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O que é que o cigarro tem?

September 30, 2010

O glamour do cinema e dos ícones da História, o ser um “prazer privado”, a nicotina. Carlos Marreiros, “fumador confesso”, desenhou sobre o tema e as obras seguem da Macau Creations para Pequim: serão apresentadas na Art For All no próximo ano.

Hélder Beja

A exposição “Some Smoking Stories”, patente na galeria da loja Macau Creations, é apenas a ponta do cigarro que compõe uma série muito maior da autoria de Carlos Marreiros. A mostra completa, que no próximo ano será apresentada nas instalações da Art For All (AFA) em Pequim, conta já mais de 50 desenhos do arquitecto local, a que se juntarão ainda duas instalações.

“Desta vez mostro 12 desenhos, é uma espécie de ‘preview’”, diz o artista sobre o que há para ver na recentemente inaugurada loja junto às Ruínas de São Paulo. “Em Pequim, a exposição vai chamar-se ‘Tobacco War’. O título ‘Some Smoking Stories’ serve esta pequena mostra mas o conjunto que fiz (e ainda vou fazer mais algumas coisas) tem essa outra designação”, acrescenta.

Os trabalhos agora apresentados estarão na galeria até 31 de Novembro e desvelam um pouco dos novos traços do autor – além de inspirarem uma vasta linha de produtos já ontem visíveis na Macau Creations. Depois da série “A Cidade e o Poeta” – que é como quem diz Macau e Camilo Pessanha – e de ilustrar as palavras de escritores como Fernão Mendes Pinto, Umberto Eco e Eugénio de Andrade, Marreiros decidiu desenhar sobre o tabaco no arranque deste ano. “Macau estava a discutir a lei do fumo e foi o pretexto de começar a pensar um bocado nisto, de fazer uma paródia sobre fumar”, aponta.

“Estes desenhos que estão na Macau Creations não mostram tudo. Quando desenhei já se falava dos últimos acertos para o Mundial da África do Sul e tenho muitos sobre futebol. Há o fumo em primeiro lugar, há muito amor, lirismo, pequenas histórias, e muitas armaduras medievais”, resquícios da viagem que o arquitecto fez a Espanha. “E o que era apenas uma historieta, uma graça, passou até a ser um ‘hobbie’ de investigar na Internet sobre o tabaco, desde os primórdios.”

Os desenhos – acompanhados de muito texto e várias referências culturais e históricas (a Che Guevara, a Camões…) – são quase todos feitos sobre papel velho de contabilidade já escriturado, o que lhes dá um toque retro. “Utilizo fundamentalmente o lápis de cor e a aguarela, que são também materiais ‘demodé’. Deu-me gozo, nesta fase muito digital. Não perdi esse prazer, gosto de sentir a tinta, os lápis de cor, essa sensação material”, explica o autor. Até porque, neste caso, “o resultado final não se defende”. “Desenho à pena, directamente. Se ficou mal não dá para apagar. Estes desenhos não têm rascunho, é directo no papel. Deu, deu. Não deu, vai para o caixote do lixo. Gosto deste registo repentino, quase automático”, prossegue.

Além dos desenhos, uma instalação está já esboçada na cabeça de Marreiros. “Fumo Winston e há anos que tenho guardado caixas desse tabaco. Penso construir o templo à sabedoria [wisdom] com estas caixas, será o ‘Temple of the Wisdom’”, brica. A ideia passa por “uma construção grande, onde as pessoas não entram mas dá para pôr meio corpo dentro, um templo escuro, onde entre a luz natural simulada”. Finalmente, o artista quer ainda fazer um vídeo e com ele completar a instalação.

O “partido” do cigarro

Carlos Marreiros vai dizendo que os desenhos são “paródias, alegrias, citações sobre o prazer tão único e tão simples de fumar – cigarro, cachimbo, charuto”. É um “fumador confesso” e chateiam-no as proibições. “Agora, a legislação [que está a ser discutida] diz que nem se deixa ter uma sala ou uma cabine para as pessoas fumarem. Acho que isso é cruel. Que pura e simplesmente proíbam o tabaco, acho mal”, defende.

Aqui não há, no entanto, endeusamentos do fumo ou inconsciência. “Sei que o fumo faz mal, assim como muitas outras coisas fazem mal. Se esta exposição servir para que as pessoas, de uma forma descontraída, artística e bem disposta reflictam sobre estas questões, ainda bem, fico feliz. Não sou apologista do fumo, nunca disse que o fumo não fazia mal. O que sempre disse é que o fumo faz mal mas muitas outras coisas fazem muito pior, e parece que às vezes as pessoas elegeram o ponto mais fraco para bater.”

O director do Albergue da Santa Casa da Misericórdia exemplifica: “Porque é que temos de alinhar em certas falsidades? Que o fumo do tabaco mata? Mata, mas não mata tanto quanto o dióxido de enxofre que sai dos tubos de escape e que, à mistura com a partículas de água que estão no ar, vulgo humidade, dá a fórmula dos cábulas: o H2SO4, que é ácido sulfúrico”. Para Carlos Marreiros, há uma “contradição muito grande” no modo de olhar a questão. “As pessoas que não fumam merecem todo o respeito de todos nós, assim como os fumadores também merecem respeito, porque adquiriram um vício que não era tido com errado, ou ilegal”, defende.

É por, a seu ver, os fumadores serem hoje “massacrados por tudo e por nada” que deixa um palpite: “Ainda não chegou o momento em que os fumadores do mundo se revoltem. Se um grupo de fumadores resolver fazer um site do género ‘fumadores de todo o mundo, uni-vos’, estou convencido de que passaríamos a ser o maior partido do mundo, porque somos os escravos do novo milénio, perfeitamente tratados abaixo de cão, como criminosos”.

De cigarro em cigarro, sem apologias, Marreiros remata a sua posição sobre o tema dizendo que “há dez anos sentia que se quisesse deixava de fumar”. “Neste momento não quero, é um prazer.” Cada vez mais proibido.

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