A rapariga e o cão dela
Mel Cheong é a próxima artista convidada do Centro de Indústrias Criativas. Mostra a partir de amanhã um “Último Retrato”, a óleo e em gravura, de um sapo, que era um cão, que era afinal uma rapariga.
Maria Caetano
Mel Cheong tem 25 anos e diz que anda à procura de um lugar para si própria, entre telas e moldes de cobre. Há dois anos que tem um dia-a-dia que a alegra sobretudo a partir das 18h, quando deixa o gabinete de arquitectura em que trabalha como secretária, no centro da cidade, e desce as ruas em direcção ao rio para entrar no estúdio do Museu de Arte de Macau e pôr mãos às obras – pinturas a óleo e gravuras.
A convite do Centro de Indústrias Criativas, a jovem expõe um “Último Retrato” a partir de sexta-feira, numa mostra que vai até ao dia 16 de Novembro.
São nove telas de pintura a óleo e um conjunto de dez gravuras. Nas primeiras, há auto-retratos e pequenas fantasias sobre o quotidiano. “Não Sei Como Ser um Palhaço”, “Quando o Lado Esquerdo do Rosto à Direita se Apaixona pelo Lado Direito do Rosto à Esquerda”, “Gripe” ou “Praticando Sozinho” mostram duas personagens – uma rapariga e o seu sapo. As duas figuras também saltam para a série gravada a água forte.
O sapo, por vezes coroado, não é nenhum príncipe encantado. Mel Cheong mostra-nos muito simplesmente o seu cão, e fala-nos sobre as regras da natureza e dos seus ciclos. “Quis mostrar o período antes de o meu cão morrer. Cuidei dele e observei muito nesse período como era o meu quotidiano com ele. Mas não desenhei na verdade um cão, desenhei antes um sapo. Acho que têm algumas parecenças”, diz. “É o ‘último retrato’ em que me apercebo da sua existência.”
E, junto às memórias de um cão, que nunca são de desprezar, há também o discurso introspectivo e individualista da autora: “Quando ele morreu, senti algo diferente. Talvez fosse apenas o tempo a passar, mas quando ele morreu dei por mim a olhar para trás e a pensar no período em que ele estava comigo”.
A reflexão trouxe outras coisas comezinhas, nunca igualmente de desprezar. Mel Cheong diz que está a renascer para um ideia de “consideração”: pelos detalhes, pelas atmosferas, e até pelo ambiente. “Tenho muito cuidado com todos os detalhes e com as sensações sobre aquilo que me rodeia. Por exemplo, gosto muito de ir ao estúdio [do Museu de Arte] porque lá são bastante organizados e sinto que estou no meu lugar: sei onde pôr as coisas”, conta.
Pelo caminho, aprecia que as galerias que visita fiquem longe do centro da cidade, onde trabalha. “É como viajar numa máquina do tempo. Percorro a rua principal, vejo árvores e o mar, é uma atmosfera que relaxa quando venho para o estúdio trabalhar.”
A jovem artista fala de si, fala-nos de sensações, e explica que do design gráfico e da fotografia de que se ocupou primeiro após os tempos da faculdade, não ficou muito, porque escolheu algo em que pudesse tocar. “Tenho-me desafiado em diferentes media. Estudei Comunicação, onde recorri muito às artes digitais. Acabei por achar que era algo demasiado frio e, por isso, virei-me para formas de artes mais manuais e artesanais. Escolhi a gravura e a pintura a óleo”, revela.
Foi então que se inscreveu nos cursos do estúdio A2 do Museu de Arte. “Primeiro fiz gravura, e depois pintura a óleo. Também aprendi outras técnicas, que acabei por não praticar mais tarde”, relata.
“Passei das artes digitais para algo mais artesanal. Com a fotografia, pensava a princípio que podia ver as coisas através da câmara. Sentia-me bem com isso, mas agora acho que o mundo está mais pequeno. E já não ando com a minha máquina fotográfica o tempo todo. Prefiro ver o mundo com os meus próprios olhos”, afirma. “Sinto que estou a tocar em alguma coisa, mas não estou lá muito certa disso.”
