O homem que via demasiado
São 138 imagens, algumas inéditas, que repassam a carreira de Marc Riboud, na China mas muito além da China. Do Médio Oriente a África, da Europa aos EUA e à Indochina. O fotógrafo francês viu e registou muito através da sua lente. Jean Loh, curador, apresenta “O Instinto do Momento”, mostra para ver a partir amanhã e até 1 de Agosto, que revela o modo como o companheiro de Cartier-Bresson na Magnum “olha para as coisas e pessoas”.
Hélder Beja
Marc Riboud apaixonou-se em 1957. Não por uma mulher mas por aquela cidade portuária da China onde chegou vindo do sul. Xangai era, como é, um lugar entupido de gente, cheiros, estruturas mais ou menos modernas que gizavam a vida das pessoas. O fotógrafo francês, hoje com 86 anos, foi dos primeiros profissionais europeus a conseguir entrar na China para fotografar, então já como repórter da agência Magnum, fundada por Henri Cartier-Bresson e Robert Capa.
A partir de amanhã e até 1 de Agosto, o Museu de Arte de Macau (MAM) mostra em duas salas a aventura chinesa de Riboud, quase sempre a preto e branco, que se repetiu mais de 20 vezes e captou os anos de Mao Zedong. Mas “O Instinto do Momento: Retrospectiva de Marc Riboud” vai muito além, retratando as jornadas deste antigo engenheiro pelo Vietname e Camboja, o acompanhamento que fez de vários processos de independência dos países africanos, a Índia, o Afeganistão e o Irão, a clássica Paris e o Maio de 68,uns EUA combalidos pela Guerra do Vietname.
Entre as 138 fotografias que compõem a exposição, que também apresenta um documentário sobre o artista, estão paisagens, mulheres, fotografias abstractas, retratos de Mao Zedong e Winston Churchill. E também alguns dos mais icónicos trabalhos de Riboud, como “O Pintor da Torre Eiffel”. Sobre a fotografia, Jean Loh, curador da mostra, conta ao PONTO FINAL que “quando Marc chegou a Paris, vindo de Lyon, foi encontrar-se com Cartier-Bresson, fotógrafo que admirava, e Bresson desafiou-o a fazer umas fotos com uma máquina Leica”. Riboud só tinha um rolo e, no MAM, estão as provas de contacto das fotos que tirou nesse dia, junto à Torre Eiffel. “Ele percebeu que havia gente a pintar a estrutura, sem equipamento de segurança, e subiu também. Só tinha uma lente de 50 milímetros e não podia fazer qualquer tipo de zoom ou close-up. Começou a falar com este pintor que vemos na foto, ele ainda se lembra do nome, chama-se Azou, trabalhador francês típico dessa época, a fumar um cigarro. Provavelmente o tipo começou a exibir-se depois de algumas fotos e no final o que temos é esta imagem que ficou”, diz.
Outra das fotografias que merece atenção – e são tantas, neste caso – é a que mostra uma mulher fitando guardas com uma flor na mão. Data de 1967, durante a marcha em Washington, junto ao Pentágono, pela paz no Vietname, onde os guardas bloquearem os estudantes. “Esta rapariga, chamada Jane Rose Kasmir, foi registada por Riboud. Ele fotografou durante todo o dia, com 20 mil pessoas a manifestarem-se. No seu último rolo, quase nas últimas fotografias que pôde tirar, esta rapariga aparece de entre a multidão para oferecer uma flor aos soldados. É muito simbólica”. Como aliás, outras das que compõem esta completa retrospectiva.
- Como conheceu Marc Riboud e o seu trabalho?
Jean Loh – Nasci em Saigão [actual Ho Chi Minh], os meus pais são de Xangai mas sou francês e conhecia o seu trabalho há muito tempo. Comecei a coleccionar fotografia há mais de 20 anos e um dos primeiros trabalhos que comprei foi de Riboud. Já amava o seu trabalho antes de o conhecer, em Pingyao, no Festival Internacional de Fotografia mais importante da China, em 2001 ou 2002. Ele foi o primeiro mestre de fotografia a vir ao festival e a mostrar o seu trabalho. Tornámo-nos amigos e sempre que volto a Paris vou visitá-lo. O seu estúdio tem umas quatro mil provas de contacto, caixas cheias identificadas com diferentes lugares, cidades. É incrível. Nos últimos anos senti que ele estava a envelhecer e que era o momento de fazer uma retrospectiva do seu trabalho, aqui, na China. Comecei a falar-lhe sobre isso, ele concordou, e parti para o contacto os museus. Primeiro com o Museu de Arte de Xangai, porque foi a sua cidade favorita. Fotografou-a mais que a qualquer outra na China.
A princípio a retrospectiva seria só sobre a China, mas depois pareceu-nos mais importante mostrar os seus trabalhos também noutros países, revelar o seu estilo. Há coisas tão interessantes, que vão além da China, as suas fotografias clássicas de França, o Médio Oriente, a Índia, o Japão, é tudo muito importante. No fim, acabou por transformar-se numa grande retrospectiva.
- Como foi seleccionar este material?
J.L. – Não foi fácil escolher as imagens. Ele mandou-me primeiro a sua selecção, depois fiz a minha, e o museu de Xangai também participou da escolha, mas é claro que por vezes a selecção deles tem algumas considerações políticas. Depois de negociações, chegámos a uma selecção final. Pensávamos nós, porque o Marc continuou a encontrar novas fotografias e a pedir para que fossem feitas alterações. E o museu a dizer que não, que era impossível, porque na China é preciso submeter os conteúdos à censura. E depois disso não é possível continuar a alterar. Mas no fim lá conseguimos um equilíbrio, e uma lista final de trabalhos. A surpresa foi que, quando as fotografias foram envidas para Hong Kong, descobrimos que algumas que deveriam estar não estavam, e que outras que estavam não deviam ter vindo (risos).
- E há inéditos, certo?
J.L – Há várias fotografias nunca expostas antes. Desde 2000, Marc decidiu fotografar com cor. Mas antes disso, em 1984, Riboud já experimentara abandonar o preto e branco, numa viagem que fez ao Tibete. Essas imagens estão aqui e nunca tinham sido mostradas na Ásia. Além disso, há duas de Hong Kong, de 1997, por exemplo. Quis integrar alguma coisa de Hong Kong e Macau, mas ele não conseguiu encontrar nada de Macau.
- Nunca cá esteve?
J.L. - Esteve, sim. Mas não sei porque é que não tirou fotografias. Julgo que ele estava tão apaixonado pela China que considerava que àquela época Hong Kong e Macau não eram China. Era tudo tão colonial, tão britânico ou português, que ele não se interessou.
- Como foi a primeira vez que Riboud entrou na China?
J.L. – Foi através de Hong Kong, ele está sempre a relembrar essa história. Teve de atravessar a pé de Hong Kong para Shenzhen, fazer uma ponte a pé com a sua bagagem. E ele conta que havia as duas bandeiras, uma de cada lado da fronteira. Ele é fascinado pela China, sempre foi. Esteve na Índia por um ano e só falava de ir para a China. Toda a gente lhe dizia que era impossível, que nunca conseguiria um visto. Quanto mais lhe diziam isso, mais ele queria entrar. Finalmente conseguiu um visto, a começar a 1 de Janeiro de 1957. Nessa data estava a atravessar por Hong Kong, não quis perder um dia que fosse. Acabou por renovar o visto quatro vezes e ficar quase cinco meses na China, tirou imensas fotografias.
- E fotografava aquilo que queria?
J.L – Ele não era estúpido, sabia que estava a trabalhar para a Magnum, sempre sob vigilância, não fotografava tão livremente quanto queria, mas tinha os seus modos de contornar isso. Nos anos 80, quando o sistema começou a ficar mais liberal, algumas revistas chinesas publicaram as fotos de Riboud referentes às décadas anteriores, e todos ficaram boquiabertos. Quando olhavam para as fotos de Riboud, sentiam que estavam muito longe daquela técnica, eram de uma escola onde a pose era tudo, enquanto que Riboud fotografava o que ia acontecendo.
- Nesse sentido teve quase uma dupla importância, documental e técnica.
J.L. – Sim, foi muito importante para mostrar a China e para os fotógrafos chineses. Todas as imagens dos anos 50, 60, 70, são extremamente naturais. Nenhum fotógrafo chinês daquela época tiraria fotos como estas, porque estavam a fazer propaganda. O modo natural como fotografou as pessoas, os soldados… sempre sem que estivessem a posar, como toda a gente fazia. Os fotógrafos chineses aprenderam com ele. Espero poder fazer um álbum muito completo com todos os trabalhos do Marc na China, não tanto dos tempos modernos, em que a China se foi tornando mais desinteressante, mais parecida com todos os outros países. Entre os anos 50 e 70 encontramos as melhores fotos de Marc Riboud no país, e há muito para descobrir nos seus arquivos.
- O seu trabalho passa por divulgar a fotografia chinesa ou a feita na China?
J.L. – Comecei como coleccionador, estudei, li, fui a galerias, museus, leilões e aprendi a compreender a fotografia. Quando cheguei à china há dez anos, e pela primeira vez, percebi que havia muito bons fotógrafos mas quase nenhuma galeria ou museu a fazer qualquer coisa com o seu trabalho, achei que devia ajudá-los e promovê-los. É o que faço há uns seis ou sete anos. Quando há fotógrafos estrangeiros a trabalhar na China, e se tenho a oportunidade de mostrar os seus trabalhos ao público chinês, também o faço. Sou um facilitador entre as duas culturas.
