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As chuvas de São João

June 28, 2010

Depois de muitos anos sem que fossem comemoradas, as festas em honra de São João parecem cada vez mais enraizadas. A terceira edição da efeméride voltou a contar com a presença quase constante da chuva. A diversão e ambiente de festa voltaram também a São Lázaro.

Paulo Barbosa

O arraial de São João já se assinala há 3 anos e, como diz Miguel Senna Fernandes, “não há duas sem três”. No passado fim-de-semana, a festa popular do Bairro de São Lázaro voltou a ter a chuva como protagonista. Mas tal não impediu a animação, com centenas de pessoas a deslocarem-se ao arraial para provarem as tradicionais sardinhas e assistirem à animação musical. O presidente da Associação dos Macaenses considera que a festa teve, este ano, uma maior afluência, “se calhar porque as pessoas já estão a contar com as chuvas de São João, já estão preparadas para isso”.
No primeiro dia do evento, choveu incessantemente, mas o programa foi cumprido, com a actuação de muitos jovens, como o grupo de folclore e os pequenos cantores da Escola Portuguesa, além dos grupos WhyOceans e Tuna Macaense. Ontem, São Pedro deu algumas tréguas à festa, que voltou a ser organizada conjuntamente pela Casa de Portugal, Associação dos Macaenses, Associação dos Aposentados de Macau, Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, e pelo Instituto Internacional. Nas primeiras horas de funcionamento do espaço, eram poucos os visitantes, mas tudo ficou mais composto a meio da tarde, com a ausência de chuva a potenciar os jogos e as várias actuações de música e de dança.
Maria Amélia António faz uma comparação com a edição do arraial de São João realizada no ano passado, onde a chuva foi também protagonista. “Ontem [sábado], a chuva não parou um minuto, só parou quando tudo acabou, a partir da meia-noite. Apesar disso, conseguiu cumprir-se tudo o que estava programado, com algum sacrifício, nomeadamente dos miúdos, que acabaram por sair daqui muito molhados. Em termos de pessoas, houve sempre bastante gente a assistir. Tudo o que era comidas funcionou muito bem. As comidas esgotaram-se, portanto, toda a gente vendeu o que tinha para vender”, resumiu ao PONTO FINAL.
A presidente da Casa de Portugal reconheceu que “notou-se menos movimento nas bancas do artesanato”, mais afectadas pela chuva, porque não tinham protecção para a chuva. “Essas talvez tenham vendido menos do que no ano passado”, admitiu. Nas outras havia toldos, onde as pessoas podiam, depois de comprar comida, sentar-se e comer, protegidas da chuva. Também protegidos da chuva, no interior do Albergue da SCM, os espaços da Lines Lab e da Bloom tiveram muitos visitantes, com a pequena livraria a tentar escoar as suas reservas, através de descontos de 50% sobre o preço de capa dos livros.

Mais toldos e abrangência

No próximo ano, e dada a recorrência da chuva, a organização está a ponderar a colocação de mais toldos, embora com a preocupação de não estragar o cenário. “Ter os toldos é fácil. Mas a escolha deste sítio tem a ver com a envolvência arquitectónica, obviamente que isso terá de estar minimamente visível”, disse Miguel Senna Fernandes. A cobertura poderia ser, nesse sentido, “contraproducente”, comenta o presidente da Associação dos Macaenses.
Maria Amélia António fala na possibilidade de utilização de mais toldos altos e intervalados com zonas onde não estão as bancas, uma hipótese em ponderação. “Dantes não tínhamos o plástico, passámos a ter plástico no ano passado, não tínhamos o toldo alto, este ano avançámos com isso”, referiu.
Para o próximo ano iremos avançar com mais soluções do género “Até porque não temos linha directa para o São Pedro”, brincou a presidente da Casa de Portugal. “Ou então, é escrever às Obras Públicas para ver se há uma hipótese de empurrar as casas para ficarmos com mais espaço”, secundou Miguel Senna Fernandes.
O responsável pela Associação dos Macaenses pretende que a festa continue a crescer em futuras edições, através de um maior envolvimento da comunidade chinesa, que é um “desiderato ainda não cumprido”. Os organizadores têm vindo a tentar contar com a participação dos Kaifong [as associações de moradores locais], para “vincar que a festa é de Macau, com elementos locais, que a grande ambição é ter elementos de Macau, não só portugueses”. Um esforço que continuará a ser feito, garante Miguel Senna Fernandes.
Dia feriado nos tempos da administração portuguesa (mas apenas na península de Macau e não das ilhas da Taipa e de Coloane, onde o feriado municipal acontecia a 29 de Junho), o 24 de Junho foi declarado como Dia da Cidade de Macau e São João como seu padroeiro devido uma  tentativa de ocupação do território. Isto porque um tiro disparado da Fortaleza do Monte por um padre jesuíta, de apelido Ró, acertou no paiol da armada holandesa, algo que foi atribuído à protecção de S. João, passando este santo a ser o padroeiro da cidade.
A efeméride era tradicionalmente comemorada com a realização de chás gordos e das fogueiras na praia de Hac Sa. Mas as festas foram interrompidas em 2000 (desde então, o dia da RAEM celebra-se a 20 de Dezembro, a data da transferência de poderes) e retomadas em 2007. Então, por iniciativa de várias associações de matriz portuguesa, passou a ser realizado um arraial de São João em Macau.

Casa de Portugal em São Lázaro?

“O espaço de São Lázaro é um espaço com que sonho para a futura sede da Casa de Portugal”, declarou Maria Amélia António à Rádio Macau , em entrevista emitida no passado sábado. Começando por dizer que estava a pensar num um espaço amplo, junto à Associação dos Criativos do Bairro de São Lázaro, Maria Amélia António acabou por concretizar: “Estamos a falar no prédio onde ainda funciona um serviço do Instituto de Acção Social de atendimento de toxicodependentes, que penso que não será para ficar ali e que seria um sítio extremamente útil para nós, porque ia alargando ali toda uma base grande”, que inclui o Albergue da Santa Casa da Misericórdia e a Associação dos Criativos do Bairro de São Lázaro (espaço Fantasia 10).
A presidente da Casa de Portugal referiu-se também ao caso Luís Amorim, defendendo que “o Governo deve tomar iniciativas para averiguar como funcionaram serviços como a Polícia de Segurança Pública e a Polícia Judiciária”. Na sua opinião, a averiguação tem um carácter de urgência, “Quanto mais tempo se dilata isto, pior. É exigível do ponto de vista da família, que tem o direito de ver essa investigação feita, é algo que se deve à memória de Luís Amorim. Por outro lado, é a defesa das próprias instituições de Macau que exige que isso se faça”, afirmou à Rádio.

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