Negócio em ponto pequeno
Há um novo modelo de negócios que oferece a jovens empreendedores a oportunidade de montarem empresa própria, e com custos reduzidos. O PONTO FINAL foi conhecer uma moda que já fez escola no Japão.
Kelvin Costa
A moda chegou do Japão e introduz no comércio de Macau um novo modelo de negócios que, com poucos recursos, permite a muitos jovens experimentarem ser empresários por conta própria.
“Checker depot” é o conceito de uma loja equipada com enormes estantes de quadrados, cada um funcionando como uma pequena montra individual. Estas caixas são alugadas pelos proprietários da loja, e aos ‘inquilinos’ destes espaços oferece-se assim oportunidade de mostrarem os seus produtos por uma renda mensal de poucas centenas de patacas.
Helu Chan, um estudante que acredita que a ideia será bem acolhida por cá, abriu a sua loja, a Buddy Checker, com alguns amigos. “Esta moda teve início no Japão há cerca de dois anos e está a tornar-se popular também em Hong Kong e Macau. Penso que irá redefinir o conceito de loja”, diz.
No ano passado, Helu e os amigos, William Liu e Syros Leong, reuniram alguns lucros com vendas numa pequena banca durante o Ano Novo Chinês, o que os motivou a dar continuidade ao negócio. Helu Chan tinha visto pela primeira vez o modelo da “checker depot” ser aplicado numa loja do centro comercial Sun Star City que, no entanto, acabou por fechar portas cedo.
“Apesar de parecer rentável, tem alguns riscos. Não basta seguir a moda cegamente, precisamos de um plano e determinação”, considera.
Como estudantes, os jovens têm um orçamento limitado para arrancar com o negócio, e querem fazê-lo com poucas despesas. Alugaram um espaço no centro comercial Chong Seng, na Avenida Almirante Lacerda, e a renda que pagam é razoável. “Temos sorte porque a loja já estava decorada e gastámos pouco nos trabalhos de renovação”, conta William Liu.
“Precisámos de estantes de madeira feitas à medida. Procurámos em Cantão e em Zhuhai, mas acabámos por decidir-nos por um carpinteiro local”, acrescenta. O mobiliário ficou-lhes por 30 mil patacas.
Um sistema à medida
Mas há outros desafios: atrair inquilinos e clientes. Helu admite que as condições do mercado local preocupam os jovens e teme que, ainda que a ideia esteja a resultar bem em Hong Kong, o mesmo não suceda em Macau.
O grupo de jovens empresários oferece aos primeiros inquilinos 50 por cento de desconto na primeira mensalidade, e criou também um fórum de Internet destinado a localizar clientes e lançar promoções. “Encorajamo-los a experimentarem iniciar um negócio de baixo custo. Não precisam de estar aqui e podem ter qualquer outra ocupação. Basta terem os produtos, nós tratamos do resto”, vende a ideia.
Syros Leong, que estuda Gestão, aponta as competências necessárias para desenvolver este negócio. “É fácil cometer erros. Temos quase uma centena de inquilinos. O truque está em ter um registo de vendas cuidado. Eles dependem de nós para alcançarem lucros e para saberem quando importar produtos. É importante ter um sistema de contabilidade à medida”, defende.
A maioria dos sistemas que estão disponíveis são demasiado complexos e mais adequados a uma grande empresa. Como o que existe não satisfaz as necessidades destes jovens, decidiram criar um registo de contabilidade próprio. “Não é profissional e precisa de controlo manual, mas é o suficiente para gerir centenas de contas”, explica.
O novo modelo de negócio adoptado é também exigente. “É preciso cuidar de muitos aspectos, como inventariar produtos, inserir dados, fazer o registo das vendas, incluindo as que são feitas online, bem como tratar dos contratos de aluguer e da sua renovação”, elenca Helu Chan.
“Pode ser uma tarefa pesada, já que temos uma equipa pequena e todos somos estudantes a tempo inteiro”, admite. Para já, e enquanto duram as férias de Verão, os jovens conseguem dar conta do recado.
Contratar um empregado a tempo inteiro tem sido uma dificuldade. O grupo de três empresários começou por oferecer um salário de 6500 patacas e, mais tarde, acabou por subir a oferta para 7000 patacas. Mas, sem sucesso, as propostas têm sido rejeitadas. “É difícil contratar alguém e manter essa pessoa. Normalmente, despede-se ao fim de três meses, mesmo que ofereçamos um aumento”, queixa-se.
Compromisso entre horários
Apesar da carga de trabalhos, o trio acredita que vai ser bem sucedido, mesmo depois do início de um novo semestre de aulas. “Há sempre um conflito em termos de tempo, mas vou tentar não faltar às aulas. Com uma equipa de três, vamos tentar um compromisso entre os nossos horários”, adianta Chan. E as regras do grupo são rigorosas: “Nunca faço nada de pessoal durante as horas de serviço. Quando estamos a trabalhar, estamos a trabalhar”, garante.
Chefiar um negócio também tem os seus custos. Helu Chan recorda-se de ter passado na loja os dias dedicados à revisão de matérias anteriores ao período de exames escolares. “Presto muita atenção ao que diz o professor e está tudo na minha cabeça. Assim, não preciso de passar tanto tempo a fazer revisões, tal como os meus amigos. Mantive a minha média de 2,8 pontos em quatro. E a loja continua a abrir todos os dias”, explica.
De forma a evitarem ter na loja produtos falsificados, os jovens empresários pretendem assinar com os inquilinos das pequenas caixas um contrato em que estes se comprometem a respeitar a lei e reportar à polícia a existência de bens contra-feitos. “Não somos profissionais. É impossível conhecer as características de cada marca e identificar os produtos. Por isso, queremos deixar as nossas regras muito claras”, declara Syros Leong.
Os negócios da Buddy Checker têm um protocolo simples – não vender o mesmo produto em diferentes montras. “É melhor evitar concorrência interna. E, além disso, queremos dar mais opções aos clientes”, afirma Helu. “Uma vez que a oferta supera a procura ao nível dos espaços para alugar, não podemos ser muito exigentes. Agora temos um grupo estável de inquilinos, que confia em nós”, explica sobre a simplicidade das regras.
O segredo do negócio, avançam também, é passar uma imagem positiva e credível. “Somos fiéis às nossas promessas e mostramos cortesia para com todos os clientes. Neste centro comercial temos a loja que há mais tempo está aberta e vimos várias outras encerrarem dois ou três meses depois da nossa inauguração”, lembra Syros.
Há mais de um ano que os jovens começaram este negócio, e William Liu pode orgulhar-se ao dizer que o investimento inicial já foi recuperado. Mas o montante foi entretanto já posto a render numa nova empresa. “A nossa ideia é não ter dinheiro parado. E não desperdiçamos qualquer oportunidade de investir. Por isso, não temos uma moeda no bolso”, conta.
A Buddy Checker está neste momento a adaptar-se a um novo estilo de operações. Os três empresários querem montar uma plataforma de comércio electrónico. “A nossa ideia é fazer da Buddy Checker uma espécie de e-Bay regional. Temos uma base sólida de inquilinos e clientes e podemos rentabilizar esta vantagem”, acredita.
Manter o negócio parece ser mais difícil do que iniciá-lo, e os jovens ainda não sabem o que acontecerá quando concluírem os estudos. “A menos que façamos muito dinheiro, o mais certo é um dia separarmo-nos. Mas é óptimo sermos patrões de nós próprios.”
