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A vertigem do amor

August 27, 2010

“Suzhou River”, de 2000, é o segundo filme de Lou Ye. Mais do que uma resma de influências, é uma das melhores películas da década produzidas na China e um brilhante exercício de como contar uma história.

“Suzhou River” assume-se na tradição do ‘Film-Noir’, de “Lady in the Lake” de Robert Montgomery, é registado com câmara trémula e luz natural, a fazer lembrar “Chongking Express” de Wong Kar-wai, e bebe muito em Hitchcock, mas é mais que tudo isto. “Suzhou River” dá uma nova dimensão a essas referências, envolvendo directamente o espectador e criando neste um sentido voyeurístico da realidade.

A natureza transitória da vida desdobra-se pela colagem de frames captados pelas lentes de um videógrafo, num fluxo narrativo desordenado, como desordenadas são as margens do rio sobre o qual se reflecte a degradação da zona urbana das fábricas de Xangai, lixo e muitas histórias.

“Se eu algum dia te deixar”, uma voz off feminina sussurra no preto inicial, “Vais procurar por mim? Como Mardar?”, a que uma voz masculina responde “Sim”. E ela continua, “Vais procurar por mim para sempre?”, a que ele responde “Sim”. “Toda a tua vida?”, a que ele dá, com mesma entoação, a mesma resposta: “Sim”. “Estás a mentir”, finaliza ela com a imagem a dissolver-se do preto para as águas do rio. O plano abre e mostra a zona industrial que rodeia o rio Suzhou, no coração de Xangai.

Linhas de abertura que são o cerne do enredo sinuoso do belíssimo filme de Lou Ye. Uma meditação sobre a busca desesperada, obsessiva e aparentemente interminável do verdadeiro amor.

O anónimo e invisível videógrafo, que faz qualquer trabalho, serve como o elo de ligação a uma encruzilhada amorosa de histórias fragmentadas. Uma encomenda de um bar levam-no a conhecer Mei Mei onde esta faz um espectáculo de sereia num tanque de água. Mei Mei, interpretada por Zhou Xun, torna-se namorada do nosso narrador, e fica triste, e desaparece, sem ele perceber porquê, “sem uma palavra”.

A relação do videógrafo com a sua varanda tem algo do “Rear Window”, mas as revelações hitchcockianas não se esgotam aqui. O modo como Lou Ye brinca com o registo vídeo de câmara à mão serve a narrativa na excelência. A história de Mardar, que o nosso videógrafo conheceu através do que Mei Mei lhe contou e que reconta em tom de adivinha, é repentinamente o centro do enredo. Godard disse um dia que “uma história deve ter princípio, meio e fim, mas não necessariamente por essa ordem” – pois que “Suzhou River” tem dois princípios.

O estilo de narração inexpressivo, que começa o filme, e o narrador impessoal que se recusa a ser mantido em segundo plano desempenham um importante papel no desenrolar do drama. Na divagação da sua história e do seu querer não perder o amor, por ser o segundo homem, o narrador leva-nos subtilmente para a história de Mardar, interpretado por Jia Hongshen, e do seu louco amor por Moudan, também interpretada por Zhou Xun.

Mardar faz entregas, de qualquer tipo, através de uma motorizada. Por vezes tem de entregar Moudan na casa da tia, para que o seu pai empresário rico possa estar “mais à vontade”. Mardar e Moudan apaixonam-se nestas viagens.

Construindo a narrativa a partir de encontros casuais e interconectados, também o objecto visual abunda em planos de corte de exuberante e hábil montagem. Estilisticamente o filme é de uma sensibilidade inquieta e a mistura de realismo e romantismo demonstram uma visão cruel e sombria da sociedade contemporânea e do mundo.

Mardar acaba por envolver-se, pela via dos seus patrões, no acto fracassado do rapto de Moudan. Um “facto” que acaba com o salto para o rio por parte de Moudan. Antes de saltar ela diz “Eu voltarei como uma sereia e hei-de encontrar-te de novo”. Ele acaba preso e o corpo dela nunca é encontrado.

Em “Suzhou River”, o espaço entre ficção e realidade é o que dá origem à própria criatividade do enredo, e a cidade de Xangai joga nos contrastes que acendem esse mesmo impulso criativo. A história da sereia torna-se uma das histórias populares do rio.

Mardar, depois de cumprir a pena, acaba por retornar a Xangai e conhece Mei Mei, a sereia do bar burlesco e decadente. As semelhanças físicas são tais que fica convencido que é a mesma mulher que Moudan. Sendo que Moudan é a antítese completa de Mei Mei, ela insiste que ele tem a mulher errada. Mas ele não a vai deixar sozinha até ao triste desfecho final.

A duplicidade da personagem feminina interpretada pela mesma actriz e a busca obsessiva de um homem por uma mulher que perdeu são dívidas estilísticas claras a “Vertigo”, de Alfred Hitchcock, e levam para a mesma questão: “É Meimei realmente Moudan, ou não é?”. O mesmo devaneio aparece no thriller “Basic Instinct”, de Paul Verhoeven, mas Lou Ye não o repete em queda livre. O filme tem o espírito da vanguarda chinesa, intrigante e realista, numa actualização emocionante sobre o mestre do suspense.

O que na estrutura do filme é único é que Lou Ye explora o poder de contar histórias para transformar, inspirar e enriquecer as nossas vidas. A confusão entre facto e ficção, entre realidade e romance, onde a imaginação de vídeo-diário é mais do que uma experiência de filmagem capaz de criar uma alquimia que transforma o mundano em magia.

O retornar quase surrealista às imagens da sereia aprofunda a intensidade do sonho e do assombro, o sentido escorregadio de realidade. Mas é quase reconfortante, porque o que “Suzhou River” sugere é que o amor verdadeiro é sempre alusivo e pode, em qualquer ponto, desaparecer na escuridão.

Altamente estilizado, filmado numa forma quase documental, e com uma narrativa fascinante, “Suzhou River” é um desafio, visualmente perturbador e, sobretudo, uma experiência emocional que não deve ser desperdiçada.

No final, pouco importa se é Mei Mei, Moudan ou se Mardar sempre encontra o seu verdadeiro amor. A película de Lou Ye deve ser encarada não em termos de como termina, mas de como se desenvolve ecoando o aforismo de que o que interessa “na vida é a viagem, não o destino”.

José Drummond

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