Japão e Macau ligados por blogue
Deu nas vistas ao protagonizar trocadilhos irresistíveis entre o japonês e o português em “Sabroso, Nunca?”. Lina Shigemitsu declara-se apaixonada por Macau, e usa a pintura, a fotografia, os blogues e até a filosofia para demonstrar essa paixão. O seu objectivo é mudar a imagem que os japoneses têm de Macau.
Paulo Barbosa
Aos 26 anos, Lina Shigemitsu, planeia fazer a ponte entre o Japão e Macau. A nipónica esteve em destaque ao participar recentemente na peça “Sabroso, Nunca?”, com a qual o grupo de teatro Dóci Papiaçám se apresentou três vezes no grande auditório do Centro Cultural de Macau. Muito provavelmente, Lina tornou-se na primeira japonesa a actuar numa peça dita maioritariamente em patuá. E é também a única natural do país do sol nascente que está a escrever um blogue bilingue – em japonês e inglês – que revela inúmeros aspectos da cultura macaense e das pessoas que dela fazem parte.
Macau é uma residência improvável para uma japonesa que foi viver para Sydney quando tinha apenas oito anos. Mas foi na Austrália, onde está radicada uma significativa comunidade macaense, que a artista entrou em contacto com a cultura do território, que desconhecia quase completamente. Tal como acontece muitas vezes, a descoberta cultural aconteceu através de um romance. Há meia dúzia de anos, Lina Shigemitsu conheceu José Pedruco Achiam, um macaense nascido na Austrália, com quem contracenou em “Sabroso, Nunca?”. Através do namorado, teve oportunidade de visitar Macau e foi um amor à primeira vista.
“Gostei realmente da cultura, tive a oportunidade de conhecer muitas pessoas macaenses e fiquei envolvida com a cultura macaense, formada por uma população rara, que está prestes a extinguir-se. Pensei que seria uma grande oportunidade para poder fazer parte dessa cultura. E não foi preciso muito tempo para me apaixonar pelas pessoas macaenses, que são uma mistura entre portugueses e chineses”, conta a artista.
O fascínio pelos macaenses leva Lina a não poupar nos elogios e quando descreve os macaenses fala em “pessoas muito bondosas, hospitaleiras e afáveis”. A japonesa encontra um renovado interesse na observação da maneira de ser dos macaenses e pelo “facto de falarem mais de duas ou três línguas e de as misturarem”. “Por outro lado, adoro a comida. Dizem que a comida portuguesa e a macaense são as melhores do mundo. Quando combinadas resultam na cozinha macaense”, descreve. Em síntese, sentiu-se “muito bem-vinda” em Macau e foi regressando em muitas ocasiões, pelo menos três vezes por ano, dividindo o seu tempo entre a RAEM, Hong Kong, Tóquio e a Austrália.
Em Macau para viver
Formada em arquitectura paisagista por uma universidade da maior cidade australiana, Lina Shigemitsu viveu durante um ano em Macau, onde trabalhou no ateliê de Carlos Marreiros. O interesse por um sítio onde “a vida é fácil, fazendo lembrar a Austrália” foi crescendo e a japonesa voltou em Abril, de armas e bagagens. Regressou para morar e com novos projectos em vista. Um deles já se realizou, ao pisar pela primeira vez os palcos enquanto actriz. Lina está mais habituada às passerelles – já foi modelo – e a experiência de “contracenar com pessoas de diferentes formações, como médicos, professores e até actores profissionais” foi marcante. Por entre elogios a Miguel Senna Fernandes, que considera “um grande encenador”, a japonesa espera repetir o feito noutras peças dos Dóci Papiaçám.
Entretanto, vai marcando uma forte presença na blogosfera, onde alimenta três blogues sobre Macau, todos com textos em inglês e japonês. Dos três, aquele que mais sistematicamente refere o território é Macau Contrast (http://contrast-artoflife.blogspot.com), mas há também outros ângulos do território focados em Soul II Soul (http://soul-2-seoul.blogspot.com) e em Love Contrast (http://lovecontrast.blogspot.com).
Em linha desde a vinda de Lina Shigemitsu para Macau, em Abril, o blogue Macau Contrast procura, essencialmente através da fotografia, “captar os momentos e os sentimentos” e tem a ver com os contrastes “entre sombra e luz, este e oeste, o velho e o novo”. As imagens exibidas são sobretudo sobre a cultura macaense e sobre eventos passados em Macau, com destaque para todos os preparativos da peça “Sabroso, Nunca?”, mas também de outros eventos organizados por macaenses, como um baile de máscaras.
O blogue visa “fazer com que as pessoas japonesas conheçam o outro lado de Macau, para além da faceta relacionada com o jogo, que já surge nos meios de comunicação”. O conhecimento de Macau entre os nipónicos é reduzido, considera a artista, para quem o território “continua a ser conhecido no Japão por coisas relacionadas com o submundo”. Alguns japoneses pensam mesmo “que é um sítio algo perigoso para visitar”, mas a imagem está a melhorar “porque os media têm reportado o desenvolvimento da indústria dos casinos”.
Mas, “tendo em conta que os japoneses que conhecem Macau, que visitaram ou têm amigos aqui mudam de ideias”, Lina Shigemitsu diz que quer “ajudar a mudar essa visão e mostrar que Macau não é só jogo e que há um lado muito profundo”. Até agora, está a fazê-lo através do Macau Contrast e também, de forma mais conceptual, em Soul II Soul e Love Contrast, onde mostra fotografias sobre a vida quotidiana, às quais acrescenta pensamentos filosóficos, principalmente de inspiração budista, combinando a fotografia e a filosofia, dois dos seus grandes interesses.
O retorno por parte dos leitores, principalmente os de língua inglesa, tem sido animador. Face às questões de pessoas que querem saber mais sobre Macau, Lina planeia agora incluir no seu blogue mais detalhados conselhos de viagem ao território, incluindo informações sobre bares e restaurantes.
Não revelando pormenores por enquanto, a japonesa tem ainda um projecto de lançar uma “empresa de entretenimento” que envolverá o Japão, Hong Kong e Macau, naquele que será mais um dos pontos de encontro entre estas culturas asiáticas. O outro projecto a desenvolver em Macau é a pintura, onde Shigemitsu pretende ver uma exposição com os seus trabalhos artísticos.
