Recém-nascido levado para a esquadra
Uma imigrante ilegal de nacionalidade filipina e o seu filho recém-nascido saíram ontem do hospital, com alta médica, para serem imediatamente conduzidos à esquadra da polícia. O bebé nasceu com problemas de saúde e esteve durante algum tempo a ser assistido por incubadora. Mesmo assim, passou ontem tarde e noite nas instalações da polícia, que diz ter por princípio não separar mães de filhos.
Maria Caetano
Um recém-nascido de apenas sete dias e a mãe deste, uma imigrante filipina em situação ilegal, foram ontem conduzidos à esquadra da Polícia de Segurança Pública, imediatamente depois de ambos terem recebido alta do Centro Hospitalar Conde de São Januário onde a mãe, então grávida, procurou apoio médico após uma hemorragia no passado dia 18 de Maio, acabando por dar à luz.
Em todo o tempo de gravidez, foi a segunda vez que a mulher procurou acompanhamento médico, aparentemente com receio de ser recambiada para as Filipinas por se encontrar em situação ilegal. Segundo o pai da criança, também imigrante ilegal que falou anonimamente ao PONTO FINAL, a razão estava também em não terem dinheiro para suportar os custos da consulta – ambos se encontram desempregados. O resultado terá sido uma anemia grave para a progenitora e um problema de tensão arterial alta para o nascituro, que após o parto foi assistido em incubadora.
Mãe e criança receberam ontem alta, cerca das 15h, e imediatamente foram conduzidos à esquadra, onde permaneceram durante toda a tarde e início da noite para “preencherem documentos”, de acordo com a polícia, que encara como uma situação normal o facto de ter tido nas suas instalações um bebé de meros sete dias, de saúde frágil e acabado de sair de uma incubadora. Não foram procurados os serviços de uma assistente social. Segundo o departamento de informações da PSP, porque a cidadã filipina não o requisitou e porque se sabia que ela “ia ficar livre”.
“A polícia não conseguiu encontrar o pai”, diz a PSP. Também imigrante em situação ilegal, cuja identidade a mãe não terá revelado para que este não seja recambiado também pelos Serviços de Migração da RAEM, este alega que a mulher se queixou do forte ar condicionado das instalações e de que a criança esteve sem comer, dado a mãe não poder amamentar e não ter leite próprio para recém-nascido junto de si – ou qualquer familiar ou amigo que lho pudessem levar.
Mas, segundo a PSP, a imigrante “não pediu nada. Estava tudo bem. A polícia forneceu fraldas e tudo”.
Viagem adiada
A mulher de nacionalidade filipina encontra-se há cerca de dois anos em Macau, onde trabalhou como empregada doméstica. O companheiro desta não esclarece como ambos ficaram sem trabalho ou há quanto tempo estariam já em situação ilegal. Argumenta, porém, que se preparavam para deixar o território para que a criança nascesse nas Filipinas. A mãe deveria apanhar um voo com destino ao país de origem no passado dia 19, garante, depois do casal ter conseguido juntar dinheiro suficiente para um bilhete de regresso.
No entanto, uma hemorragia levou a que recorresse de urgência aos serviços do hospital, acabando o parto por acontecer no dia 18 – véspera da alegada viagem.
Segundo a polícia, a cidadã filipina estava já notificada pelos Serviços de Migração, devendo apresentar-se regularmente nas instalações das forças de segurança. “Não se tem apresentado. Se calhar, devido à gravidez”, admite a PSP, que ontem revelou ao PONTO FINAL que não pretendia deter a imigrante ilegal.
“Em princípio, a gente não vai detê-la. Amanhã volta à PSP e depois vai à Direcção dos Serviços de Identificação para registar a criança”, revelou o departamento de informações.
A mulher deverá receber uma nova notificação, para que passe a apresentar-se na esquadra uma vez por semana. Assim, “até que o assunto seja resolvido”.
“A gente nunca separa a mãe do filho”, garante a polícia, atendendo ao facto de os profissionais de saúde desaconselharem – e, inclusivamente, algumas companhias aéreas recusarem – a viagem aérea de crianças com apenas algumas semanas de vida.
“Se a criança só puder voar depois de dois meses, então a mãe fica em Macau enquanto a criança não puder voar”, garantem as forças de segurança, asseverando que “a polícia vai proceder assim”.
O caso da imigrante ilegal será notificado ao Consulado Geral das Filipinas em Hong Kong. Entretanto, esta pode pedir assistência social, algo que, de acordo com a polícia, a mulher não fez até agora.
