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Mau exemplo em Coloane

September 29, 2010

Os arquitectos José Maneiras e Vizeu Pinheiro estão contra a habitação económica de Coloane. O Governo cometeu um erro ao construir na ilha e as casas públicas não devem ser “gaiolas”, defendem.

Catarina Brites Soares

cbs.pontofinal@gmail.com

O empreendimento de habitação económica de Seac Pai Van é contestado por alguns arquitectos de Macau. A zona escolhida e a altura das duas torres –  de 15 e 23 pisos – são dois problemas, explicam ao PONTO FINAL José Maneiras e Francisco Vizeu Pinheiro. Coloane poderá ser mais uma vítima do ‘boom’ da construção, ou um espaço de “segregação” social, alertam.

“Isto é o princípio do fim”, teme o arquitecto José Maneiras. “O Governo podia resolver o problema pensando numa solução melhor ou noutro sítio, uma resolução daquelas não seria para aquela zona”, acrescenta o arquitecto que considera que o projecto vem ameaçar as características naturais de Coloane. “Os espaços verdes e desportivos na habitação pública são paliativos, porque a população clama por isto e vai-se fazendo. É tudo às pinguinhas, não há um plano geral. Isto não resolve o problema.”

A construção de um edifício em altura em Coloane é um “mal que pode desequilibrar tudo”, continua José Maneiras, explicando que não é só uma questão de tamanho. “Não concordo que aquele terreno seja aproveitado assim, porque a área tinha regras próprias para defesa do ambiente.” Para o arquitecto, o “Governo deu um mau exemplo ao penetrar naquela zona”.

Maneiras diz que, “em princípio”, não concorda com a concentração em altura da densidade populacional. “São autênticas colmeias humanas”, realça. Na análise do arquitecto, o Executivo está a resolver o problema em quantidade – “o que interessa é anunciar tantos milhares de casas” – e isso tem os seus custos, avisa. Ao mesmo tempo que se procura resolver o problema da necessidade de habitação, continua, tem de se encontrar medidas para travar a especulação.

O arquitecto lembra que há bairros e edifícios vazios que só servem “para especulação”. “É preciso encontrar a harmonia. Se o Governo fala de união na sociedade tem de começar a pensar mais nisto”, vinca, acrescentando que deve haver visão comum nas medidas adoptadas pelos diferentes organismos da Administração.

Cidade fantasma

Já Francisco Vizeu Pinheiro considera que o empreendimento que será erguido na zona de Coloane é “enorme”. “Não devia chegar aos 30 metros”, defende. “Onde é que está a ligação visual com a paisagem?”, questiona.

A habitação pública, realça, é feita de “gaiolas”. “Mais que habitação social, é uma espécie de segregação social, pela construção, concentração e altura.”

O arquitecto sublinha a urgência de elaborar estudos que apresentem números, por exemplo, das casas que existem e quantas são necessárias, das pessoas que têm habitação, dos edifícios vazios e de quantas pessoas vivem em Zhuhai – “tendo em conta que há habitantes que compram casas em Macau, mas depois vivem na China”.

“Há áreas que são um género de zonas fantasma, mas já se estão a construir outras [casas]”, salienta. Quanto às 19 mil fracções de habitação pública prometidas pelo Executivo, Vizeu Pinheiro levanta a questão: “É esta uma exigência real da evolução da população de Macau ou da especulação?”

Na análise do arquitecto, existem “vários mecanismos” de regulação do mercado que “não estão a ser implementados”. A aplicação de um limite à subida das rendas é uma das medidas perfilhadas por Vizeu Pinheiro. “Está a favorecer-se a especulação imobiliária, um pouco a reboque de Hong Kong como temos sempre a tendência de fazer.”

Francisco Vizeu Pinheiro defende igualmente a diversificação de modelos de apoio à população. “Geralmente sai mais barato ao Governo subsidiar uma habitação do que estar a atribuir casas que têm muito pouco valor”, defende, explicando que esta hipótese permitiria que existissem menos casas vazias.

No entanto, se a opção tender para a atribuição de habitação pública, deve ser tido em conta o tamanho do agregado familiar. “Se for uma família grande tem de ter uma casa maior, e não jaulas para pessoas com menos recursos económicos, é tão simples como isto.”

A cidade, vinca, é um organismo vivo. E, por isso, “têm de se encontrar situações de renovação”.  O planeamento é uma “decisão política” que deve ter uma base científica. “Falta essa parte em Macau”, considera o arquitecto.

“Não vejo ninguém a viver na rua. Está assim tão mau? Penso que estudar a situação que vai influenciar os próximos 30 ou 40 anos é mais importante que estar a fazer esta espécie de ‘fast-food’.”

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