“Há quem ache a nossa ópera inferior”
Com 83 anos de ideias arrumadas, Lam Fong Ngo, presidente da Associação Geral de Ópera Cantonense, fala das dificuldades da ópera cantonense em atrair jovens e financiar espectáculos. Tudo por uma questão de tendências: “Parece que por ouvir ópera italiana já se é muito bem educado e civilizado”, atira. Em entrevista ao PONTO FINAL, diz que o espectáculo “está rotulado com uma imagem negativa, antiquada”. E que só mais apoio do Governo pode ajudar a inverter a situação.
Kelvin U
“O Romance da Seda Vermelha”, para ver amanhã no grande auditório do Centro do Cultural, às 20h00, é o espectáculo que abre o Festival de Artes, que vai até 29 de Maio. E é também uma das raras ocasiões para ver ópera local nas melhores condições, garante Lam Fong Ngo. Aos 83 anos, a presidente da Associação Geral de Ópera Cantonense confessa o amor por este espectáculo desde a infância, quando conviveu pela primeira vez com os cenários, as caracterizações, as músicas. Mas lamenta a falta de investimento e de espaços adequados para actuar.
A mulher que começou a cantar Ópera Cantonense já com 60 anos, altura em que a desafiaram para actuar num concerto de beneficência – e que desde então não parou de praticar – pede mais apoios ao Executivo e fala de uma mudança de mentalidades que é preciso operar. “Antes que seja demasiado tarde.”
- Que balanço faz da Ópera Cantonense de Macau?
Lam Fong Ngo – Apresentámos mais de 60 espectáculos no último ano, que tiveram um impacto muito positivo. Através do feedback que recebemos, percebemos que há uma boa quantidade de público e de fãs. Até agora, mais de 70 grupos estão registados na Associação, sendo que nem todos têm a mesma qualidade – alguns são excelentes, outros são fracos. O que podemos fazer, enquanto entidade privada, é financiar aqueles que têm valor, encorajá-los.
- É possível ter futuro enquanto profissional da Ópera Cantonense?
L.F.N. – Para ser honesta, é difícil ganhar a vida com isto, mesmo sendo profissional. Não há garantias de um futuro promissor. Os professores que contratamos são um grupo de amadores que partilha a mesma paixão que nós, e que têm outros trabalhos durante o dia. Mesmo em Pequim, por exemplo, a protagonista de um espectáculo destes pode receber qualquer coisa como mil yuan por mês, nem que leve mais de 30 anos a praticar, o que é miserável.
- Então, de que modo é possível atrair os jovens para aprenderem Ópera Cantonense?
L.F.N. – É um grande desafio e uma dificuldade que sentimos, mas isso não significa que fiquemos imóveis. O que vejo nesta geração é que ela se limita a seguir as tendências. Qualquer tendência prende a atenção dos adolescentes. Actualmente, a ópera cantonense está rotulada com uma imagem negativa, de espectáculo antiquado, fora de moda, que apenas é interpretado e apreciado pelos mais velhos. Não parece tão cativante como as canções pop. O que piora a situação é que esse modo de olhar as coisas tem que ver com os nossos valores sociais. Num mundo comercial como o nosso, as coisas dependem da embalagem para venderem com sucesso. Aqueles que têm uma boa imagem, atraente, já partem em vantagem. Tal como os Twins, cantores pop muito famosos em Hong Kong: a música deles é muito fácil e não é preciso prestar muita atenção às vozes. Além do mais, fazem imenso dinheiro, num concerto podem facturar milhares de patacas.
- O que é que se pode fazer para alterar esta tendência?
L.F.N. – Bom, muita gente sabe que é mais provável vermos a promoção da cultura ocidental que da local. Têm-se várias oportunidade de ver ópera italiana no Centro Cultural, mas ópera chinesa… E parece que por ouvir ópera italiana já se é muito bem educado e civilizado. Há pessoas que têm este tipo de preconceito, acham que a ópera italiana é qualquer coisa para as classes altas, e que a nossa ópera é inferior. Mas não somos. Para ser profissional neste ramo, é preciso um nível elevado de educação, é preciso amar a literatura chinesa e perceber realmente o que cada coisa significa quando se está a contar uma história. Há imensas alusões e textos lindos, tal como quando alguém estuda Shakespeare. Além disso, é preciso passar por um treino imenso, de canto, de articulação de palavras, de entoação, tudo muito exigente.
O que o Governo pode fazer, que nos deixaria muito orgulhosos, é recomendar que haja mais concertos de ópera chinesa, com mais regularidade, por exemplo em eventos internacionais ou na abertura de grandes espectáculos. E que haja mais ópera chinesa do Centro Cultural. É a única maneira de poder mudar mentalidades, e é preciso agir agora antes que seja demasiado tarde. A ópera chinesa não é qualquer coisa antiquada e alienada do nosso quotidiano, e precisa de mais promoção para ser reconhecida como uma forma de arte de grande qualidade. E é interpretada na nossa língua materna, o que a torna mais fácil de ver e absorver, certo?
- Há algum apoio financeiro do Governo para os espectáculos ou na formação?
L.F.N. – Na verdade, recebemos apenas um pequeno subsídio, e ultrapassamos sempre o orçamento. Sabe, custa-nos à volta de 300 mil patacas apresentar uma produção com uma orquestra famosa da China Continental, porque temos de contratar os músicos, os instrumentos, e pagar o alojamento e as deslocações dessas pessoas. E o preço que disse nem sequer inclui custos com o cenário, o guarda-roupa, os adereços.
O que é interessante de ver é que o público em Macau não está disposto a pagar por um espectáculo nem que os bilhetes sejam muito baratos, menos de 150 patacas, por exemplo. O que fazem é telefonarem-nos, para ver se disponibilizamos bilhetes. Ao fim e ao cabo, montamos uma produção praticamente às custas do nosso próprio dinheiro. De qualquer dos modos, o Governo deve tomar a iniciativa de promover a cultura. Macau tem uma população reduzida, um mercado limitado, nada que se compare a Hong Kong, e deve fazê-lo se queremos continuar a desfrutar deste tipo de música no futuro. Neste momento, o Cinema Alegria e o Centro Cultural são as duas únicas infra-estruturas que nos permitem montar um espectáculo. Temos encorajado muito o Governo a construir um grande centro cultural para o ensino e exibição de todas as formas de arte.
