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Achados na tradução

September 29, 2010

O investigador Dominique Wolton falou ontem em Macau sobre a importância política da tradução. É ela, disse, que faz a ponte das diferenças culturais e que nos aproxima da comunicação.

Maria Caetano

mariacaetano.pontofinal@gmail.com

“A comunicação é o horizonte. Temos de reconhecer que não nos compreendemos.” Dominique Wolton, sociólogo com mais de duas dezenas de obras publicadas sobre o fenómeno, foi ontem ao auditório da Universidade de São José apresentar as preocupações expressas no livro “Informer n’est pas Communiquer”, lançado no ano passado pelo Centro Nacional de Investigação Científica francês, cuja tradução conheceu agora o mercado chinês através da Universidade de Comunicação de Pequim.

A destrinça entre a proliferação de meios disponíveis para passar mensagens e a efectiva capacidade de comunicar têm sido a tecla batida de forma persistente nas teorias deste investigador, que a Macau veio falar sobre o valor político do trabalho da tradução num cenário de cada vez maior mundialização técnica.

“A tradução é a prova da dificuldade da coabitação cultural” e, ao mesmo tempo, “uma das condições mais importantes para que haja compreensão”, salientou perante uma auditório particularmente sensível ao tema, já que a conferência contou com interpretação simultânea de francês para inglês, a pedido do orador. E porque Macau tem, por contingência de ser lugar de duas línguas oficiais, muito que ver com a arte de verter idiomas.

Para Wolton, é nos pequenos lugares que acontecem as coisas mais importantes. Na região administrativa especial chinesa disse encontrar exemplos mais que perfeitos de uma “visibilidade de diferenças” e da capacidade de diferentes culturas conviverem no mesmo espaço, sem se sobreporem.

“Há sítios onde algumas pessoas conseguem coabitar, mas fazem-no sentindo-se diferentes. O que aqui vemos é uma fotografia do que é sempre o problema da coabitação no mundo. É importante manter estes lugares, e espero que a China tenha a inteligência de não desfazer estas realidades nos anos que aí vêm. Seria uma grande falhanço”, disse ao PONTO FINAL, defendendo que é nestes enclaves que se encontra o princípio da comunicação ideal, que defende como condição para perseguir o objectivo político da paz.

“É preciso ver como em diferentes lugares do mundo os povos conseguem coabitar ao mesmo tempo que mantêm as suas diferenças”, considerou o teórico da comunicação para quem cada língua encerra um universo cultural diferente, e para quem também as placas bilingues que se encontram no território dizem muito, ao enunciarem coisas diferentes.

“O que é que importa verdadeiramente? Talvez o significado seja diferente, mas o importante é que as inscrições possam ser lidas em português e em chinês. É este o início da comunicação”, entende.

Chegar ao outro

Rejeitando que o inglês possa ser tomado hoje, tecnicamente, como a língua franca para comunicar – “são apenas 500 palavras que nos fazem crer que nos entendemos uns aos outros” –, Dominique Wolton recordou que “quando não é importante falamos inglês, quando é usamos tradução” – vista, simultaneamente, como “factor legitimador das culturas e um trabalho da inteligência”.

A tradução leva tempo, como qualquer processo efectivo de comunicação, que para o investigador é antes de mais uma actividade relacional, que exige “tolerância e curiosidade intelectual pelo outro”. “Toda a gente fala em simultâneo, e ninguém tem nada a dizer ao outro”, postula sobre uma era onde a velocidade da transmissão das mensagens parece ultrapassar a capacidade de os povos se entenderem.

“O que sobressai são as diferenças culturais”, sublinhou Wolton, que deu como exemplos o espaço europeu: “600 milhões de pessoas, 50 anos de cooperação, 27 países e 26 línguas – todos se odeiam”. O investigador deu como exemplo a iniciativa francesa de expulsar do país a comunidade cigana.

Para Dominique Wolton, a solução para uma maior intercompreensão reside em investir no ensino das línguas e na tradução. “Os tradutores são exactamente os homens e mulheres que têm a função de ultrapassar as diferenças culturais”, considerou.

“Estamos obrigados a traduzir, e traduzir é trair. Mas somos forçados a fazê-lo. De contrário, iremos limitar-nos a falar com apenas 200 ou 300 palavras comuns – que actualmente são inglesas – e isso não seria bom”, disse. A tradução, pelo contrário, permite “manter as identidades culturais, o que significa manter a diversidade linguística e cultural”, ainda que se admita um fundo comum entre os povos.

“Há uma humanidade, mas não é possível compreendê-la sem saber qual o papel da diversidade cultural. É um problema que vem da bíblica Torre de Babel e que se verifica desde o início dos tempos. Há algo de universal, mas somos obrigados a aproximar-nos desta universalidade através de diferentes línguas e culturas”, declarou.

Novo velho império

A China, que planeia traduzir mais três livros de Wolton, tem vindo a evoluir no cenário mundial como potência emergente e o investigador não fica indiferente à escalada da influência do país, que tendo uma das línguas mais faladas do mundo não está ainda assim entre aqueles que levam os seus idiomas a uma geografia mais vasta.

“A China está a tornar-se um império. Será imperialista? É demasiado cedo para saber. É um novo velho império”, declarou, advogando que o país  “quererá alguma reparação, tal como muitos grandes países de África e da América Latina”, ao ganhar prestígio mundial.

“Em primeiro lugar, querem ser poderosos; em segundo lugar, reconhecidos; e terceiro, ainda não sabemos… É demasiado cedo. Se for a cultura a levar a dianteira, teremos paz. Se forem a economia e o consumo a liderar, poderá tornar-se muito nacionalista e procurar uma forma de imperialismo. É uma grande questão para o futuro”, defendeu.

Para Dominique Wolton, “há dois mundos, o da economia e o da cultura, sem qualquer ligação directa”. “São fortes as ligações mundiais ao nível da técnica e da economia, mas o mesmo não acontece no mundo da cultura – estamos a afundar-nos. Não sei como conseguiremos aproximar-nos tanto na economia, como na cultura, mas é uma questão de guerra ou paz”, vinca.

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