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Continua nas bocas dos mais novos

July 28, 2010

Derivou do português e continua a ser falado pelos euroasiáticos em Malaca. O cristang é um dos resquícios da cultura lusa que resiste à passagem do tempo.

Catarina Brites Soares

Em Malaca fala-se cristang. À cidade malaia chegaram os navegadores portugueses em 1511, onde atracaram as âncoras da cultura lusa até 1641. Passados séculos, o português continua a fazer parte da cultura e da comunicação diária de cerca de mil pessoas. O ‘papaia cristang’ – espécie de crioulo – foi o dialecto que apanhou jeitos próprios mas teve a sua origem na língua de Camões e resistiu à passagem dos holandeses, britânicos –  e agora à influência do país a que pertence.

Carrieanne Francisca de Costa é uma das que continua a herança cultural que teve início muitas gerações antes da sua. Com o pai – “de nome de Costa” – e a mãe – “de nome de Melo” – ainda fala em cristang, mesmo que o inglês já vá tendo a suas palavras nas conversas. “Todas as pessoas do lugar onde eu moro falam cristang, é um género de patuá”, diz a habitante do ‘Portuguese Settlement’, uma comunidade cristang em Ujong Pasir, junto a Malaca. A jovem está em Macau para o curso de Verão de português da Universidade de Macau. “Com o meu avô, mesmo que lhe fale em inglês, ele só me responde em cristang”, frisa, explicando que o dialecto só permanece pela vontade de ser falado. Nas escolas não se aprende, resta às famílias praticá-lo em casa. Carrieanne confessa não se lembrar de como começou.

“Só me recordo de já falar”, explica, enfatizando que, segundo a versão do avô, o dialecto é a “língua portuguesa mais antiga” que por ali se usa. “Somos euroasiáticos portugueses, é a nossa etnia”, vinca com o orgulho de quem assume querer ser uma das ‘profetas’ das marcas de uma presença longínqua.

De que modo a língua resiste ao fim de “tantos anos”? Foi este um dos traços de Malaca que arrancou a curiosidade de Silvie Lai. A residente de Macau partiu para a cidade da Malásia – durante Junho e Julho – à procura de conhecer “como vivem os portugueses de Malaca e o que é que os torna diferentes do resto da comunidade”. A fisionomia dos habitantes do bairro português vai enformar o documentário “Nós, portugueses de Malaca”,  que está a ser realizado. “É interessante ver como é que aquela comunidade conseguiu durante séculos conservar a língua, as festividades religiosas, a dança”, diz a também jornalista que nasceu em Moçambique, viveu e estudou em Portugal e que, há 15 anos, reside no território. “As pessoas: foi o que mais me cativou. Quando sabem que somos de Portugal ou de algum espaço com influência lusa aproximam-se, e os mais velhos começam a cantar em português”, conta.

A dança, a comida, a religião e a língua são os substratos da influência que perdura ainda nos mais novos. “Temos grupos de dança folclórica”, refere Carrieanne que também pertence a um desses colectivos e continua a dar ao pé em aulas de rancho em Macau.

Numa cidade onde coexistem diversas etnias, “é esse melting pot” que cativa Silvie. “É interessante ver o bairro sobretudo ao nível étnico, não tanto arquitectónico”, uma vez que é recente e não guarda qualquer traço português. O bairro português foi construído pelos britânicos, depois da erosão da costa, propositadamente para a comunidade lusa, que se dedicava na sua maioria à pesca. Reconhecida como património tangível e intangível pela UNESCO – em 2008 – Malaca é, para Silvie, relevante pela sua “interculturalidade”. “O S. Pedro, que é o santo dos pescadores, é celebrado muito perto deles. No dia, os padres vão benzer os barcos”, descreve Silvie, para mostrar como os resquícios da cultura portuguesa continuam bem marcados no calendário e na vida de Malaca. “Vamos aos cemitérios e vêem-se inúmeros apelidos portugueses – Rodrigues, de Melo, da Costa…”, continua.

Resistiu, mas vai prevalecer?

Nas escolas, a aprendizagem é feita em inglês ou em malaio. Os mais novos sabem cristang, mas, para facilitar a comunicação, falam entre si em inglês. No entanto, Carieanne auspicia bons ventos para a cultura que assimilou. “Não sinto que a influência dos portugueses esteja a desaparecer”, vinca, sublinhando que muitas famílias praticam em casa. “Quero passar a cultura às próximas gerações. Por exemplo, a dança parece estar na minha família. O meu avô dançava rancho, a minha mãe também, agora eu. E a minha irmã, com 11 anos, também está a começar.”

Nos últimos tempos tem aprendido o português e diz-se “confusa, porque existem algumas diferenças, como no feminino e masculino, que nós não temos”. Ainda assim, está determinada a interiorizar a língua que também a fez falar. “Quis aprender português porque é uma oportunidade para conhecer melhor as referências da minha cultura”, remata.

Uma visão diferente tem Silvie. Ainda que ressalve que a cultura portuguesa não corre riscos de se ir esvaindo a “curto prazo”, considera que é possível que tenda a desaparecer. “O desenvolvimento em Malaca, o facto das novas gerações começarem a viver nas franjas do bairro, porque já não têm espaço, e das gerações mais novas começarem a falar cada vez mais o inglês, são factores que podem levar a uma certa desagregação cultural.” O facto de Malaca ter estado sob a alçada da Diocese de Macau, e dos padres serem portugueses, foi um aspecto que também “contribuiu para a conservação da comunidade”. “E que agora também pode ajudar”, vinca a produtora do documentário que em conjunto com o marido – realizador – pretende mostrar “como é que os euroasiáticos portugueses se vêem e que ideia têm da sua cultura”. Se lhe perguntamos qual a perspectiva que esses habitantes têm de si, Silvie Lai prefere deixar a resposta entregue ao documentário. Que, pois claro, vai ser narrado em cristang.

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