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Nobel da Paz “encoraja o crime”

October 15, 2010

A China voltou ontem a criticar a atribuição do prémio Nobel da Paz ao dissidente Liu Xiaobo, defendendo que é uma forma de “encorajar o crime”. Também a imprensa estatal voltou esta quinta-feira à carga contra a Noruega, ao frisar que a distinção de Liu faz parte de uma “guerra ideológica” do Ocidente contra Pequim.

Os comentários foram feitos numa altura em que o país sofre novas pressões, com a Noruega a criticar a retaliação chinesa (Pequim desmarcou várias reuniões com políticos de Oslo) e o primeiro-ministro japonês a defender que o laureado deve ser libertado da prisão onde se encontra a cumprir o segundo de 11 anos de encarceramento.

“Liu Xiaobo é um criminoso condenado. Atribuir-lhe o prémio Nobel equivale a incitar ao crime”, declarou à imprensa o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) chinês.

Liu Xiaobo tornou-se na sexta-feira da semana passada no primeiro cidadão chinês a receber o Nobel da Paz. O antigo professor e figura das manifestações de Tiananmen, de 54 anos, foi condenado em finais de 2009 por ter sido um dos autores da “Carta 08”, um texto que reclamava uma China democrática.

Os Estados Unidos e a União Europeia já pediram à China que liberte Liu. Ontem, foi a vez do primeiro-ministro japonês, Naoto Kan, lançar um apelo semelhante, correndo o risco de agudizar as complicadas relações diplomáticas com Pequim, num momento em que se tenta ultrapassar a tensão sentida nos últimos meses.

“Na perspectiva de que os direitos humanos universais devem ser protegidos numa lógica transfronteiriça, é desejável” que Liu seja libertado, disse Kan ao Parlamento nipónico.

A China cortou os contactos com Tóquio no mês passado depois de as autoridades japonesas terem detido o capitão de um pesqueiro chinês que colidiu com dois navios nipónicos, em águas que ambos os países reclamam como suas no Mar da China Oriental. No entanto, têm sido feitos esforços para que as duas nações, fortes aliadas comerciais, resolvam os diferendos que as opõem.

Naoto Kan promete estar atento “se ele [Liu Xiaobo] vai ser capaz de estar presente na cerimónia de entrega do prémio Nobel ou se a sua mulher e família participarão”.

A mulher do laureado, Liu Xia, está em prisão domiciliária em Pequim desde que o Comité do Nobel anunciou a decisão. Washington e Bruxelas apelaram à China que deixe Liu Xia regressar à liberdade.

Além do cancelamento de reuniões ministeriais com a Noruega, o Governo Central expressou a sua fúria em relação ao país onde está sedeado o Comité do Nobel cancelando um concerto com músicos noruegueses. Na passada quarta-feira, Oslo criticou a postura de Pequim e disse que a Noruega espera poder manter boas relações com a China.

“Se esta decisão surge na sequência do prémio Nobel da Paz, considerarmos tratar-se de uma reacção inapropriada”, afirmou o porta-voz do MNE norueguês.

 

Teoria da conspiração

 

Ontem, o jornal em língua inglesa Global Times voltou a pronunciar-se sobre Liu Xiaobao, dizendo que a escolha do Nobel da Paz faz parte de “uma guerra ideológica” contra a China. “Esperam mesmo que um dia a China se desmorone aos pés da cruzada ideológica do Ocidente”, lia-se no editorial do jornal oficial, que tem sobretudo como destinatários os leitores estrangeiros.

As agências internacionais de notícias apontam que a imprensa em língua chinesa, toda ela controlada pelas autoridades, tem pura e simplesmente omitido notícias sobre Liu Xiaobo.

Entretanto, desde que o Nobel da Paz foi divulgado, dissidentes e advogados activistas têm estado sob vigilância apertada. Esta semana, um grupo de 23 antigos altos funcionários do Partido Comunista Chinês (PCC) subscreveu uma carta aberta em que se pede o fim da repressão à liberdade de expressão e a censura é condenada com veemência. O documento foi divulgado na Internet – e rapidamente retirado pelas autoridades – a apenas dois dias do encontro anual do PCC, cujo início está agendado para hoje.

Quanto a Liu Xia, o seu telefone foi cortado pela polícia. A mulher do dissidente consegue comunicar com o exterior através do Twiter, rede social bloqueada pela censura na China, mas à qual é possível aceder através de servidores proxy.

 

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