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Danças que contam um país

May 28, 2010

Dançam mambo, bolero, salsa, rumba, e quando dançam é como se o mundo fosse acabar. A Companhia de Ballet Rakatan chega de Cuba com um espectáculo que traça os passos daquela ilha. As mulheres e o homens guiados pela coreógrafa Nina Guerra mostraram-se à imprensa num ensaio de ancas remexidas.

Hélder Beja

Transpiram os dançarinos, transpira o público. Nem eram precisos o calor e a humidade do território para que desta vez fosse assim: a Companhia de Ballet Rakatan chega de Cuba com um espectáculo que entornará sensualidade pelo grande auditório do Centro Cultural de Macau (CCM) nas noites de hoje e amanhã.
A banda e os 12 dançarinos sob as ordens de Nina Guerra, coreógrafa, continuaram ontem, na presença dos jornalistas, o último ensaio geral antes do espectáculo agendado para hoje. Às vezes era um, dois em palco. Noutras uma dúzia. Faltavam os elementos de guarda-roupa, os cenários que, a valer, mostrarão imagens de várias partes de Cuba. Mesmo assim, deu para perceber o potencial de bailarinas e bailarinos que dançam com um sorrio nos lábios e o diabo no corpo.
“A população cubana adora dançar. Em Cuba, tudo é dança, movimento, toda a gente dança”, começa a coreógrafa Nina Guerra, na conversa que procedeu mais um limar de arestas da produção.” Este espectáculo apresenta o desenvolvimento da dança e da música cubana. Não é fácil concentrá-la toda num único show, porque é longa”, explica.
Os Rakatan sabiam que era preciso começar lá por trás, “pela danza, danzon, danzonete, cha cha cha, mambo, bolero, rumba, son”, enumera a coreógrafa. “Nos anos 50, houve um grande movimento de músicos, foi uma época de ouro em Cuba. Tentou-se fazer boa música, com estilos diferentes”, lembra. Cuba “é um sítio muito cosmopolita”. Ao longo dos anos, chegaram pessoas da Jamaica, muitas de África, de Espanha. “Com tantos elementos, recebemos muita informação sobre diferentes tipos de música”, diz Guerra.
Para montar este espectáculo que agora se apresenta na RAEM, e que corre diferentes países desde 2007, a coreógrafa seleccionou diversas peças que vão mostrando o que aconteceu ao longo dos anos. “Conservámos todos os passos originais e estudámos por dois ou três anos. Visitei todos os lugares onde ainda existem pessoas que sabem estes passos, o que não foi fácil, porque são pessoas idosas, que não dão informação, foi preciso gastar tempo em Baracoa, em Santiago, em Camaguey.” O importante estava nas raízes.

Da rua à corte

“A rumba, que é uma dança de rua, tem uma série de sinais corporais, em que homem e mulher comunicam”, prossegue Guerra. É como um ‘flirt’ que pudemos ver nos movimentos dos bailarinos que ontem ensaiaram e é, ao mesmo tempo, “uma brincadeira”, diz a compositora. Já o ‘cha cha cha’ é mais elegante, “mais para a classe elevada”. A rumba está mais presente nas ruas, nas zonas velhas das cidades. “Eles não tinham dinheiro para ir ao grandes salões, então vestiam os mesmos fatos elegantes mas feitos com materiais mais baratos e faziam a festa à sua maneira.”
O ‘danzon’ ou ‘danzonete’ é anterior, é uma espécie de imitação das danças dos salão francesas. “Os franceses que vinham da Jamaica traziam para Cuba a ‘contradanza’, muito elegante, da corte. Os negros queriam parecer-se com as pessoas que os compravam, então vestiam-se com os mesmos trajes e dançavam dessa maneira. A ideia era ser elegante: era a tumba francesa.”
Nos anos 1970 chega a salsa, “quando se começaram a mexer as ancas”, refere. “Antes era mais elegante, mais ‘cha cha cha’, mas a população queria dançar mais perto das mulheres. Os homens queriam chamar a atenção das mulheres através da dança.”
Depois de um repasso histórico do baile cubano, os Rakatan partem para uma segunda parte em que mostram o que foi feito com todas as influências recebidas, cruzando-as com a guajira, música local, feita pelos ‘campesinos’ (camponeses). “Usavam a guitarra espanhola mas criaram uma melodia cubana. A guajira teve muitos estilos, vários muito suaves que são a realidade de Cuba”, garante a encenadora.
A segunda metade da produção dá-lhe o toque actual. “O modo como fazemos as coisas é interessante porque é fresco, mas a base é tradicional, antiga. Em geral, o espectáculo também é contemporâneo”, continua Nina Guerra.

Ser original e prezar o passado

O que os Rakatan nunca quiseram foi fazer o mais fácil, pegar nos clichés exóticos da ilha. O elenco, todo atlético, ensaia duro. “São oito horas de trabalho diário com muita disciplina. Temos aulas de tudo, de ballet, de dança contemporânea, teatro”, conta Nayara, uma das bailarinas.
E Nina Guerra garante que é assim porque “há muitos espectáculos cubanos mais comerciais, e isso é fácil. É fácil encontrar o estilo em Cuba para fazer esse tipo de produção”. A coreógrafa quer “ajudar as pessoas que não sabem nada sobre Cuba a compreender o que se passa”. Porque, garante, a dança está próxima da vida dos cubanos em todos os aspectos, até politicamente. “Com a revolução cubana [1959] criaram-se estilos de dança mais livres, até com influências de Moçambique. Quando as pessoas se sentem felizes, criam novos estilos. A população quer sempre mais”, assegura. Foi por isso que nasceu, por exemplo, a ‘rueda de casino’. “Antes dos anos 50 havia os casinos, depois muitos casais a dançar sozinhos.” Juntaram-se e resolveram a situação.
Se lhe falamos dos Buena Vista Social Club, refere que “são os originais, são parte deste caminho”. “Sinto-me muito orgulhosa das pessoas dos Buena Vista Social Club, apesar de os terem descoberto pouco antes deles desaparecerem. Eles são uma parte da nossa cultura, e eram amados por isso. Tinham bons cantores, bons músicos”. Mas lembra que também agora há gente com talento: “Temos jovens muito bons, como o nosso grupo. São músicos de Santiago, onde a música é mais tradicional. Amo o som tradicional, como os Buena Vista. Porque em Havana hoje já se toca mais jazz, os músicos querem dar mais e a certo ponto é demasiado”.
Rakatan que, na verdade, deve o nome ao palco – “é porque, quando ensaiamos, dizemos sempre ra-ka-tan, é um ritmo – é difícil de qualificar. “Não somos populares, não somos folclóricos, não somos exactamente contemporâneos.” São, de certeza, cubanos em estado de ebulição.

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