Milhares contra o Governo de Manila
A população de Hong Kong continua a exigir ao Governo das Filipinas que diga a verdade e apure todos os factos sobre o sequestro e morte de turistas da região, no passado dia 23, em Manila. Ontem, milhares saíram à rua.
Dezenas de milhares de pessoas marcharam ontem em Hong Kong para homenagearem as oito vítimas locais do sequestro de um autocarro turístico em Manila, no passado dia 23, e exigir ao Governo filipino que investigue o caso e peça desculpas públicas. Os protestos decorreram no mesmo dia em que um largo grupo da comunidade filipina da RAEHK organizou cerimónias fúnebres em memória dos mortos.
Os manifestantes expressaram revolta pela forma como o Governo filipino geriu a situação dos reféns, na qual surgiram várias queixas contra a actuação da polícia de Manila. “É tarde demais para os governos impedirem o pior, mas a população de Hong Kong espera que, no mínimo, as autoridades filipinas digam a verdade”, declarava ontem Daisy Kwong, uma funcionária do sector das telecomunicações. “Chorei durante horas depois de ter assistido à tragédia em directo na televisão”, dizia a uma agência internacional de notícias.
A população que ontem saiu à rua observou três minutos de silêncio em Victoria Park, envergando faixas amarelas e transportando consigo flores brancas, da cor do luto chinês tradicional.
Os partidos políticos que organizaram o protesto contavam reunir 50 mil pessoas, mas ao final da noite de ontem não havia números consensuais relativos à participação popular. Segundo a emissora RTHK, a polícia dava como certa a presença de 20 mil pessoas e a organização da manifestação apontava 80 mil.
“Estou furioso”, atirava Law Wai-hing, de 56 anos. “Não penso que iremos alguma vez saber a verdade quando o presidente [Benigno Aquino] tem um comportamento tão pavoroso. Espero que o Governo Central chinês e as Nações Unidas exerçam pressão sobre o Governo filipino.”
Os protestos tiveram à frente o presidente do Parlamento de Hong Kong, Jasper Tsang, que destacou que ele e outros deputados estão a pressionar o Governo de Hong Kong para que este exija a Manila uma profunda investigação ao caso. Na investigação, destacou Tsang, o Governo de Hong Kong deve estar directamente envolvido.
“A culpa não é vossa”
Os membros da comunidade filipina de Hong Kong, estimados em 200 mil indivíduos e empregues na sua maioria como ajudantes domésticos, têm vindo a expressar receio de retaliações.
A organização da manifestação de ontem apelou aos participantes para que não levassem consigo faixas com mensagens de teor racista ou entoassem slogans discriminatório. Centenas de filipinos acabaram por tomar parte numa vigília à luz das velas, um dos vários eventos ocorridos para lembrar as vítimas.
“Por favor, não se zanguem, não tenham medo. A culpa não é vossa. Sentimos raiva em relação ao Governo das Filipinas, não em relação a vós ou contra a vossa nação”, dizia Fermi Wong, fundadora do grupo de apoio às minorias étnicas Unison Hong Kong, junto de uma multidão de empregadas domésticas.
O vice-cônsul das Filipinas, Val Roque, informou também que foi enviada à comunidade uma mensagem pedindo que esta deixasse as suas actividades planeadas para se juntar às cerimónias memoriais deste domingo. “Sendo a maioria dos nossos membros católica, entendeu-se que era a melhor forma de expressarmos solidariedade com a população de Hong Kong”, disse o representante de Manila.
Val Roque minimizou também os receios de retaliação sobre a população filipina, garantindo que até então não havia registo de assédio ou qualquer abuso cometido sobre esta. “Confiamos que os nossos amigos de Hong Kong não farão nada contra os filipinos que aqui se encontram. Mas compreendemos a necessidade de fazerem ouvir a sua raiva. Esperamos que ela se dissipe com o tempo”, declarou o vice-cônsul.
Uma página da rede social Facebook dedicada às vítimas têm entretanto recebido milhares de mensagens e muitas criticas dirigidas ao Governo de Manila.
Também este domingo, a RTHK dava destaque a declarações de um psicólogo dos serviços governamentais da RAEHK que pedia à imprensa vizinha para não realizar entrevistas com os sobreviventes da tragédia, que têm estado sob a mira insistente dos media.
A 23 de Agosto, oito turistas de Hong Kong morreram e sete ficaram feridos no sequestro de um autocarro na capital filipina, após a tentativa falhada da polícia para que o sequestrador, um ex-polícia chamado Rolando Mendonza, libertasse os reféns.
