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Os pais morreram de sida

August 31, 2010

Alturas houve em que o assunto era totalmente ignorado pela imprensa do país. Não que agora seja tema recorrente ou que os jornalistas possam investigar a questão a seu bel-prazer. Mas a verdade é que os órgãos de comunicação social ao serviço do Governo Central começam a adoptar uma outra forma de tratamento das notícias – pelo menos, daquelas que são disponibilizadas em língua inglesa.

O título diz muito: “Órfãos da sida lutam para viver num condado devastado pela pobreza”. A agência oficial de notícias Xinhua dá assim início a uma reportagem em que descreve o quotidiano de miúdos sem pais, apontando falhas ao sistema.

Zhihuo, uma adolescente de 14 anos da minoria étnica Yi, acorda às seis da manhã e começa o seu dia a alimentar o único porco que tem em casa. Anda no 5º ano da escola e vive com a avó de 76 anos, responsável pela sua educação.

A jovem perdeu os pais poucos meses depois de ter nascido, em Zhaojue, um condado “devastado pela pobreza” no município autónomo Yi de Liangshan, na província de Sichuan. Na turma de Zhihuo há mais 41 miúdos órfãos – acredita-se que um ou ambos os pais morreram vítimas de sida.

Muitos jovens desta sala de aulas foram criados pelos avós – os mais sortudos puderam contar também com os tios, realça Mouse Wusha, que começou a dar aulas a estas crianças mal acabou o curso, em Agosto de 2006.

A turma, criada pelo centro de desenvolvimento infantil e das mulheres da Escola Central Sikai de Zhaojue em 2006, recebe donativos da China Red Ribbon Foundation – uma organização não-governamental chinesa que se dedica à prevenção e controlo da sida -, em Setembro do ano passado.

Os números da doença

Segundo a Xinhua, é em Liangshan que se encontra a maior comunidade Yi. E é também nesta zona do país que a sida atinge maiores proporções. A agência oficial indica que, desde a descoberta do primeiro doente com VIH entre toxicodependentes na província de Yunnan, em 1995, foram contabilizados em Liangshan 18.003 casos. Isto significa que, no final de 2009, o condado tinha cerca de 60 por cento dos casos da província de Sichuan. Só no ano passado, foram registados 5530 novos casos, diz o vice-presidente do governo municipal, Yang Zhaobo.

“Muitas pessoas em Liangshan que contraíram sida são toxicodependentes que consumem drogas intravenosas. Devido às fracas condições dos serviços médicos, não fazem testes ou procuram medicamentação, pelo que acabam por morrer devido a complicações várias originadas pela doença”, refere Ye Dawei, vice-secretário da China Red Ribbon Foundation.

A doença sem cura gerou um grande número de órfãos em Liangshan – mas não existem dados oficiais sobre a questão.

Ye Dawei explica que a fundação já visitou algumas famílias de órfãos em Zhaojue. “Têm uma vida muito difícil. Em casa de uma família extremamente pobre, reparei que os recipientes usados para guardar arroz e farinha estavam vazios. Comem carne uma vez por mês.”

A má nutrição é uma ameaça às condições físicas dos estudantes, que são significativamente mais baixos do que outras crianças da mesma idade. “Os órfãos da sida que não conseguimos auxiliar estão em piores condições de saúde”, reforça o responsável da fundação.

A organização não-governamental dá a cada estudante da turma 150 yuan por mês – a alimentação e o uniforme deixaram de ser obstáculos ao acesso ao ensino. Mas o subsídio não chega para alimentar a família toda ou para permitir que os alunos tenham actividades extra-curriculares.

“Recordo-me de uma noite, no ano passado, em que Zhihuo e a avó ficaram sem comida. A rapariga foi para o campo às dez da noite à procura de batatas. Levou-as para casa e cozinhou-as para a avó”, conta o professor.

A maioria dos colegas de Zhihuo faz trabalhos domésticos e ajuda nas tarefas agrícolas para que a família consiga sobreviver. “Não temos tempo para brincar”, diz Muniu, de 12 anos.

Considerando que as autoridades governamentais têm um orçamento apertado, a ajuda é muito limitada, contextualiza o vice-secretário da China Red Ribbon Foundation.

Cicatrizes escondidas

Qualquer conversa que diga respeito aos pais é tabu para as crianças, mesmo entre elas, explica o professor. Gostam muito de estar juntas por terem histórias de vida semelhantes, mas não as partilham. “Além disso, também não falam comigo sobre o assunto”, acrescenta Mouse Wusha.

Alguns miúdos ficam em silêncio quando confrontados com uma pergunta do género “quando é que começaste a viver com os teus avós”, sendo que outros simplesmente respondem “não me lembro”.

A luta contra a pobreza não é o único desafio destas crianças: têm também de lidar com a discriminação, embora tenham feitos testes que revelam não serem portadores de VIH.

Zhang Lin, que trabalha na fundação, conta que os miúdos foram injustamente tratados durante um campo de Verão que frequentaram em Pequim e Xangai em meados do mês passado. “As agências de viagens responsáveis pela nossa deslocação insistiram em fazer novos testes às crianças o que, na nossa perspectiva, é inaceitável”, afirma Zhang, que esteve com os adolescentes no Palácio de Verão, na Universidade Tsinghua, na Muralha da China e na Expo de Xangai.

“A exigência indica que há discriminação e falta de compreensão em relação às crianças que perderam pais com sida”, continua Zhang Lin. “Deve haver uma maior divulgação sobre a sida, de modo a evitar que crianças inocentes continuem a ser estigmatizadas.”

Os miúdos, sem o apoio dos pais, são também vulneráveis a insultos na escola. “Acontece por vezes os estudantes de outras turmas gozarem com o facto deles não terem pais. Quando isso acontece, ficam muito tristes”, relata o professor Wusha. “Repreendo os estudantes malcomportados, mas já é demasiado tarde: o mal está feito”, lamenta.

Futuros sombrios

A fundação de Ye Dawei tem como objectivo ajudar mais crianças a estudar e protegê-las da delinquência juvenil, drogas e outros problemas sociais. A China implementou nove anos de escolaridade obrigatória, o que faz com que todas as crianças a partir dos seis anos tenham acesso sem encargos ao ensino primário e às escolas secundárias intermédias. Porém, muitos órfãos da sida de famílias empobrecidas de Zhaojue continuam a ficar em casa ou encontraram emprego fora da terra natal.

Wusha preocupa-se com a possibilidade de perder alunos ainda antes destes completarem a escola primária. Muitos dos seus pupilos são mais velhos do que é suposto e têm pressa para começarem a trabalhar. “Por exemplo, um rapaz de 18 anos da minha turma desistiu antes de terminar o terceiro ano e deixou Zhaojue.”

O professor mostra-se apreensivo quanto ao futuro dos rapazes. “Depois de os encarregados de educação morrerem, as raparigas ainda têm hipótese de um bom casamento e de terem uma família normal. Mas e os rapazes? O que vai ser deles? Têm força suficiente para constituir família?”, lança o docente.

Mas nem tudo é mau neste cenário traçado pela Xinhua. Wusha conta que foi com grande felicidade que se apercebeu das mudanças nos seus estudantes depois do regresso do campo de Verão. “Foi a primeira vez que estiveram na cidade. A experiência deu-lhes alegria e inspiração.” Os alunos, explica, ficaram particularmente entusiasmados com a Universidade Tsinghua, uma das mais prestigiadas da China.

“Gostava muito de entrar numa boa universidade para poder ganhar dinheiro depois de terminar o curso. Assim, podia recompensar os meus tios pela bondade com que me acolheram”, diz Niuri, 14 anos.

Zhihuo já sabe o que vai fazer: tentar trabalhar fora de casa, porque não quer deixar o seu futuro nas mãos de “um bom casamento”.

Um quadro complexo

O número de novas infecções por HIV tem vindo a cair no Continente chinês, mas a prevalência da epidemia em algumas regiões e províncias é considerada grave. As mortes associadas à doença da sida também continuam a aumentar.

No ano passado, a população chinesa portadora de HIV foi estimada em 740 mil casos, com base em projecções de um grupo de trabalho nacional monitorizado pelo UNAIDS, o programa conjunto das Nações Unidas sobre o VIH e sida.

Os dados resultam de exercícios de estimativa num país onde todos os cálculos demográficos são difíceis e onde a atitude em relação à doença só muito recentemente começa a alterar-se. Actualmente, algumas organizações não governamentais queixam-se ainda de verem as suas actividades constrangidas pelas autoridades do Continente e continua a haver falta de informação sobre as formas de transmissão do vírus – a primeira campanha nacional relativa ao uso do preservativo ocorreu em 2007.

Para a pesquisa mais recente, divulgada em Julho último, a UNAIDS defende terem sido usados métodos mais fiáveis na projecção, que incluíram pesquisas de ‘sentinela’ em zonas consideradas de maior risco e a formação do pessoal do país que se encontra ao nível dos centros de controlo e prevenção locais.

O resultado foi uma taxa de prevalência de VIH que abarca 0,057 por cento da população e a conclusão de que a taxa de crescimento das novas infecções está a desacelerar, quebrando de nove por cento, em 2005, para 5,8 por cento, em 2009.

Os números totais das estimativas, porém, indicam ainda um aumento da população que vive com o VIH e com sida, bem como do número de mortes associadas à doença. De acordo com os dados publicados pelo UNAIDS China, a actuar sob a supervisão do Ministério da Saúde do país, das 740 mil pessoas infectadas com o HIV, 105 mil vivem com sida – 30,5 por cento são mulheres.

O sumário do relatório do programa da ONU aponta também para um número estimado de 48 mil novas infecções por VIH em 2009, contra 50 mil projectados num estudo relativo a 2007, e contra 70 mil novos casos estimados no ano de 2005.

A UNAIDS afirma também que o número de mortes ocorridas em relação com a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida terá sido de 26 mil, e estima que 1,2 por cento dos portadores de VIH do país sejam crianças com idades até 15 anos.

A transmissão

Relativamente às formas de transmissão da doença, a maioria dos casos contabilizados de infecção ocorreu por via sexual: 44,3 por cento através de contactos heterossexuais, e 14,7 por cento através de contactos homossexuais. Estes últimos têm vindo a crescer como uma das principais causas de transmissão e, já nas projecções relativas aos novos casos estimados em 2009, contam como 32,5 por cento das causas para infecções.

De acordo com o estudo, a transmissão heterossexual do vírus “ocorreu principalmente em províncias com números relativamente elevados de pessoas que vivem com o VIH”, e a transmissão homossexual “ocorreu principalmente em cidades de média ou grande dimensão e locais com grandes populações migrantes”.

O consumo de drogas por via intravenosa é a segunda principal causa de transmissão, depois do contacto sexual, sendo causa de 32,2 por cento das 740 mil infecções calculadas no total do país. E a situação é sobretudo severa em seis das províncias e regiões do país – Yunnan, Xinjiang, Guangxi, Guangdong, Guizhou e Sichuan -, cada uma contando com mais de dez mil casos de portadores de HIV contaminados pela partilha de seringas.

Mantém-se muito elevada a percentagem de infecções resultantes da transfusões de sangue, estimada em 7,8 por cento. A maioria dos infectados por esta via (91,4 por cento) é natural das províncias de Henan, Anhui, Hubei e Shanxi, e a maioria dos casos diz também respeito “a antigos dadores de plasma sanguíneo”, de acordo com o estudo.

Recorde-se o escândalo relativo a transfusões de sangue contaminado no país, no qual as colheitas eram realizadas com pagamento aos dadores e em muitos casos sem recurso a materiais descartáveis. Milhares de pessoas foram infectadas por esta via, mas as autoridades chinesas afirmam hoje estar a implementar métodos seguros – ainda que, em algumas zonas, se mantenha o pagamento aos dadores.

Quanto ainda à transmissão do VIH de mães para filhos, esta está estimada em um por cento do total de casos.

Nas conclusões do estudo, a UNAIDS defende que “é necessário mais trabalho para perceber a epidemia e as suas causas de forma a alargar a prevenção, tratamento, cuidados, e programas de apoio com particular enfoque nas populações de maior risco”, ao mesmo tempo que salienta que a situação epidémica no país “é complexa e está em evolução”.

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