Com medo que a humidade atenue o fôlego
Fomos experimentar os barcos dragão, cujo campeonato mundial de clubes arranca hoje com a humidade como rival. No intervalo dos treinos, os atletas têm tempo para lançar um olhar a Macau e fazer prognósticos dos resultados.
Catarina Brites Soares
Os movimentos estão sincronizados. Os braços remam e obedecem ao som do batuque ou aos gritos que saltam da ponta do barco e que ditam: mais forte, mais rápido. “O som depende de cada equipa. Há algumas que o usam mesmo para impor o ritmo, outras equipas – como nós – só o fazem por respeito à tradição”, começa por explicar ao PONTO FINAL Melissa, acrescentando: “De facto, nós somos mais do tipo que reage aos gritos”. A atleta que vem do Canadá explica, no entanto, que o tambor – na proa do barco – norteia sobretudo para as equipas asiáticas. Já para a do Canadá, são os brados dos dois atletas que encabeçam a embarcação a servir de leme para o ritmo que devem assumir ao longo da prova. “Para muitas equipas imprime a velocidade que os atletas devem ter, para nós é só mais um detalhe que queremos respeitar, assim como o dragão no barco. Faz parte do desporto”, diz, acrescentando que são artifícios que têm de ser usados em qualquer competição.
Nos lagos Nam Van, da perspectiva de quem vai sentado na boca do dragão ressalta o fogo da força que os 20 atletas fazem para mover o barco, e a água que os remos deitam para comer segundos ao tempo que conta a demora até à meta.
Segundo Melissa, as primeiras remadas são “para levantar o barco” e depois é “para acelerar”. “A partir daí é procurar manter a velocidade, e no fim da corrida tentar ir o mais rápido possível.”
Em Macau, o líquido que transpira os corpos dos atletas que hoje começam a competir no Campeonato Mundial de Clubes de Barcos do Dragão é um fusão do esforço, água do Rio das Pérolas e de outro factor a que não estão habituados.
“É muito difícil treinar e competir com este tempo, especialmente pela humidade, é difícil respirar”, descreve Jean, explicando que no Canadá as temperaturas até podem atingir os níveis locais, mas nunca acompanhadas pela humidade tão elevada. “Não se sente que está tão quente, o que faz com que consigamos respirar. Aqui temos de estar sempre a beber água.”
Só da cidade de Montreal vieram cerca de cinco ou seis equipas que “tentaram chegar o mais cedo possível para se adaptarem” às condições atmosféricas adversas. “Esperemos que quando começarmos a competir já estejamos habituados”, continua o atleta da equipa do Montreal, menorizando os possíveis benefícios das formações que remam sempre nesta parte do globo e já estão acostumadas à humidade. “Não acho que seja uma vantagem que faça assim tanta diferença. Ao fim dos dias acaba por se esbater. Ainda que possa ser uma mais valia, não será incontornável”, frisa.
Depois de 30 horas de viagem, Jean diz já sentir melhorias no rendimento dos colegas que vão enfrentar os melhores clubes do mundo até domingo. ”As equipas mais difíceis são as da China, Filipinas e as equipas checas”, considera, baseando-se nos resultados do último Mundial em Penang, na Malásia. “Temos de os considerar favoritos. As equipas masculinas da China não estiveram na Malásia mas, a avaliar pelas formações femininas, presumo que sejam muito fortes. Há outras equipas que não conheço, que também se podem revelar surpresas. Mas as que conheço já são suficientes”, remata, passando a outras avaliações.
“É a minha segunda vez em Macau, estive aqui há dois anos por um dia, portanto é a primeira vez que fico realmente na cidade”. A viagem, não a remar, mas a “correr”, foi uma passagem num circuito pela Ásia, depois de terminada a competição malaia. “Parecia-se com Las Vegas. Deu-me a sensação de ser uma cidade que vive muito mais de noite do que de dia, parece muito movimentada ao anoitecer. Também vi as zonas de influência portuguesa, que com os casinos e a sua aparência americana fazem uma mistura muito interessante”. Agora, que já tem tempo para andar pelo território e ter uma percepção mais diária da vida da cidade, Jean acha que Macau está segmentada.
“Parece-me uma cidade curiosa, dividida em duas partes: metade turística, que é a parte rica, cara, destinada aos visitantes. E a outra, onde as pessoas não são assim tão ricas e parecem ter uma vida muito diferente”, refere o atleta que quer ver a sua equipa chegar ao pódio, depois de ter ficado nas dez melhores no último Mundial.
Para chegar aos lugares cimeiros, o Canadá vai ter de bater as expectativas – também altas – da equipa australiana. Jeckie assume que o Canadá é das equipas mais temidas da competição, mas que o lema é “dar tudo por tudo” para serem uma das formações medalhadas. “Gostávamos de chegar à final. Conseguirmos uma medalha seria perfeito.” À semelhança de outros, também o país da Oceânia trouxe diversas equipas que se vão defrontar com um choque térmico “considerável”. “Vimos do Inverno, portanto é realmente difícil treinar com este tempo”, sublinha.
A atleta, que trabalha numa empresa funerária e rema só em part-time, reforça que é “preciso mais atenção e cobertura” para que os barcos dragão ganhem fôlego no panorama do desporto internacional.
Macau a ganhar
Quem nunca perde é a cidade escolhida para receber o evento, no entender de Doug Sinclair. Para o árbitro – que entre risos prometeu dar uma perspectiva “neutra” – Macau vai pontuar com a prova. “Receber eventos como este é sempre bom para qualquer lugar. Primeiro porque quem recebe nunca perde, só faz lucro. Segundo porque traz cerca de quatro mil a oito mil pessoas, com todos os membros da equipa, que vão gastar dinheiro durante o tempo que aqui ficam, e que acabam sempre por viajar por aí. E, isso é bom para a economia, porque é dinheiro de outro país que entra nos bolsos de Macau”, enumera o juiz que não vai ter tempo para andar pela – mas levará o que a memória gravou como primeira impressão. “É um lugar agradável, é grande, é colorido. Parece que Macau vive mais de noite do que de dia, durante o dia parece um pouco abandonada, mas durante a noite afigura-se uma cidade muito bonita.” Da arquitectura diz ser “interessante” e considera as pessoas “agradáveis, bem-educadas e amigáveis”, ainda que realce que o “inglês é um problema”. “Mas meu, não deles, porque sou eu quem não fala a língua das pessoas de cá”, ressalva.
Além da língua, Sinclair também enfatiza que existem outras diferenças às quais os participantes vão ter que se habituar. “O maior desafio para os atletas é a humidade, mas até ao momento têm tido sorte porque não está assim tanta, ainda que esteja calor”, sublinha, ressalvando desde logo que isso não pode ser um argumento para os maus perdedores. “Se as equipas locais forem boas neste clima será uma vantagem, as outras equipas poderão perder algumas mais valias por causa disso. Mas é normal, as formações do lugar que recebe a competição têm sempre mais vantagens sob as restantes que vêm de fora.”
Os outros protagonistas
No meio das 181 equipas de 110 clubes, que estarão a competir, Sinclair destaca as de dois extremos. “O Canadá compete sempre a um alto nível, assim como as Filipinas, mas depende da categoria”, salienta, acrescentando que num campeonato do mundo concentram-se os “melhores” e que não há eleitos, uma vez que cada uma das oito categorias tem os seus protagonistas.
Para avaliar os movimentos dos atletas estão os olhos e a atenção dos 35 árbitros que se dispersam por todo o recinto. Uns contam o tempo de cada barco, outros olham para as imagens porque “às vezes são segundos” que fazem o campeão, outros ainda asseguram que os barcos estão em condições para que as equipas seguintes comecem a prova.
Nas mil páginas de regras que regulam este desporto, existe uma que se sobrepõe: ”O espectáculo tem de ser divertido para as pessoas que participam e para aquelas que estão a ver”, vinca Sinclair, reforçando que os árbitros procuram ao máximo cumprir essa directriz. “Se tiver de haver uma penalização para qualquer situação, é muito difícil porque não queremos estragar o espectáculo e o ambiente desportivo.”
À procura do que marca o ambiente andava ainda Chantall. “Cheguei a Macau hoje (ontem), é a primeira vez que cá estou”, explicou a atleta que vai vestir as cores da Alemanha, ainda que seja a China o país onde vive nos últimos tempos. “Trabalho na China agora, em Fuzhou. Sou professora”, conta, mencionando quais são as clivagens que, “à primeira vista” diferenciam Macau do Continente. “A principal diferença tem que ver com o facto de ser uma cidade mais internacional, ainda que não tenha visto muito. A cidade de onde venho tem seis mil pessoas mas não há muitos estrangeiros, não têm restaurantes diferentes ou espaços de zonas diversas.”
