Sala de ensaios
Há muito teatro nesta cidade – é encontrá-lo. Na contingência dos poucos palcos de Macau, ensaia-se em pequenas caixas negras à procura do seu público. E o público procura por ele?
Maria Caetano
Kelvin Costa
Não falta dramatismo à cidade, embora este nem sempre tenha a maior visibilidade. O teatro de Macau anda, há décadas, em permanente ensaio – de conhecer os seus públicos, de formar os seus actores e produtores – mas com trupes féis que alternam entre um ou dois grandes palcos (o Centro Cultural de Macau e o Festival de Artes) e as pequenas caixas negras sem reserva de intimidade onde reinam a experimentação, sobretudo, e alguns textos de repertório.
As companhias de teatro locais ultrapassam com segurança uma dezena, o que atendendo à exiguidade do território é um número considerável. Actuam grande parte das vezes sem agenda que as projecte, mas, invariavelmente, estão lá.
“Este fim-de-semana, por exemplo, temos cinco peças de teatro em Macau, todas produzidas por diferentes grupos.” Hi Kok, Pequena Montanha (Siu Saan), Comuna de Pedra, Teatro de Macau e Teatro dos Lavradores são as companhias que se apresentam ao público num único fim-de-semana – medida da pujança do drama local para Lawrence Lei, o director da Escola de Teatro do Conservatório de Macau.
Quando a próxima semana findar, haverá nova dose de artes de palco. “E se é um apreciador de teatro, andará muito ocupado em meados de Setembro”, avisa Lei. Há muito teatro em Macau. O truque parece estar em encontrá-lo.
“Ao contrário de Hong Kong, nós não dispomos de uma rede de divulgação de espectáculos ao público. Lá, é muito fácil consultar o que está a acontecer. Aqui não, a menos que a peça tenha lugar no Centro Cultural de Macau, ninguém sabe que esta vai acontecer. Os nossos meios são pequenos panfletos e alguma cobertura dos media”, explica o director do Conservatório, também um dos fundadores da Hiu Kok, companhia criada na década de 1970 e da qual Lei é director artístico.
Formar para os palcos
Lei voltou ao território há pouco mais de um ano, para dirigir a formação dos actores que saem a cada ano do Conservatório. São fornadas na ordem das centenas: este ano inscreveram-se 220.
A escola recebe alunos a partir dos cinco anos de idade, e acompanha-os para lá dos 18, ensinando técnica vocal, interpretação, movimento de palco, dramaturgia e direcção de actores – sempre em regime de part-time, já que este Conservatório não se oferece como alternativa aos estudos regulares.
É este o maior desafio, explica o director: “Todos os alunos chegam aqui depois do trabalho ou das aulas, já muito cansados e apenas com duas horas para aprender. Temos de os ensinar nestas circunstâncias. E o treino profissional requer muita energia e concentração”.
Quando termina a formação do Conservatório, parte dos alunos prossegue estudos em locais como Hong Kong, Pequim, Xangai, Taiwan ou Estados Unidos. Outros acabam por dar aulas nas escolas de Macau, e a maioria irá engrossar os corpos das companhias dramáticas locais.
Nestas, Lawrence Lei admite que há uma tendência crescente de exploração do teatro experimental. E avança uma explicação. “Há apenas uma sala convencional. Quando faltam este tipo de espaços e as companhias estão dependentes da suas pequenas salas de ensaio acabam por adequar-se a registos mais experimentais. O teatro clássico requer espaços maiores e mais meios”, defende.
Outra das razões avançadas para a preferência pelo pequeno teatro de caixa negra – onde hoje em dia por cá se encontram trabalhos colectivos de improvisação, teatro-dança, e a performance à mistura – é a de que “alguns dos membros das companhias são muito jovens e querem explorar vias mais experimentais. Mas também tem a ver com as condições dos teatros”.
Já a companhia da Escola de Teatro, formada há um ano, trabalha exclusivamente material de repertório clássico. “Trata-se de formação de base. Temos de lhes dar um treino clássico. Depois podem perseguir outras vias.”
Chegar a todos
Pedro Lencastre, chefe de programação do Centro Cultural de Macau (CCM), não concorda muito com a ideia de que as artes de palco produzidas localmente seguem hoje uma via mais experimental. “Existem dois vectores. Acho que existe uma perspectiva mais clássica no que se faz aqui em Macau – o que faz o Conservatório e algumas outras companhias – e depois existe um outro vector que faz coisas um pouco mais experimentais”, defende.
Na entanto, assume que o experimentalismo é a tónica em grande parte das produções locais que chegam ao Centro Cultural, e que a instituição apoia regularmente com ‘chamadas’ à criação.
No presente momento, o CCM prepara o retomar da série Teatro da Caixa Negra, após um ano de interregno em 2010. Está marcado para Fevereiro, e contará com novos moldes, já que desta vez as propostas não ficam limitadas ao palco do pequeno auditório do espaço.
Em 2008, houve quatro produções locais e duas internacionais – uma de Singapura e outra da Coreia do Sul. Já em 2009, o CCM acolheu três produções locais e três vindas de fora – estas da Coreia do Sul, novamente, da Turquia e de Hong Kong.
“Procurámos, no fundo, estimular a criatividade de novos talentos artísticos. Estávamos à espera de ter novos grupos – provavelmente recém-formados –, de pessoas que estivessem a sair de escolas de Macau e de fora ou que estivessem já a trabalhar num espaço mais intimista”, explica Lencastre.
“Pretendíamos fazer isso no contexto em que apresentávamos o que se faz de mais vanguardista em Macau juntamente com o que se faz na região”, junta. E criar com isso um diálogo que “estimula a criação – não provavelmente naquela produção, mas em produções vindouras”, já que as companhias locais e de fora partilhavam o palco com apresentações em simultâneo.
Com dois auditórios convencionais, e uma programação que se poderia esperar ser apenas dirigida ao grande público, o CCM diz ter na ambivalência a sua vocação, e a missão de chegar a todo o lado. Os palcos do Centro Cultural são, na verdade, os palcos de que a RAEM dispõem em termos de programação regular. Embora existam no território outros “apresentadores regulares da coisa artística”, frisa o responsável.
“Tem de haver um comprometimento do Centro Cultural em trabalhar o mais alargado leque de públicos possível”, defende. “Apresentamos espectáculos muitas vezes de massas, como quando apresentamos musicais e vêm entre cinco a sete mil pessoas, mas também temos de trabalhar tudo o que se faz localmente. E, quando as produções são feitas localmente, trabalhamos mais com um nicho de público.”
Público mutante
Nos apoios e espaço cedidos aos grupos locais, os critérios são a criatividade e a viabilidade, enuncia Pedro Lencastre, bem como “a experiência de quem está a propor”.
Já o público de Macau “está em constante mutação”. “Existe uma certa base que está solidificada. Mas depois vai evoluindo, porque os gostos também vão evoluindo, e nós temos de estar em constante interacção com a comunidade”, explica.
O programador do CCM explica que é difícil perceber o tipo de público que visita as suas instalações e, em parte, a ferramenta para o descobrir consiste num sistema de tentativas, que mais vezes têm sucesso do que erram. O exercício “exige que de vez em quando os limites sejam um pouco esticados”, admite. E é nesse sentido que o teatro experimental tem entrado pelas portas do Centro.
“Algumas vezes – poucas – existem pessoas que saem e a quem o espectáculo incomoda. Mas existe sempre esse risco de estarmos a apresentar espectáculos que possam não ser bem recebidos”, diz.
O público que assiste às Blackbox Series tem um perfil identificado. “É um público mais jovem e que arrisca mais. São adolescentes, jovens adultos, muitas vezes alunos universitários. Não sabem muitas vezes que tipo de espectáculo vão ver, mas não se importam porque são mais livres, não precisam de planear tanto, e tomam decisões mais em cima da hora”, descreve.
Nas duas séries realizadas, o CCM encheu “cerca de 90 por cento da capacidade da sala”, com o auditório presente no mesmo palco onde actuavam os actores, numa caixa negra improvisada para a ocasião e com uma lotação máxima de 150 lugares. Houve mil espectadores no primeiro ano, e 800 no segundo.
A necessidade de uma nova sala, defende o programador, não é especialmente sentida, embora não seja ideia que não aflore de vez em quando nas cabeças dos responsáveis do CCM. “Eu gostava de ter uma sala mais pequenina, um estúdio de 150 a 200 pessoas. Uma sala de 400 lugares é muito grande para um espectáculo experimental novo. E de certeza que se for perguntar aos artistas locais, eles vão dizer que gostavam de ter um estúdio que fosse multifuncional”, admite.
Mas sempre vai anuindo que era bom haver mais salas de espectáculos no território “para haver também um pouco mais de especialização temática na programação”. Mas para que essa evolução aconteça, defende, “vai ter de existir muito mais consumo cultural”. “A cidade ainda não está nesse ponto – há-de estar, se assim quiser”, espera.
Abrir a caixa
Mas há quem insista na necessidade de haver novos palcos. “Não nos novos aterros, devemos deixar o mar como está. Acho, sim, que devia haver mais espaços de espectáculos nas zonas antigas da cidade”, defende o dramaturgo Mok Siu Chong, que em conjunto com Lou Chong Neng, a mulher, dirige as instalações da Poor Space, próximas do Hospital Kiang Wu.
A sala de ensaios do Poor Space, chamada de “pequeno teatro”, acolhe em permanência a companhia de Lou – Step Out – e também o grupo Instituto Cultural Teatral de Macau, de Mok. Numa iniciativa recente, abriu as portas a outras companhias “amigas” que, apesar de terem os seus próprios espaços, quiseram experimentar outras paragens.
“É a primeira vez que abrimos o espaço a outras companhias”, conta a directora da Step Out. “No início queríamos apenas encontrar um lugar para ensaios, de forma a produzirmos algum teatro experimental. Mas é difícil ter apenas um grupo a gerir o espaço e decidimos abri-lo a outros”, explica Mok.
Para já é uma experiência. “Vamos ver como corre. Temos de tratar de muitos aspectos logísticos e, ao mesmo tempo, temos também de ensaiar. O tempo é curto. Mas, na verdade, é muito entusiasmante ter aqui outras companhias”, diz o dramaturgo.
A Poor Space recebe a Hiu Kok e a Comuna de Pedra, que até têm as próprias salas de ensaio, e em permanência tem desde há tempos o Instituto Cultural Teatral de Macau. Não se trata de um organismo governamental, mas antes de uma outra associação que, no espaço, detém uma biblioteca com centenas de livros sobre artes dramáticas e, trimestralmente, publica uma revista sobre teatro em Macau que dá a conhecer a agenda de espectáculos e publicar também críticas. “Algumas vezes temos a colaboração de autores de Taiwan e Singapura”. A revista, criada em 2007, recebe o nome de Performing Arts Forum e é dirigida por Mok Sio Chong.
Esta noite, o “pequeno teatro” de Mok e Lou recebe o trabalho da Comuna de Pedra da coreógrafa Jane Lei com uma adaptação para teatro-dança do texto “O Príncipe Feliz” de Óscar Wilde.
Já nos dias 10,11 e 12 de Setembro, é a vez da Hiu Kok ocupar o espaço com a peça “Flowers and Swords” de Sam Ma, dramaturgo de Taiwan. A actriz Natalie Lam, de 23 anos, irá estrear-se na direcção de actores auxiliada pelo veterano do grupo Chan Sai Peng. “Sinto que devo aceitar este desafio para experimentar algo diferente. Pode ser a minha única oportunidade”, diz a jovem formada pela Escola de Teatro do Conservatório de Macau.
E Chan avança a ideia que se ensaia nas cabeças dos membros do ‘pequeno teatro’ local: “Aquilo que nos falta são bons dramaturgos – precisamos de textos que contem a história da nossa cidade. E precisamos de espaços amplos para ensaios e espectáculos”.
