E se isto desse uma história de amor?
A segunda edição do “Macau Stories”, promovido pela Associação Áudio-Visual CUT, lança a seis realizadores locais o desafio de contarem o território a partir do romance. Albert Chu quer filmes “que preservem a identidade” deste lugar.
Hélder Beja
Era uma vez em Macau um trabalhador do Continente que estava apaixonado por uma empregada de limpeza filipina. Ou era uma vez uma mulher chinesa de meia idade que vivia sozinha, ainda era virgem e descobre finalmente o amor. Estas não são sinopses dos filmes de Tou Kin Hong e Fernando Eloy mas, muito resumidamente, o ponto de partida dos realizadores está lá: Macau e histórias de amor.
A Associação Audiovisual CUT apresentou ontem o segundo tomo do projecto “Macau Stories”, para o qual, além de Tou e Eloy, foram convidados os cineastas Mike Ao Ieong, Jordan Cheng, Elisabela Larrea e Harriet Wong. “Vi filmes de vários realizadores de Macau e acho que estes seis têm potencial para fazer cinema. Foi por isso que os escolhemos, para lhes dar mais uma oportunidade de fazerem um filme profissional e ao mesmo tempo promoverem o talento que têm”, explica o presidente da CUT, Albert Chu.
Os jovens criativos vão andar às voltas com o território e as histórias de amor que nele quiserem contar em curtas-metragens de 15 a 17 minutos. Chu diz que “as histórias de amor são bastantes universais e é fácil para os realizadores inserirem-lhe o seu cunho pessoal”. Depois, o também realizador quis que as narrativas tivessem um tema comum. “Precisamos de histórias que preservem a identidade de Macau e das suas pessoas”, acrescenta. Os filmes começam a ser rodados já em Novembro e devem ficar prontos no primeiro semestre de 2011.
Filmar o romance
Elisabela Larrea sabe que Macau “não é apenas uma mistura de diferentes culturas, é também uma mistura de diferentes sentimentos”. A realizadora macaense, que até agora trabalhou principalmente em documentários, quer “aproveitar esta oportunidade” de fazer ficção. A sua curta vai chamar-se “The Shock”, história de um rapaz solitário que conhece uma moça alienígena e, já se vê, fica em choque.
A ideia de Jordan Cheng, com guião original, parece mais poética. É a de uma rapariga que encontra o livro “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Marquez, numa biblioteca do território e que, a partir dele, parte numa viagem aos amores da adolescência. “É uma grande oportunidade poder contar esta história e mostrar o que sinto por esta cidade”, comenta Cheng, encantado com a possibilidade de participar numa produção mais profissional. “Antes fiz várias curtas-metragens e, ao contrário de outros destes realizadores, nunca experimentei documentários. No começo não sabíamos o que fazer, éramos todos amadores. Agora vamos ter vários consultores de diferentes regiões que nos ajudarão a resolver todos os problemas técnicos que encontrarmos. Acho que desta vez poderei focar-me mais em como contar a história.”
Fernando Eloy tem mais ou menos clara a ideia da história que quer contar. E apesar de esta ser a “primeira oportunidade de fazer uma ficção” para o cineasta que acaba de apresentar o documentário “O Restaurante”, Eloy não desce a fasquia: “Todos juntos temos a responsabilidade de elevar ainda mais o nível do ‘Macau Stories’”.
A narrativa, que parte de um guião escrito a meias, merece o título “All About June” e fala de uma mulher que já não é uma rapariga e a quem, finalmente, “o amor bate à porta”. Sobre o que poderá sair deste novo desafio, Eloy prefere ser comedido. “Isto tudo para mim é uma novidade. Quando me vi a fazer documentário não estava à espera, agora também não estava à espera. Não faço ideia do que vai acontecer”, admite.
Nem todos os realizadores compareceram à chamada da CUT para falar dos filmes que esperam fazer. Sabe-se no entanto, pelo que a associação adiantou, que Mike Ao Ieong filmará em “Sa Fa” uma história de amor que cruza Macau, Taiwan e as ruas do território. Já Harriot Wong chamou “Hot Summer, Hot Love” ao seu projecto e promete uma história de amor entre dois miúdos, um filme sobre a solidão. O que não se sabe, ainda, é que apoio dará o Governo a todas estas produções da associação audiovisual.
Subsídios precisam-se
Albert Chu revela que a CUT já pediu apoio ao Governo para financiar o segundo “Macau Stories” mas ainda não recebeu resposta. “Julgo que será positiva, mas ainda nada está decidido”, conta.
Também Fernando Eloy espera que o financiamento do Executivo “seja o suficiente para que se possa pagar às pessoas convenientemente”. “Pensa-se que com 100 mil patacas ou 50 mil se pode fazer um filme, mas isso quer dizer que houve uma pessoa que fez tudo. As pessoas custam dinheiro”, lembra. O cineasta acredita que um dia Macau terá uma indústria de cinema, até porque existe por aqui “tudo o que é preciso”. Mas avisa que “numa primeira fase é necessário que haja apoio aos cineastas e apoio à produção”.
“Temos histórias, temos dinheiro, temos pessoas com vontade de fazer. Basta que as peças sejam colocadas no lugar.” O puzzle, aponta, deve começar com a criação “de um instituto de filmes de Macau, seja lá esse o nome ou outro”. O organismo apresenta-se como o passo a dar para que se possam “desenvolver este tipo de projectos, para permitir que cineastas possam viver do cinema”. Fernando Eloy considera que para fazer bons filmes é preciso “muita prática e é necessário que exista um instituto para começar a regular o sector, para que o dinheiro comece a fluir”.
Albert Chu concorda e frisa que “fazer filmes envolve grandes orçamentos, mesmo quando são independentes”. “Se queremos ser mais profissionais, é preciso dinheiro. Acho que o primeiro passo é conseguir mais subsídios. No futuro, se a nossa indústria conseguir florescer, talvez consigamos sobreviver por nossa conta.”
O director da CUT acredita que qualquer filme de Macau pode ser exportado e estar em filmes internacionais de cinema. “Esse é um dos passos que faz falta. Podemos até ter um vencedor em Cannes, ganhar um Leão de Ouro”, exagera. E Eloy dá outra perspectiva da questão, defendendo que o cinema é a única indústria cultural que “tem capacidade para fazer frente, no bom sentido, à indústria do jogo e promover emprego”.
Casting a 7 Novembro
A CUT organiza no próximo mês um casting para actores interessados em participar nos filmes deste segundo “Macau Stories”. Das 10h às 20h30 de 7 de Novembro, a biblioteca da Caritas, na Rua Pedro Coutinho, recebe os candidatos. A associação pretende “encorajar os residentes de Macau a envolverem-se nestes projectos locais”.
