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“Há quem ache a nossa ópera inferior”

April 30, 2010

Com 83 anos de ideias arrumadas, Lam Fong Ngo, presidente da Associação Geral de Ópera Cantonense, fala das dificuldades da ópera cantonense em atrair jovens e financiar espectáculos. Tudo por uma questão de tendências: “Parece que por ouvir ópera italiana já se é muito bem educado e civilizado”, atira. Em entrevista ao PONTO FINAL, diz que o espectáculo “está rotulado com uma imagem negativa, antiquada”. E que só mais apoio do Governo pode ajudar a inverter a situação.

Kelvin U

“O Romance da Seda Vermelha”, para ver amanhã no grande auditório do Centro do Cultural, às 20h00, é o espectáculo que abre o Festival de Artes, que vai até 29 de Maio. E é também uma das raras ocasiões para ver ópera local nas melhores condições, garante Lam Fong Ngo. Aos 83 anos, a presidente da Associação Geral de Ópera Cantonense confessa o amor por este espectáculo desde a infância, quando conviveu pela primeira vez com os cenários, as caracterizações, as músicas. Mas lamenta a falta de investimento e de espaços adequados para actuar.
A mulher que começou a cantar Ópera Cantonense já com 60 anos, altura em que a desafiaram para actuar num concerto de beneficência – e que desde então não parou de praticar – pede mais apoios ao Executivo e fala de uma mudança de mentalidades que é preciso operar. “Antes que seja demasiado tarde.”
- Que balanço faz da Ópera Cantonense de Macau?
Lam Fong Ngo –
Apresentámos mais de 60 espectáculos no último ano, que tiveram um impacto muito positivo. Através do feedback que recebemos, percebemos que há uma boa quantidade de público e de fãs. Até agora, mais de 70 grupos estão registados na Associação, sendo que nem todos têm a mesma qualidade – alguns são excelentes, outros são fracos. O que podemos fazer, enquanto entidade privada, é financiar aqueles que têm valor, encorajá-los.
- É possível ter futuro enquanto profissional da Ópera Cantonense?
L.F.N. –
Para ser honesta, é difícil ganhar a vida com isto, mesmo sendo profissional. Não há garantias de um futuro promissor. Os professores que contratamos são um grupo de amadores que partilha a mesma paixão que nós, e que têm outros trabalhos durante o dia. Mesmo em Pequim, por exemplo, a protagonista de um espectáculo destes pode receber qualquer coisa como mil yuan por mês, nem que leve mais de 30 anos a praticar, o que é miserável.
- Então, de que modo é possível atrair os jovens para aprenderem Ópera Cantonense?
L.F.N. –
É um grande desafio e uma dificuldade que sentimos, mas isso não significa que fiquemos imóveis. O que vejo nesta geração é que ela se limita a seguir as tendências. Qualquer tendência prende a atenção dos adolescentes. Actualmente, a ópera cantonense está rotulada com uma imagem negativa, de espectáculo antiquado, fora de moda, que apenas é interpretado e apreciado pelos mais velhos. Não parece tão cativante como as  canções pop. O que piora a situação é que esse modo de olhar as coisas tem que ver com os nossos valores sociais. Num mundo comercial como o nosso, as coisas dependem da embalagem para venderem com sucesso. Aqueles que têm uma boa imagem, atraente, já partem em vantagem. Tal como os Twins, cantores pop muito famosos em Hong Kong: a música deles é muito fácil e não é preciso prestar muita atenção às vozes. Além do mais, fazem imenso dinheiro, num concerto podem facturar milhares de patacas.
- O que é que se pode fazer para alterar esta tendência?
L.F.N. –
Bom, muita gente sabe que é mais provável vermos a promoção da cultura ocidental que da local. Têm-se várias oportunidade de ver ópera italiana no Centro Cultural, mas ópera chinesa… E parece que por ouvir ópera italiana já se é muito bem educado e civilizado. Há pessoas que têm este tipo de preconceito, acham que a ópera italiana é qualquer coisa para as classes altas, e que a nossa ópera é inferior. Mas não somos. Para ser profissional neste ramo, é preciso um nível elevado de educação, é preciso amar a literatura chinesa e perceber realmente o que cada coisa significa quando se está a contar uma história. Há imensas alusões e textos lindos, tal como quando alguém estuda Shakespeare. Além disso, é preciso passar por um treino imenso, de canto, de articulação de palavras, de entoação, tudo muito exigente.
O que o Governo pode fazer, que nos deixaria muito orgulhosos, é recomendar que haja mais concertos de ópera chinesa, com mais regularidade, por exemplo em eventos internacionais ou na abertura de grandes espectáculos. E que haja mais ópera chinesa do Centro Cultural. É a única maneira de poder mudar mentalidades, e é preciso agir agora antes que seja demasiado tarde. A ópera chinesa não é qualquer coisa antiquada e alienada do nosso quotidiano, e precisa de mais promoção para ser reconhecida como uma forma de arte de grande qualidade. E é interpretada na nossa língua materna, o que a torna mais fácil de ver e absorver, certo?
- Há algum apoio financeiro do Governo para os espectáculos ou na formação?
L.F.N. –
Na verdade, recebemos apenas um pequeno subsídio, e ultrapassamos sempre o orçamento. Sabe, custa-nos à volta de 300 mil patacas apresentar uma produção com uma orquestra famosa da China Continental, porque temos de contratar os músicos, os instrumentos, e pagar o alojamento e as deslocações dessas pessoas. E o preço que disse nem sequer inclui custos com o cenário, o guarda-roupa, os adereços.
O que é interessante de ver é que o público em Macau não está disposto a pagar por um espectáculo nem que os bilhetes sejam muito baratos, menos de 150 patacas, por exemplo. O que fazem é telefonarem-nos, para ver se disponibilizamos bilhetes. Ao fim e ao cabo, montamos uma produção praticamente às custas do nosso próprio dinheiro. De qualquer dos modos, o Governo deve tomar a iniciativa de promover a cultura. Macau tem uma população reduzida, um mercado limitado, nada que se compare a Hong Kong, e deve fazê-lo se queremos continuar a desfrutar deste tipo de música no futuro. Neste momento, o Cinema Alegria e o Centro Cultural são as duas únicas infra-estruturas que nos permitem montar um espectáculo. Temos encorajado muito o Governo a construir um grande centro cultural para o ensino e exibição de todas as formas de arte.

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