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Uma internet pública e pudica

June 30, 2010

Fomos testar a Internet gratuita e sem fios disponibilizada desde ontem em 34 locais públicos. Fizemos o download parcial de um filme, navegámos pelas páginas habituais e tentámos alguns endereços mais picantes. Para estes, os caminhos estão vedados e as buscas no Google censuradas: uma pesquisa por “sexo” não devolve qualquer resultado.

Hélder Beja

O Governo lançou, sem divulgar de antemão a lista completa dos locais, um serviço gratuito de internet em 34 espaços públicos e turísticos. A fase de testes da tecnologia começou ontem e está em funcionamento entre as 8h e as 13h. Pela descrição, era fácil adivinhar que o Largo do Senado, ponto turístico por excelência, estaria entre os contemplados com a nova tecnologia WiFi GO. Lá fomos, manhã cedo, munidos de computador portátil – um telemóvel modernaço também serviria, mas queríamos testar a rede a sério – para experimentar o primeiro serviço de internet à borla no território.

O primeiro desafio, em dia chuvoso, foi encontrar onde fazê-lo. Guarda-chuva numa mão e portátil na outra? Faltaria uma terceira para operar a máquina. O edifício do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) apareceu-nos como boa alternativa. Com a biblioteca do complexo fechada – a tal que funciona desde 1929 e está decorada ao estilo da Biblioteca do Convento de Mafra – ficámo-nos pelas escadas cobertas que dão acesso ao pequeno pátio interior onde descansam os bustos de Luís de Camões e João de Deus.

Sentados na pedra, longe do dilúvio e de computador ao colo, estávamos convictos que iríamos, finalmente, poder testar a rede pública. Debalde. Minutos depois, somos informados que não é permito permanecer nas escadas, mesmo na zona lateral por onde ninguém sobe ou desce. Porquê? “São as escadas do IACM”, diz-nos um funcionário. “E não é permitido estar aqui sentado?” Pois, parece que não.

Toca de arrumar a trouxa e seguir novamente para o Largo do Senado. O café da Santa Casa da Misericórdia, bem ali ao lado, talvez recolha os restos da banda que chega a telemóveis e computadores, pensámos. Não é assim e o alcance da internet pública esgota-se antes daquelas quatro paredes. A solução foi mesmo ficar na rua.

Debaixo de uma das arcadas do Leal Senado, ao lado do restaurante Long Kei de que mais nada se soube quanto a destinos e sortes, encostados a uma parede, sem banco coberto que nos salvasse, lá ligámos finalmente o portátil. A rede sem fios WiFi GO ali estava, nas suas duas modalidades: codificada e não codificada.

Porque nos preparávamos para alguns actos menos nobres através daquela internet, tentámos a rede codificada. Sem sucesso, já que a ligação, introduzindo os dados fornecidos – “wifigo-s” no campo destinado ao nome da rede e “wifigo” como palavra passe – nunca foi estabelecida. A rede “wifigo”, não codificada, funcionou à primeira com a mesma password e introduziu-nos na página www.wifi.gov.mo, disponível em chinês, português e inglês.

Antes de começar a navegar, é preciso aceitar os termos e condições de uso, em que o Governo se desresponsabiliza por quaisquer danos ou perdas causadas pelo uso da internet e refere ainda que pode interromper ou ajustar o serviço a qualquer altura sem aviso prévio. Feito isto, temos então 45 minutos de navegação livre pela frente. Livre é como quem diz, porque nem todos os endereços estão disponíveis.

Começamos pelos habituais: gmail.com, facebook.com, youtube.com, endereços de imprensa local e internacional. Tudo funciona na perfeição e a velocidade aceitável. Conferimos as definições da rede: a WiFi Go corre sempre acima dos 200 Kb por segundo, velocidade aceitável para navegar tranquilamente, já não tão a jeito quando os propósitos são outros, como fazer o download de ficheiros pesados – e é natural que assim seja, visto não ser este o objectivo do serviço disponibilizado aos residentes e visitantes da RAEM.

Não obstante, quisemos perceber se a rede está preparada para barrar tentativas de download ilegal de ficheiros, ainda que a baixa velocidade. Através de um dos muitos programas que permitem descarregar filmes, música e outros ‘produtos’, nada feito. A ligação está protegida e não deixa arrancar o download. Mas por outros caminhos, como blogues que disponibilizam obras inteiras através de sites do género www.megaupload.com, dá-se a volta à questão.

Duplo clique, alguns segundos de espera e um filme ao acaso (foi o pouco conhecido “Sombras dos Antepassados Esquecidos” [1964], de Tini Zabutykh Predkiv) estava a caminho do nosso computador. O ficheiro tem pouco mais de 490 megas e, avisa o navegador, em menos de 25 minutos estará do lado de cá. Verificamos a velocidade da rede, que se mantém constante, deixamos o processo correr por uns minutos e, porque não queremos atacar a propriedade intelectual nem ter problemas de direitos autorais, cancelamos o download. A rede pública, comprovamos, serve para baixar ficheiros de todas as classes.

Sexo não existe

Passamos ao motor de busca da Google, para aferir se está tudo em ordem com as pesquisas. Algumas palavras e temas sensíveis devolvem os mesmos resultados que conseguimos noutros computadores de Macau e do mundo. Mas, quando grafamos “sexo”, eis que o inesperado acontece, como ilustra a imagem desta página. “A sua pesquisa – sexo – não encontrou nenhum documento”, diz-nos o Google. É internet pública e pudica, que passa por censurar o resultado das pesquisas do gigante da Internet.

Normalmente, este tipo de redes não permite que os utilizadores acedam a conteúdos pornográficos. O que, tendo em vista os desígnios que serve, é lógico. Mas o que costuma fazer-se – e que na RAEM também foi aplicado – é vedar o acesso aos sites assim que os utilizadores digitam endereços dessa índole ou clicam num link mais maroto. Fazer a triagem – ou, no caso da referida palavra, a completa anulação – dos conteúdos da pesquisa num motor de busca é possivelmente um acto ‘criativo’ no contexto da redes públicas disponibilizadas por governos.

Não estávamos convencidos e tentámos dar a volta à questão. E que tal “sex”, em inglês? Este tipo de medida censória pode ter, como no caso, efeitos curiosos. Os resultados da busca por “sex” são encabeçados pela entrada da Wikipedia sobre o assunto, que explica de um ponto de vista científico o que é e como funciona o sexo. Organismos, machos e fêmeas, espermatozóides e óvulos para quem esteja menos informado. Seguem-se, na lista, resultados como os rockeiros Sex Pistols (e este pode ser um conteúdo a rever, já que bem sabemos dos ‘perigos’ que representa) e ainda “O Sexo e a Cidade”, série que também já deu filme e que está carregada de pecados nova-iorquinos. A mesma busca, feita horas depois noutro computador do território, teve como resultado entradas menos decorosas e a que não vale a pena fazer menção.

A internet pública está longe de ser libidinosa. Quando escrevemos playboy.com no navegador, aparece a mensagem (esta sim habitual neste tipo de serviços) que avisa os cibernautas mais malandros de que “o site que está a [tentar] visitar pode ter material impróprio. Por favor clique no botão ‘atrás’ para voltar à página anterior”. O texto surge em inglês e chinês, para que não restem dúvidas.

Museus, jardins, bibliotecas

No portal dedicado ao novo serviço público, já está disponível a lista de locais onde é possível aceder à internet. As várias bibliotecas, que vão da Taipa a Coloane e a Macau, estão contempladas. Assim como a maior parte dos museus da RAEM, a Casa Cultural de Chá de Macau e as Casas-Museu da Taipa. Quanto aos jardins, será viável apanhar sol na Guia ou na Flora enquanto se responde àquele e-mail pendente. Ou ouvir umas quantas músicas via YouTube no parque de merendas de Cheoc Van ou no parque de Hac-Sa. O Centro Cultural e a praça do Tap Seac também não ficam de fora para os que não passam sem actualizar o Facebook. E a verdade é que são 34 ‘hot-spot’ pouco ‘hot’, mas dão jeito.

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