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Música para rir e levar a sério

May 28, 2010

São músicos profissionais de orquestra mas têm o outro pé no humorismo. Um libanês e três espanhóis apresentam “Paganini”, onde as criações de Vivaldi ou Mozart se econtram com a comédia. “Estamos a reconciliar a música clássica com os jovens”, considera Ara Malikian, mentor do projecto em cena esta noite no Centro Cultural. A qualidade do que tocam não sai afectada, garante.

Hélder Beja

Há aquela ideia de que os concertos de música clássica podem ser aborrecidos, elitistas, coisas de gente entendida. Nem todas as pessoas a têm mas os próprios músicos de “Pagagnini”, espectáculo que esta noite sobe ao palco do pequeno auditório do Centro Cultural de Macau (CCM) pela segunda noite consecutiva, também andavam tristes com a cena musical. Rir, já se sabe, é o melhor remédio.
“Levamos vários anos no mundo da música clássica, e estávamos um pouco tristes, por ver que o nosso público era sempre o mesmo, que um concerto de clássica quase nunca tinha gente jovem”, começa Ara Malikian – violinista libanês que acabou a viver em Espanha “por casualidades da vida”. Saiu do Líbano aos 15 anos, esteve na Alemanha, Inglaterra, França. “Quando descobri Espanha, fiquei encantado e decidi ficar.”
Malikin é o mentor do projecto associado à companhia de teatro madrilena Yllana e explica a génese de “Pagagnini”: “Queríamos tornar esta música atractiva aos jovens. Há quatro anos que estamos em sucessivas digressões por todo o mundo e é uma surpresa ver que o espectáculo tem funcionado tão bem”.
“Paganini” é uma maneira “de levar a música clássica a um público que, em princípio, não a ouviria, uma forma de livrá-la dessa exclusividade que parece dizer que o público que assiste a concertos de música clássica tem de ser entendido na matéria”, completa Eduardo Ortega, também violinista. “A mensagem é que com a música toda gente se pode divertir, não é preciso ser-se especialista, apenas ter vontade de passar um bom bocado. A música é universal. Cada um recebe-a de determinada maneira, não é exclusiva de ninguém. É um veículo de expressão entre pessoas.”
A produção pega em peças clássicas de compositores como Vivaldi ou Mozart e cruza-as com a comédia. “Nunca o tínhamos feito e não sabíamos nada sobre a comédia em palco. Foram as pessoas da companhia Yllana que nos dirigiram nessa parte. Fomos aprendendo a ser um pouco palhaços e, agora, já levamos 600 apresentações deste espectáculo, que são a melhor escola”, explica Gartxot Ortiz, violoncelista que, nesta mas noutra vida, foi também dono e cozinheiro de um restaurante em Pamplona.

Qualidade mantém-se

As gargalhadas são prato forte de “Pagagnini” mas, asseguram os artistas, toca-se a sério neste espectáculo. “Se alguém se ri com a música, a condição é que a música seja de muito alto nível, caso contrário é fácil criticar este tipo de espectáculo. Se estamos aqui para nos rirmos do mundo da música clássica e tocamos mal, não faz sentido. Ao montar este espectáculo, sabíamos que a parte musical tinha de estar ao melhor nível do que podemos fazer”, prossegue Ara Malikian.
Só que, admite, “há um antes e um depois” de “Pagagnini”. “Como músicos, aprendemos sempre a concentrar as atenções no instrumento, na música, nos dedos, no braço. Nunca pensamos no resto do corpo, na presença cénica.” Este diálogo com o teatro fê-los aprender, crescer como artistas. “Já não somos só músicos, tão pouco pretendemos ser actores, mas já sabemos muito mais sobre como nos comportar em palco.”
Em 2008, “Pagagnini” venceu o Editor’s Award no reputado Festival Fringe, em Edimburgo. E não é a primeira vez que viaja até à Ásia. Além do Japão, os músicos já actuaram em Hong Kong. “Todo o público tem recebido muito bem a ideia. Já estivemos em Hong Kong antes, e o público chinês é um dos melhores”, afiança Eduardo Ortega. Sobre o modo como outros músicos profissionais reagem à sátira do concerto clássico, Ortega brinca: “Ninguém nos insultou, até agora, mas suponho que haverá opiniões para todos os gostos. Os músicos da minha esfera apreciam o projecto e até gostavam de participar ou ter projectos deste género”.
Ao fim de quatro anos na estrada, também por toda a Espanha, EUA e Holanda, Malakian não tem dúvidas de que o trabalho está a dar frutos. “A nossa grande alegria é ter sempre gente de todas as idades nos concertos, muitas crianças até. De um certo modo, estamos a reconciliar a música clássica com os jovens.”

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