“Não guardo nenhum rancor”
Nem ao autor da queixa, nem ao pessoal do Comissariado contra a Corrupção. Manuel Silvério foi ontem considerado inocente do crime de abuso de poder que lhe tinha sido imputado. É o fim de uma longa saga.
Isabel Castro
O antigo presidente do Instituto do Desporto (ID), Manuel Silvério, foi ontem absolvido do crime de abuso de poder de que ia acusado, num julgamento que teve início em meados de Setembro passado. O caso dizia respeito, porém, a actos praticados pelo ex-dirigente há sensivelmente oito anos, aquando da contratação de uma massagista para o Centro de Medicina Desportiva – um comportamento que o Comissariado contra a Corrupção (CCAC) e o Ministério Público consideravam ilegal.
Diferente entendimento teve o colectivo do Tribunal Judicial de Base (TJB) presidido por Ho Wai Neng. Ontem, ao princípio da tarde, na leitura da sentença, o magistrado considerou Manuel Silvério inocente. Não há indicações de que o Ministério Público pretenda recorrer do acórdão.
A tradução para português foi de tal forma incompreensível que é de todo impossível explicar qual a fundamentação da sentença. A única frase verdadeiramente perceptível foi a conclusão da intérprete: “Percebeu? Absolvido.” Assim sendo, resta-nos ir por exclusão de partes: o ex-presidente do ID respondia por abuso de poder por ter, segundo a acusação, forçado a contratação da massagista e usufruído do recrutamento, benefícios que se teriam estendido a terceiros. Tendo sido absolvido, conclui-se que nada terá sido dado por provado.
À saída da sala de audiências, Manuel Silvério teceu comentários sobre o resultado do processo, que foi “muito longo, a caminho dos oito anos”, sublinhou. “Naturalmente, nós sempre estivemos confiantes nesta decisão do colectivo do TJB. Veio confirmar o que sempre disse – que acredito na justiça de Macau.”
O antigo homem forte do desporto de Macau acrescentou ainda que desta história não leva ressentimentos. “Não guardo nenhum rancor, inclusivamente à pessoa que apresentou a queixa, porque são pontos de vista diferentes.” A ausência de ressentimento aplica-se também “às autoridades que investigaram este processo”.
Silvério reiterou o que disse durante o julgamento acerca das razões que levaram o ID, do qual era então o responsável máximo, a contratar uma massagista que não detinha habilitações profissionais comprovadas para o cargo. “Sempre disse que tenho a consciência tranquila. Acima de tudo, limitei-me a auscultar as necessidades de uma subunidade dependente do ID, que na altura presidia.” Recordando que várias pessoas passaram pela sala do tribunal para atestar as competências técnicas da massagista, salientou que esta “curou muitos atletas, muitas pessoas de Macau”.
Embora assegure que não guarda “rancor” ao Comissariado contra a Corrupção – “Aceito e respeito as opções que foram feitas pelo CCAC”, disse -, Manuel Silvério não deixou de lamentar a forma como foi conduzido o caso. “Havia pontos que me podiam ter sido perguntados durante a investigação – podia ter sido evitado o prolongamento desnecessário do processo. Mas respeito todos os trabalhadores do CCAC, como outras pessoas que tinham pontos de vista diferentes em relação a esta investigação”, rematou.
