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Memórias da Nova China

September 30, 2010

Mio Pang Fei, Mary Ho e Cheang Wei Fong assistiram à fundação da República Popular da China. Atravessaram os 61 anos de revolução, reforma e abertura. Os momentos mais difíceis não foram esquecidos.

Kelvin Costa

A vida não é sobre quantos anos temos, mas sobre como envelhecemos, como testemunhamos as grandes mudanças. À custa de muito suor, a China iniciou há 61 anos um longo caminho rumo à modernização. Fomos ver que memórias guardam Mio Pang Fei, Cheang Wei Fong e Mary Ho – todos eles adolescentes aquando da fundação da República Popular da China – e que passos deram em nome da prosperidade.

De regresso aos tempos de estudante, na secundária Hou Kong, Cheang Wei Fong, hoje com 74 anos, diz-nos qual foi o seu primeiro dilema na vida. “A minha escola gostava de recomendar bons alunos para o Continente. Felizmente, fui um deles. Mas a minha mãe fez os possíveis para me impedir de ir. Aos olhos dela, o comunismo destruía a união familiar, uma vez que a lealdade ao partido estava acima de qualquer coisa. Ela temia que, se eu fosse embora, deixasse de ser filha dela”, conta.

Apesar dos laços familiares estarem em risco de serem quebrados, Cheang Wei Fong continuou determinada em partir de Macau por entender que era uma honra aprender e servir o país. “Apenas as elites podiam estar na lista e eram oferecidas bolsas. O nosso país precisava de nós para se desenvolver. Eu, uma rapariga com 14 anos, sabia nos meus genes que nós, os adolescentes, tínhamos de apoiar o nosso país”. Cheang, e muitos dos seus colegas de escola, acreditavam neste prospecto promissor e na teoria patriótica.

O pintor Mio Pang Fei, apaixonado pelo impressionismo, não consente qualquer compromisso na sua arte. Conduzido pela sede do conhecimento, o artista desafiou um grande tabu à época. “Era estranho que o nosso professor apenas nos ensinasse pintura realista e nunca mencionasse nada sobre o impressionismo que, entre 1874 e 1950, somou quase cem anos de história. Como é que este período podia ser vazio?”, questiona.

Em segredo, Mio Pang Fei aprendeu o que lhe faltava nas bibliotecas. No trabalho final de curso, o impressionismo também lá estava – mas acabou por ser criticado pelo professor. “Apenas a pintura realista era capaz de se adequar a qualquer tema. Podíamos pintar um Mao Zedong rosado, saudando a revolução. O impressionismo, pelo contrário, apenas podia expressar o que vem à nossa mente, a impressão do instante, o que durante muito tempo foi tido como uma derivada burguesa”, destaca.

Mary Ho, nascida em 1946 numa família abastadamente burguesa, não hesita quando diz que não se preocupa muito com o dinheiro, ainda que a avó tenha entregue a maior parte da riqueza e a propriedade da família, durante a reforma agrária de 1952. “Ainda tenho uma ama particular e uma empregada doméstica, e ainda recebemos as rendas todos os meses. A minha avó era uma proprietária com uma mente aberta e cedeu a fábrica sem qualquer tipo de queixa”, contextualiza. Se alguém se atrevesse a reclamar, vinca Mary Ho, seria enviado para a prisão.

Aos 15 anos Cheang testemunhou um suicídio. O choque permanece até hoje: “Foi a reforma agrária que a enlouqueceu. A mulher parecia tão ansiosa e desesperada, sabia quais eram as consequências”. Cheang lembra-se de a ver a andar de um lado para o outro num corredor, com “uma carta de jogo chinesa na mão, o que para nós é uma metáfora para conduzir alguém ao paraíso depois da morte”.

Naquela noite, Cheang aprendeu uma lição que os livros nunca lhe ensinaram. “Os proprietários eram também muito frágeis. O estatuto social deles mudou drasticamente. Eles também tinham medo, medo de trabalhar. Preferiam morrer a trabalhar”, observa. Se a reforma agrária foi ou não o caminho mais justo para atingir o grau zero da exploração dos trabalhadores é uma questão que ainda causa “dúvidas” a Cheang.

Ovos russos e caça aos pardais

Mary Ho gosta de aprender e de cantar canções russas, mas o entretenimento musical vai desvanecendo, ao ritmo das mudanças subtis nas relações diplomáticas entre os dois países. “Em 1953 estávamos muito próximos da União Soviética e precisávamos do apoio deles. Todos usávamos o lenço vermelho e aprendíamos russo”, destaca. Ho reconhece que os comunistas não teriam ganho a guerra civil sem o apoio militar da ex-URSS mas lembra que não há almoços grátis. “Sempre pensei que a União Soviética era desinteressada e solícita, mas estava enganada. Eles queriam transformar-nos num dos estados deles. Mas a força do nacionalismo chinês é bem maior”, congratula-se.

A necessidade de provar alguma coisa só piora e, quando se está por conta própria, é importante pensar duas vezes antes de se avançar, comenta Cheang. Para exibir o poder nacional, retoma Mary Ho, foram organizadas uma série de “actividades radicais” – entre “as mais ridículas” destaca-se o programa de produção de ferro e aço. “Muitas famílias tinham de tirar o portão da casa, que ainda estava a ser usado, para satisfazer o líder – como a minha mãe, que até retirou o caixilho da janela para mostrar apoio. Cada família estava a fazer a mesma coisa, mas foi uma perda de tempo e energia, transformar o útil em inútil”, ilustra.

Mary Ho fala numa “crença cega de que se apenas produzíssemos as mesmas toneladas de aço que o Japão poderíamos criar o mesmo tipo de armamento de ponta” e recorda-se dos professores e alunos do secundário que deixavam as aulas de parte para se dedicaram às fornalhas. “Qualquer um que apanhasse um resquício de ferro apressava-se a fazer um relatório sobre como estava a contribuir para a mãe-pátria”.

Há mais uma “história absurda” que Mary Ho quer partilhar. “Em 1958, participei num movimento contra quatro pestes, o que foi muito divertido na altura, que era uma criança, mas hoje não faz assim muito sentido”, avisa. O que foi? “As autoridades mobilizaram todos os cidadãos para matarem pardais, ratos, moscas e mosquitos. Cada um ficava no telhado do edifício com uma frigideira na mão. De facto, eliminámos uma série de pardais, mas tivemos uma peste de insectos na estação de colheitas seguinte”.

Uma crise de fome alastrou-se pelo país depois do Grande Salto em Frente. “Na nossa aldeia, alguns líderes, mais astutos, tiraram partido dos agricultores com pouca educação, fizeram com que assinassem documentos falsos”, denuncia Cheang Wei Fong. Mais: “Faziam relatórios forjados em que falavam de colheitas abundantes, para mostrar a sua capacidade ao supervisor e, assim, ganhar créditos. Os líderes só aprenderam o caminho para dar graxa a quem estava acima deles”.

Por forma a criar-se uma imagem próspera do Grande Salto, foi pedido aos artistas que fizessem uma série de quadros sobre os campos. “O líder enviava-nos para o local e o nosso dever era retratar aquela paisagem agrícola. Víamos as ceifas a crescer de forma espantosa e os agricultores a trabalharem no duro. Até acreditei naquela cena”, recorda Mio Pang Fei. Mas a desilusão chegou quando se apercebeu que não havia nada nos celeiros.

Cheang Wei Fong não esquece: “Muitas pessoas não conseguiam sobreviver e pediram abrigo a outros países”. “Como não tínhamos fundos para pagar [a dívida financeira] pagámos com o que tínhamos. Por exemplo, com ovos. Mas a União Soviética só aceitava ovos que fossem do mesmo tamanho que os deles – tínhamos uma rede para filtrar os mais pequenos, que caíam ao chão. Um desperdício. E nós a morrer de fome”, afiança.

Olhar em frente

Mary Ho teve a sorte de ter familiares no estrangeiro que traziam óleo e comida mas também consegue explicar-nos o que é uma “refeição de classe”. “Comíamos casca de arroz, que é muito dura de engolir e mastigar. De seguida, era-nos servida uma pasta de vegetais, feita de algas e urina. Cuspi-a uma série de vezes”, revela. “Mas como o líder dizia, na antiga sociedade, os trabalhadores apenas podiam comer algo deste género. E nós aprendemos a hipnotizarmo-nos e a habituarmo-nos àquilo”, expõe. O Grande Salto em Frente acabou em catástrofe e estima-se que mais de 20 milhões de pessoas tenham morrido de fome.

A tempestade da Revolução Cultural apanhou de rajada o pai de Mary Ho, que foi enviado aos 57 anos para um campo de trabalho no meio rural. “Foi classificado como anti-revolucionário desde o primeiro dia da Campanha Antidireitista. Cada sector tinha de enviar, com regularidade, uma lista de nomes às autoridades, o que não faz qualquer sentido”, indigna-se. Ho destaca que o pai não tinha nada que ver com o movimento. Era apenas um professor, diz. “Parece sempre fácil encontrar um pretexto quando se quer condenar alguém”, lamenta.

Naqueles tempos, continua Mary Ho, ou se denunciava ou se era denunciado – tudo para mostrar lealdade. O pai, ferido na sua reputação pelo rótulo de direitista, fez várias tentativas de suicídio. “Mais tarde, apercebeu-se que não podia morrer assim, porque as pessoas iriam pensar que ele era culpado até à morte. Virar-se-iam para a família, para ver se havia mais anti-revolucionários”, adianta. “Quantos intelectuais foram condenados à morte? Um número infinito. Ao fim e ao cabo, a Revolução Cultural não foi diferente do massacre de Nanjing”, atira.

Mas o passado está no passado e, depois da tempestade, vem a bonança. “A nossa qualidade de vida aumentou de forma gradual desde a abertura e da reforma e estamos agora no melhor tempo – outro pico está para chegar”, antecipa Mary Ho. “Os intelectuais já são mais respeitados em termos políticos. A China caminhou um longo caminho, mas tem ainda um longo caminho pela frente”, conclui.

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