Skip to content

“É como comparar uma mosca com um cavalo”

April 29, 2010

“The House of Dancing Water”, espectáculo gizado por Franco Dragone, vai estrear ainda este ano no City of Dreams. O criador, que já trabalhou com o Cirque du Soleil, não é de modas quando toca a analogias com “Zaia”, em exibição no Venetian: “Acho que eles fizeram algo fantástico, porque abriram o mercado. Mas penso que não há comparação com aquilo que vamos apresentar, é como comparar um planeta muito pequeno com o maior de todos”. Palavra ao PONTO FINAL do homem que garante que vem aí “o maior espectáculo do mundo”. Com uma portuguesa no elenco.

Hélder Beja, em Hong Kong

Franco Dragone revolve-se na cadeira quando começa a falar deste “The House of Dancing Water”, entusiasma-se. E para mais não está ao nosso lado: vemo-lo num ecrã, durante uma inusual entrevista por videoconferência que traz até Hong Kong imagens do outro lado do mundo, em tempo real.
Depois de um percurso que o levou ao Cirque du Soleil, onde trabalhou durante doze anos e participou na produção de espectáculos hoje internacionalizados pela companhia canadiana (casos de “Quidam” ou “Alegria”), este italiano, criado na Bélgica e que passou boa parte da sua vida no Canadá, resolveu fundar o Franco Dragone Entertainment Group e produzir os seus próprios espectáculos. A “Disney Cinema Parade”, na Disneyland Paris, ou o “Celin Dion Show”, em Las Vegas, são algumas das suas criações mais reconhecidas.
Agora, prestes a chegar a Macau, o director artístico e empresário de 58 anos destaca os números da nova produção que ficará em permanência no casino-resort City of Dreams, e que é apresentada como a maior de sempre tendo a água como elemento central. No Teatro dos Sonhos, nome dado à sala que receberá o espectáculo, 2.000 pessoas poderão ver evoluir um elenco de 77 artistas, com proveniências tão diferentes como Tanzânia, Itália, EUA, Canadá, Israel, até Portugal e, claro, China; e uma equipa de mais de 130 técnicos. Tudo para produzir um espectáculo que terá como pólo agregador uma piscina com aproximadamente 17 milhões de litros de água, alojados em 48 metros de diâmetro e oito de profundidade – a piscina será, na verdade, o palco de toda esta produção pensada por Dragone.
Dragone viaja em breve para a RAEM, que já conhece e onde viverá por algum tempo, até “The House of Dancing Water” (numa tradução livre, qualquer coisa como “A Casa da Água Dançante”) olear procedimentos. Nesta entrevista, revela os detalhes de um espectáculo que não é chinês mas tem China dentro, que não é circo mas performance humana. E garante querer torná-lo num “destino” para aqueles que visitam o território.
- O que é “The House of Dancing Water”?
Franco Dragone –
É um espectáculo baseado no elemento água. Tentei juntar nesta produção tudo o que aprendi até hoje e creio que é mesmo o melhor do melhor daquilo que já fiz. Trata-se de uma fusão entre performance humana, tecnologia e efeitos especiais – e quando falo de efeitos especiais refiro-me e efeitos que envolvem água, pirotecnia e também criações digitais. Vamos apresentar um espectáculo multimédia que combinará os talentos de mais de 77 artistas, mas que também terá uma narrativa. A grande diferença desta produção, e o grande objectivo, é fazer com a água, num espectáculo em recinto fechado, o que ninguém fez até agora. Associaremos água e acrobacias com motos, o que talvez seja a grande dificuldade que estamos a encontrar neste momento, mas também o maior desafio.
- E que narrativa será essa?
F.D. –
Tentarei falar para todos os públicos, de todas as idades. Portanto, a narrativa é simples. Isto é, a linguagem principal do espectáculo não é a narrativa, a linguagem principal para falar com a audiência é aquilo a que chamo “arquétipo emocional”. Isto significa que, nos meus espectáculos – que venho apresentando por todo o mundo e que já foram vistos por mais de 60 milhões de pessoas – tive de encontrar um modo de chegar às pessoas, uma vez que não uso palavras, diálogos. Comecei com esta hipótese: acredito que um recém-nascido chinês fala a mesma “linguagem” que um recém-nascido na Bélgica. Eles têm todas as linguagens na sua mente e é a educação, a aculturação, que lentamente os transforma num chinês e num belga. Mas continuo a acreditar que temos esta linguagem fundamental e universal, que choramos e rimos e estamos tristes pelas mesmas razões. Acredito que, quando olhamos um pôr-do-sol, temos a mesma reacção nos nosso cérebro. Todos temos saudades de alguém, por exemplo. São estas imagens, para mim universais, que tento usar para comunicar com a audiência.
- Mas e a história propriamente dita, neste caso?
F.D. –
Neste contexto de imagens, tenho então uma pequena narrativa: a de uma princesa que quer libertar o seu povo. É uma princesa de um reino onde quer que toda a gente seja feliz. Claro que depois temos os antagonistas, personagem como a Rainha Negra, que não quer que esta pequena princesa tenha paz. Peguei no mecanismo dos contos tradicionais chineses, contos gregos e de outros países ocidentais, usei esses mecanismos dramatúrgicos nesta pequena narrativa que guiará as pessoas através da performance. Não queria que o espectáculo tivesse interrupções para que entrassem actos de circo – nós não fazemos actos de circo, porque a China é o país a nível mundial que mais sabe disso –, o que queremos é centrar-nos na performance humana.
- Existem ingredientes chineses deste projecto?
F.D. –
Não queria copiar uma história tradicional chinesa, ou mesmo ocidental. Mas para falar da presença chinesa, posso dizer que esta personagem central, a princesa, é uma artista chinesa, de Xangai e estava com o Ballet de Hong Kong. Ela é linda mas essa não é a sua melhor característica: ela é ao mesmo tempo forte e frágil. No que toca às personagens, ela é a grande presença chinesa. De resto, durante o espectáculo as pessoas poderão reconhecer ambientes chineses, de pequenas aldeias, de montanhas, de Xangai, por exemplo. Construímos uma cidade-cenário que é uma composição de Xangai, Hong Kong, Macau e Zhuhai. Pegámos em elementos e criámos uma nova cidade. Ao mesmo tempo, há simbologia chinesa nesta produção. Todas estas coisas dão um certo sabor asiático ao espectáculo, mas não é uma cópia de uma história tradicional – apesar de ter trabalhado em parceria com uma escritora chinesa. Acho que este é o espectáculo da nova geração, da China de hoje, onde temos a tradição e ao mesmo tempo o futuro, a modernidade. Não queria copiar clichés chineses, queria que essa presença da cultura chinesa no espectáculo fosse mais subtil.
- O que é que o inspirou? Algum fascínio pela cultura chinesa?
F.D. –
No ano passado, na Bélgica, houve uma série de actividades especiais dedicadas à China. Li muito sobre o país, assisti a ópera chinesa, desde muito novo que isso me fascina. Tudo isto me influenciou mas, mais uma vez, não queria plagiar nada. O que fizemos foi, neste cruzamento entre culturas, perceber quais eram as chaves para contar uma história universal. Nem sequer quis que tivesse um nome chinês, nem tentar fazer coisas que outros podem fazer bem melhor que eu. Não é, portanto um espectáculo sobre a China, mas com sabor chinês. Tenho uma amiga que vive em Pequim e que acompanha a arte contemporânea que por lá se faz. Também ela me contou imensas histórias sobre a juventude chinesa dos dias de hoje, sigo imenso a história de Han Han, um jovem blogger e escritor de Xangai [que está na lista deste ano das pessoas mais influentes do mundo para a revista Time], isso fez-me aprender imenso sobre a nova China.
- Pensou nos espectadores chineses durante a criação, uma vez que serão eles o grosso da assistência?
F.D. –
Julgo que, se usarmos a linguagem adequada, conseguimos chegar às pessoas. Vou a Cantão no dia 9 de Maio e ficarei lá durante cinco dias, para dar uma palestra e um workshop. Em Cantão, pediram-me que criasse um espectáculo com artistas locais. Vamos discutir isso e tenho a certeza que irei trabalhar com eles, porque os nossos mundos são diferentes mas partilhamos o palco em comum. Esse acaba por ser o nosso mundo. Não há fronteiras entre artistas, nem entre emoções e sentimentos como alegria, tristeza, ódio, amor. É com essa linguagem que eu trabalho. Pode até parecer disparatado, mas é assim que trabalho.
- Onde é que encontrou as pessoas que participam no elenco?
F.D. –
Fizemos audições por todo o mundo e tivemos de procurar imenso, porque queríamos pessoas muito especializadas. As pessoas chinesas que trabalham connosco, além da que interpreta a princesa e que já referi, há o irmão da princesa e ainda outro artistas chinês que trabalhou comigo pela primeira vez há dez anos. Ao todo, tenho três artistas nascidos e criados na China a trabalhar comigo. Depois há dois brasileiros, belgas, portugueses, argentinos.
- Portugueses?
F.D. –
Sim, uma rapariga. É aquilo a que chamamos “generalista”: faz performance, é acrobata. Tivemos dez meses de formação, em que ensinamos todo o elenco a dançar, a nadar. Mas ao todo temos 18 nacionalidades.
- Acredito que esteja confiante no sucesso do “The House of Dancing Water” em Macau. O que é que vai fazer diferente que o leva a crer que será mais bem sucedido que, por exemplo, o espectáculo “Zaia”, do Cirque do Soleil, que está no Venetian e que tem passado por algumas dificuldades quanto à adesão do público?
F.D. –
Aprendi com a filosofia chinesa que, às vezes, é melhor aguardar, observar e aprender, do que agir demasiado rápido. Aprendi muito com a experiência dos meus amigos [do Cirque du Soleil], acho que eles fizeram algo fantástico, porque tentaram, abriram o mercado em Macau para este tipo de espectáculo, era arriscado. Mas penso que não há comparação com aquilo que vamos apresentar, é como comparar um planeta muito pequeno com o maior de todos. Em dimensão, em investimento, na relação cultural que queremos criar, tudo é totalmente diferente. Cirque du Soleil veio com a sua marca: “Nós somos o Cirque du Soleil, e este é um espectáculo nosso”. Eu não venho com um espectáculo de Franco Dragone, eu venho para Macau. Quando decidimos fazer esta produção, a primeira coisa que disse ao Lawrence Ho [CEO da Melco Crown Entertainment, proprietária do City of Dreams] foi que o nosso espectáculo tinha de ser o grande acontecimento de Macau. Em dimensão, não há comparação, é como comparar uma mosca com um cavalo. Não é algo que já tenhamos feito antes noutra parte, é único. “Zaia” é um espectáculo de circo que pode ver-se em qualquer outra parte. Nós, também aí, não temos actos circenses mas performance humana. Com todo o respeito que tenho pelo Cirque, acho que a nossa abordagem é mais empática, uma abordagem de produzir tudo com o sentimento de que este show pertence a Macau.
- Uma vez que o espectáculo estará permanentemente em Macau, isso influenciou o seu trabalho? Teve oportunidade de visitar a cidade?
F.D. –
Sim, influenciou. O espectáculo começa com um barco numa lagoa. Li na História de Macau que, no século XV, um barco naufragou perto de Macau e decidi começar esta produção com um enorme barco a entrar em cena, com marinheiros a saltarem e a mergulharem. O navio afunda, desaparece na água, e da água aparece depois uma personagem. Isto foi inspirado no que li sobre Macau. De resto, visitei Macau quatro ou cinco vezes, estive pouco tempo, mas uso sempre o que vejo e sinto nos meus espectáculos. Como disse, fizemos umas cidade que será projectada nesta produção e que tem alguns elementos de Macau, mas não copiei nada de Macau.
- Pensa viver em Macau por algum tempo?
F.D. –
Na verdade chegarei daqui a duas semanas e ficarei a viver aí durante quatro meses. Já visitei alguns casinos em Macau, alguns clubes também, andei pelas ruas. Mas é evidente que quero conhecer e aprender mais sobre esta comunidade. Claro que já fiz algum turismo por aí, mas não tive tempo para viver a cidade. Terei essa oportunidade agora.
- A indústria do jogo é muito forte em Macau. Acha que esse é o principal factor     que transforma o território no local certo para este espectáculo?
F.D. –
É muito por causa do Laurence Ho e do seu resort, City of Dreams, que não é um hotel mas um resort que combina a modernidade com a tradição. Julgo que este resort tem a intenção de levar novos produtos para Macau, entretenimento de alta qualidade, restaurantes de alta qualidade, marcas de alta qualidade. Passámos pelo mesmo processo em Las Vegas: quando comecei em Las Vegas, havia apenas uns quantos espectáculos de grande dimensão, ou excelentes restaurantes, e tudo mudou. Julgo que em Macau essa mudança será mais rápida, porque Macau já é uma cidade urbana. Parece-me que a cidade crescerá e vai tornar-se muito mais cultural. Tenho uma amiga chinesa, pintora, que me garante que há imensos projectos para trazer mais cultura do Continente para Macau. Acho que os espectáculos que temos de proporcionar aí não têm de ser baratos, mas sim de alta qualidade, que sejam capazes de levar as pessoas que estão nas mesas de jogo a terem motivação para ver estas produções teatrais.
- Hong Kong seria uma cidade onde também lhe interessaria trabalhar?
F.D. –
Hong Kong é uma cidade maravilhosa. Agora estou concentrado neste projecto e em Macau, mas se houver alguma coisa em Hong Kong vou saltar sobre o mar para ir para Hong Kong (risos). É um sítio fantástico, com uma grande atmosfera. Há cinco semanas estive com o meu fllho em Hong Kong e Macau, e Hong Kong, passe o lugar comum, fez-me sentir facilmente em casa. Parece muito fácil viver em Hong Kong, à excepção do calor e da humidade, tal como em Macau.
- Acha que um espectáculo se vai transformar numa verdadeira atracção turística que leve pessoas a Macau?
F.D. –
Trabalhei para isso. O resort onde estaremos já é, em si, um destino procurado. Mas trabalhei muito para que o espectáculo também se torne um “destino turístico”. Não há nada no mundo como o que vamos mostrar, com estas dimensões, este investimento. Pela experiência que tenho de outros lugares, acho possível que o show se transforme num “destino” que faça mais pessoas visitarem a região. Há pessoas que hoje vão a Las Vegas só para ver “Le Rêve” [espectáculo aquático da sua autoria], portanto acredito que com “The House of Dancing Water” pode acontecer o mesmo. Se não acreditar em mim próprio, acho que ninguém acreditará (risos).
- A produção está quase pronta ou ainda há muito trabalho a fazer?
F.D. –
Sabe, trabalho sempre até ao último dia, sempre. Fica desde já o convite para comprovar isso mesmo, para ver como do lado de lá do palco se trabalha até à última (risos).

Advertisement
No comments yet

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Connecting to %s

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.