Marchar pelo cantonês em Hong Kong
Depois da manifestação em Cantão, os protestos em defesa do dialecto prosseguem na RAEHK, no domingo. Do Continente chegarão pessoas que querem fazer ouvir a sua voz.
Os protestos pela defesa do dialecto cantonês vão migrar de Cantão para Hong Kong, já no próximo domingo, em Wan Chai, numa acção organizada com a ajuda do Facebook. De acordo com o South China Morning Post, um grande número de manifestantes vai deslocar-se do Continente até à RAEHK para se juntar aos descontentes locais.
O assunto, que o jornal qualifica como um dos debates quentes em ambas as regiões, junta cidadãos de ambos os lados da fronteira num protesto contra a proposta oficial do comité provincial da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC) às estações de televisão sediadas na província de Guangdong, para que transmitissem os seus programas em mandarim, relegando o dialecto local. De Macau, é provável que também cheguem algumas pessoas.
A proposta, feita este mês, tinha como finalidade facilitar o entendimento dos visitantes de outras províncias durante os Jogos Asiáticos, que arrancam em Novembro, mas acabou por enfurecer os falantes do dialecto. A marcha de domingo está prevista para as 14h, com concentração junto ao complexo Southorn Playground, em Wan Chai, com os manifestantes a seguirem depois até à sede de Governo. A informação foi dada ao South China pelo escritor Chik Pun-shing, residente de Hong Kong que tem ajudado a promover a acção através do Facebook.
Na página criada para o feito naquela rede social, o movimento de cidadãos apresenta-se com a frase “acreditamos que é possível reunir 10 mil pessoas” para defender o cantonês. Até ontem à noite, umas 200 estavam confirmadas e quase 300 punham a hipótese de ir.
A verificar-se a manifestação de domingo, escreve o jornal da RAEHK, será a primeira vez desde os protestos na praça de Tiananmen, em 1989, que um movimento deste género se estende a Hong Kong. “O pedido de manifestação foi recusado em Cantão e as pessoas foram postas sob vigilância”, refere a activista Choi Suk-fong, também envolvida na organização da marcha. “Queremos sair à rua para proteger o nosso espaço cultural e linguístico. Se não disseremos nada, não conseguiremos nada”, remata.
A manifestação de Cantão, numa estação de metro, destacou-se por vários motivos: não só é pouco habitual uma reunião do género em defesa de um dialecto, como as idades dos presentes, muitos abaixo dos 30 anos, revelam um tipo de ajuntamento nada usual no Continente. Especialistas ouvidos pelo South China falam de uma crise de identidade que se acentuou com as migrações em massa, das províncias interiores para as zonas costeiras da China. A língua, neste caso, surge como elo unificador.
He Lihong, comentador de TV em Cantão, refere que as pessoas se sentem ameaçadas pelos fluxos migratórios e pela cada vez maior competitividade laboral. Para o analista, as gerações de 1980 e 90 “enfrentam desafios muito maiores que as dos seus pais”. Este tipo de iniciativas resulta de “uma ansiedade de identificação, causada pelas mudanças demográficas”.
