Retrato de um viajante em fuga
George Chinnery não foi apenas um dos principais pintores de Macau, e um dos mais importantes retratistas do seu século. Foi, sobretudo, um homem em fuga, perseguido por dívidas e um casamento não desejado, e que encontrou refúgio a Oriente. A história do autor, e também a história do território, evidenciam-se nas 150 obras que o Museu de Macau apresenta a partir de amanhã. Mas está lá também o traço do artista, para descobrir nos 185 anos da sua chegada ao sul da China.
Maria Caetano
Macau foi por 27 anos “refúgio de um viajante”, George Chinnery, autor de quem o Museu de Macau exibe a partir de amanhã 150 peças de pintura a óleo e aguarela, esboços e desenho.
A mostra integrada no Festival de Artes de Macau é hoje oficialmente inaugurada, mas só abre ao público amanhã, mantendo-se patente até 29 de Agosto. Trata-se da primeira vez que o território apresenta uma tão larga exposição de obras de Chinnery, autor que aqui terminou a vida e se encontra sepultado no Cemitério Protestante, junto ao jardim Luís de Camões.
“Queremos naturalmente mostrar a vida artística de Chinnery e lembrar a população de que em Macau viveu por 27 anos um artista tão importante. Estamos também este ano a comemorar os 185 anos da chegada de Chinnery a Macau”, explica a comissária da exposição, Grace Lei, que para a ocasião requisitou o empréstimo de peças a várias colecções particulares e de instituições. Hong Kong and Shanghai Banking Corporation (HSBC) e o grupo Jardin Matheson, da região vizinha, foram os principais contribuidores, cedendo 48 e 20 obras, respectivamente.
Primeiro anos
Há 185 anos, Macau - e, a espaços, Cantão – fizeram-se a casa deste viajante, em constante fuga a dívidas e a um matrimónio não desejado. O idílio com o território durou até à morte do pintor, cujo percurso se encontra organizado na Museu de Macau em quatro secções. Algumas das peças são do período que este passou na Índia. A maioria é no entanto de Macau.
“Vida em Inglaterra” abre a viagem. “Temos apenas seis peças dos seus primeiros trabalhos. São trabalhos de quando ele ainda um estudante da Real Academia de Artes de Londres”, conta a comissária.
Há estudos e desenhos de detalhe, já com alguma cor de aguarelas. Nos primeiros anos, descreve Grace Lei, Chinnery seguia “um estilo muito tradicional da pintura inglesa, do ‘Grand Style’, tendo sido influenciado por um importante retratista da época Joshua Reynolds, um dos fundadores da Real Academia de Artes”.
Entre as imagens expostas, está um retrato de Marianne Chinnery, figura que muitos dizem crucial na vida de viagens escolhida pelo pintor. “Quem conhece a história do pintor, já ouviu provavelmente que ele não gostava da mulher. Achava que ela era a mulher mais feia do mundo. Mas olhando para o retrato ela não sai nada mal. Não é assim tão feia quanto ele a descrevia aos amigos”, assente a comissária. Marianne fica para a posteridade como uma mulher bonita e de olhar lânguido.
Porém, diziam as más línguas da época que o pintor foi viajando até ao Oriente, fugindo à esposa com a qual casou aos 28 anos e teve dois filhos. Não é bonito. Mas é o que conta a história. Chinnery rumou à Índia sem Marianne e, conta-se também, escapando às dividas que já então o perseguiam.
Retratos da Índia
Na Índia, firmou-se como pintor retratista, recebendo várias comissões. “Kilpatrick Children”, quadro em que pinta os filhos de um dos principais oficiais britânicos em terras indianas, foi a obra que lhe deu fama enquanto pintor retratista. “Foi a primeira vez que ele pintou uma tela desta escala. Antes disso, fazia sobretudo trabalhos de miniatura e retratos de pequenas dimensões. Esta foi a primeira vez que pintou à escala humana. Estas duas crianças teriam dois ou três anos de idade”, conta a comissária, revelando que “após este quadro, ele recebeu várias comissões de oficiais britânicos de alta patente” para que lhes pintasse retratos de família, afirmando-se como uma espécie de fotógrafo antes da era fotográfica, inaugurada em 1939.
A maioria dos pedidos que recebia era para que pintasse as crianças que eram enviadas para Inglaterra para estudar. “Na maioria, eram comissões. Ganhou bastante dinheiro depois de se ter tornado conhecido, mas, infelizmente, não era muito poupado. Limitava-se a gastar, ficando profundamente endividado no final do seu tempo na Índia”, relata a comissária, que lembra também que o artista “não era muito eficiente”. “Demorava bastante tempo a acabar os retratos. Os clientes enviavam-lhe bastantes cartas, queixando-se”.
Mas, as paisagens indianas que a exposição também exibe, não eram fruto de encomenda. Embora muitas vezes as reproduzisse em gravuras para serem vendidas mais tarde na Europa, pintaria “por prazer” as cenas bucólicas de aldeia onde o gado e as figuras humanas são retratadas no seu quotidiano.
Acabaria, mais uma vez, por endividar-se de tal forma que seria obrigado a partir novamente, desta vez para o Sul da China. Marianne, que entretanto se unira a ele em terras indianas, mais uma vez ficou para trás. “A maioria das pessoas dirá que ele estava a fugir à mulher”.
Outra mulher, uma tancareira de Macau, idealizada em vários estudos do pintor, abre a secção de Macau. “Nota-se bem como aqui pintou para seu próprio deleite”. A mulher surge retratada de lábios e lenço vermelho-vivo, com a Fortaleza do Monte em fundo de carvão.
Na parte dedicada aos perto de trinta anos que Chinnery viveu e pintou no sul da China há também telas a óleo onde estão retratados alguns dos homens mais ricos de todo país. É o caso dos retratos de dois dos famosos 13 ‘hongs’ de Cantão, os mais abastados comerciantes da época.
Seguidores
George Chinnery andava constantemente entre Macau e Cantão. À altura, muita da paisagem do sul da China era conhecida pelo Ocidente em primeira-mão através das pinturas de Chinnery e de alguns outros retratistas estrangeiros da época.
O pintor fez também alguns seguidores, entre estes o famoso retratista chinês Lam Qua, que Chinnery não reconheceu como aluno, mas também William C. Hunter, que assistiu o pintor no leito de morte, o francês Auguste Borget, Robert Morrison Júnior, filho do primeiro missionário protestante na China, e o artista macaense Marciano António Baptista, que se iniciou na pintura copiando o estilo de George Chinnery. Os trabalhos destes autores estão patentes na secção final da exposição.
De Chinnery, cem peças preenchem duas das salas da exposição com as obras realizadas no sul da China. “Não conseguimos identificar se alguns dos quadros foram pintados em Cantão ou em Macau”, diz Grace Lei. Daí a mostra apresentar as telas em conjunto.
Mas muitos dos locais do antigo Macau são avistados de longe. E o jogo do realismo ameaça até afastar os visitantes da contemplação da arte do autor, admite a comissária, escapando à primeira vista “a forma como este usava a tinta e as cores”.
A exposição está inclusivamente organizada por locais de Macau: da Praia Grande a A-Ma, passando pelo Convento de São Francisco ou pela antiga Igreja da Madre de Deus – no único retrato existente da estrutura antes da deflagração do incêndio que a destruiu em 1835.
O jogo reconhecimento é, sim, deliberadamente proposto aos mais jovens na secção educativa, onde painéis convidam a adivinhar qual o local de Macau que surge retratado nas paisagens de George Chinnery, e outros onde se descobre qual o significado de cada símbolo estenográfico usado pelo pintor nos seus cadernos de esboços e, inclusivamente, pinturas.
