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O dia em que o dinamite chegou à colina

July 27, 2010

Testes de explosões em Seac Pai Van arrancaram ontem. A antiga pedreira que vai dar lugar a 6800 fracções públicas começa a vir a abaixo dentro de dias. Obras Públicas satisfeitas.

Sónia Nunes

Um megafone rouco rasga a humidade abrasadora da antiga pedreira Empimac, em Coloane. No terreno, estão cerca de 70 homens com as testas em pinga. “Número um, pronto. Número dois, pronto. Número três, pronto”, coordena o altifalante num mandarim árido. Em dois, três segundos, um bloco de granito de mais de 70 metros desaparece numa nuvem de pó. Sem grande estrondo. Sem grande tremor. O rasto de pólvora é dissolvido pelas palmas. “Correu bem”, comenta o subdirector dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT). Polícias e bombeiros continuam de binóculos em riste. Foi a primeira vez que em Macau se usou explosivos para aplanar terrenos. Não vai ser a última.

A detonação simboliza, segundo o Governo, que o projecto de habitação pública em Seac Pai Van “entrou oficialmente na fase de construção”. Porém, as obras de infra-estruturas (está previsto que a antiga pedreira ceda espaço a 6800 fracções) só deverão arrancar daqui a nove meses. Até Agosto, a técnica de explosão vai estar em fase de testes e estima-se que sejam precisos oito meses para mandar o granito pelos ares.

“Foi a primeira vez que fizemos uma detonação: mil quilos de explosivos, distribuídos por oito locais. Viram como [o chão] tremeu pouco? Viram como o impacto é bastante pequeno?”, lança Chan Sin Leong, o homem de meia estatura que veio de Pequim para coordenar os trabalhos de explosão na pedreira. “Praticamente não se ouviu nada”, continua, numa procura de cúmplices. O subdirector da DSSOPT vira costas à colina amputada e estende o braço direito a Chan.  “As oito explosões foram efectuadas ao mesmo tempo. Os explosivos foram colocados a uma profundidade de dez metros no granito. Os impactos são bastante baixos. Os tremores são bastante reduzidos”, confirma Daniel Shin Chung Low. Apesar dos elogios à técnica, o engenheiro civil recomenda cautela: “Estamos a recolher dados. Só depois do levantamento das informações é que vamos optimizar o plano. As explosões, a sério, serão iniciadas em Agosto”. A série de detonações deverá ocupar “oito meses” de trabalho, ao ritmo de uma explosão “por semana”, mas o subdirector deixa já uma ressalva. “A calendarização só será definida em concreto depois dos testes e de optimizarmos o plano”, frisa.

Entulho reciclado em aterros

O Governo pretende detonar 180 mil metros quadrados de granito – o equivalente a mais de 24 campos de futebol. A conta parece fácil de resolver. Se para rebentar com 70 metros de pedra são precisos mil quilos de explosivos, quantos explosivos serão precisos no total? “Quantos vamos utilizar ao todo, não posso adiantar agora. Só depois de fazermos um levantamento dos dados. No próximo mês, vamos divulgar essas informações.”

Chan Sin Leong continua entretido com a descrição do equipamento aos jornalistas e está confiante. “Seis baterias, 1800 quilowatts. Os detonadores têm muita potência. Estamos a usar uma rede com tubos eléctricos. É a técnica considerada mais segura. O impacto no meio ambiental é mínimo”, desfia o técnico. A explosão do bloco de 70 metros resultou, no entanto, “num peso bruto de 3500 quilos de pedra e areia”, observa Daniel Shin Chung Low enquanto aponta para o entulho. Os pedaços de rocha rebentada, adianta o director da DSSOPT, “poderão ser reaproveitados para outras áreas, nomeadamente para trabalhos de aterragem”.

A alternativa aos detonadores seriam os bate-estacas. “Causam mais inconvenientes. Fazem mais barulho, as obras são mais demoradas. Esta é a solução mais amiga o ambiente. Estimamos que a projecção da explosão seja apenas 180 metros”, compara o engenheiro civil. O terreno, lembra, está “bastante distante” das áreas residenciais. “Ainda assim, vamos avisar com antecedência os moradores e as empresas sobre a data e a hora exactas das explosões”, realça.

Os explosivos são importados da China e de acordo com a “legislação e as normas de segurança” nacionais. A “carrinha especial” que vai transportar o dinamite “será escoltada pelo Corpo de Polícia de Segurança Pública”. No estaleiro, ficarão “apenas armazenados os explosivos necessários para os trabalhos da semana”. Os contentores serão vigiados “por uma equipa de seguranças, durante 24 horas”. Há também um plano de contingência (haverá, por exemplo, “sempre uma ambulância” no terreno durante as explosões). Mas o subdirector da DSSOPT tranquiliza: “É muito raro haver acidentes”.

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