação de dois espelhos apenas num determinado ângulo para criar esta ilusão óptica”, diz.
O novo trabalho do videasta surge na continuidade do conceito que já vinha a trabalhar, e a exploração da nova linguagem acabou por consistir numa progressão “natural”. Drummond reconhece que não se trata, no entanto, de uma “peça clássica de vídeo-dança”.
“The Performer”, afirma, “procura sugerir a dança com recurso a outros elementos que não exclusivamente a capacidade do dançarino ou determinada coreografia”, e “aquilo que sobressai são os movimentos lentos, quase imperceptíveis criados com o apoio de uma plataforma giratória”.
“As linguagens da performance e da dança sempre me interessaram. E o vídeo, no final de contas, tem uma linguagem comum com estas duas outras formas. Vídeo é movimento mesmo quando ele se descobre num lento ensejo e os meus vídeos são de algum modo caracterizados por essa busca”, define, lembrando que os seus trabalhos sempre tiveram também um lado performativo – que o artista, aliás, pretende explorar ao vivo numa performance que irá ocorrer em Dezembro próximo.
Vídeo-dança em rede
Alberto Magno, coreógrafo brasileiro e fundador da associação cultural Fábrica de Movimentos no Porto, é também o director do festival internacional português de vídeo-dança Frame, lançado em 2001 como mostra de trabalhos e projecto de investigação na área do movimento associado às câmaras de filmar.
Magno é também comissário convidado a apresentar um programa de vídeos portugueses e brasileiros, “Dança Sem Fronteiras”, que vai ser apresentado na Broadway Cinemateque de Hong Kong no dia 13 do próximo mês. Pelas telas da RAEHK vai desfilar uma série de curtas-metragens onde se incluem trabalhos do videasta português Sérgio Cruz – homenageado com uma mini-retrospectiva – ou ainda peças de nomes emergentes da cena brasileira de vídeo-dança que são trazidas até esta parte do mundo com o apoio do brasileiro Centro Cultural Itaú, em São Paulo.
Alberto Magno dirige já uma rede de colaborações importantes, onde se inclui o intercâmbio com festivais homólogos da América latina, e explica que a perspectiva da associação e do festival que dirige é a de alargar contactos. “É uma estratégia de divulgação do trabalho dos artistas portugueses. É também uma forma de conhecer o que é feito noutros países”, revela.
O Frame português tem levado os autores dos vídeos portugueses a lugares como Cuba, Rússia, Argentina e Brasil. Por outro lado, recebe também peças dos locais que visita. E o mesmo deverá suceder com os vídeos que são exibidos no próximo mês no festival de vídeo-dança do Delta, embora não ainda este ano.
“É perspectiva que provavelmente este ano não se realizará, mas que ficará marcada para o próximo ano. É claro que nos interessa apresentar os trabalhos de portugueses fora, mas também nos interessa receber propostas de outros festivais”, explica o comissário convidado. “Espero que no ano que vem seja possível apresentar uma selecção de artistas de Macau, de Hong Kong e de Cantão”, avança.
Alberto Magno reconhece curiosidade entre os autores da Europa, onde “a vídeo-dança está numa situação estabilizada”, sobre o que se faz noutras partes do mundo. “Há uma possibilidade muito lata em termos de produção, interessa ver o que é feito pelos artistas de outras partes do mundo, bem como saber que perspectiva é utilizada para trabalhar a dança na óptica do vídeo.”
Sobre aquilo que já conhece da produção local, o comissário diz encontrar “uma perspectiva diferenciada”. “Estão muito ligados às artes plásticas, parecem mais performances, ou então são muito formais porque se interessam apenas em mostrar a dança, o movimento, e não interpretar a dualidade vídeo/dança”, entende.
Já em Portugal, admite que se vive neste momento uma fase de “muito experimentalismo”, onde a aposta é feita na exploração dos media e das novas possibilidades tecnológicas.
